COMPARTILHE
San Miniato
Nas pré-escolas e creches de San Miniato, meninos e meninas são tidos como protagonistas de seu processo educativo

São muitos os atributos da bela e bucólica San Miniato, no coração da Toscana. Um deles, porém, chama a atenção do mundo para a cidade italiana de 26 mil habitantes, cujo modelo de política pública para a Educação Infantil se tornou referência.


Lá, a modalidade de ensino – que não é obrigatório, assim como no Brasil – tornou-se bem-sucedida em uma tarefa árdua para muitos contextos escolares: a transposição da 
teoria para a prática.

Inspirada nas ideias do pedagogo Loris Malaguzzi (1920-1994), baseada e sistematizada na Pedagogia da Escuta, as pré-escolas e creches de San Miniato acreditam em uma nova imagem de infância, na qual meninos e meninas são tidos como protagonistas de seu processo educativo. Assim, as disciplinas formais dão lugar a atividades pedagógicas desenvolvidas por meio de projetos.

Estes, por sua vez, não partem dos professores ou outras autoridades, mas das ideias e intenções dos próprios alunos, que os desenvolvem por meio de diferentes linguagens. Em outras palavras, priorizam-se os processos de aprendizagem próprios das crianças, desconectados da ânsia precoce de instruir.

Tal concepção é compartilhada com a vizinha mais ao norte, Reggio Emilia, famosa entre educadores de todo o mundo. Devastada após o fim da Segunda Guerra Mundial, a comunidade local uniu-se em torno da reconstrução do município e fortaleceu seus equipamentos públicos, a fim de iniciar uma nova trajetória para as gerações que se seguiriam.

Foi como nasceu a primeira escola da comunidade com uma metodologia de respeito à criança e valorização da curiosidade e criatividade. É comum, por exemplo, ver desenhos e outras criações dos pequenos estampando as vitrines do comércio ou integradas a espaços públicos como teatros, praças e pontos turísticos.

“O que ambas as cidades possuem em comum é o foco na criança. Nesse sentido, podemos entender a perspectiva de Malaguzzi quando fala que a criança é sujeito do seu próprio conhecimento. Ela nasce com grandes recursos e um enorme potencial que não cessa de nos surpreender, dotada de ferramentas para construir seus processos de pensamento, suas ideias, suas perguntas e respostas”, explica Valéria Gonçales Andreetto, autora da tese de mestrado “Reggio Emilia e San Miniato: Experiência em política para a qualidade da infância”, desenvolvida na Unicamp.

No caso específico de San Miniato, Aldo Fortunati aparece como figura central. Presidente do Centro de Pesquisa de Documentação sobre a Infância La Bottega di Geppetto e professor da Universidade de Florença, Fortunati esteve no Brasil em fevereiro e é cuidadoso ao falar das razões que fizeram do município um oásis para a infância – sabe que o risco a rotulações é grande.

“O jeito certo de falar de San Miniato é de uma abordagem à educação e não de um modelo. Abordagem significa que existem alguns elementos que devem ser considerados para construir a qualidade, mas não há um modelo fechado que garanta isto”, explica o especialista em psicologia do desenvolvimento e educação na primeira infância.

Entre esses elementos, destacam-se o planejamento do espaço físico, a participação das famílias, o trabalho compartilhado entre os educadores e atividades de caráter e programação flexível.

A participação e o envolvimento da comunidade com o serviço talvez sejam o aspecto mais evidente. Na cidade, a escola é vista como um espaço público, local de encontro e interação entre os cidadãos, sejam eles pequenos, jovens ou idosos.

Essa integração decorre do fato de a Educação Infantil no município ter sido construída pela e em prol da população. “Não foi sempre assim. Mas, à certa altura, as demandas das famílias pelo serviço tornaram-se fortes e, consequentemente, ocorreu o seu desenvolvimento. Hoje, todas as famílias consideram natural e importante sua presença”, conta.

Outro alicerce é a concepção do espaço físico como mais do que um simples recipiente. “Crianças aprendem e conhecem o mundo explorando-o. O espaço deve promover relacionamentos, encontros, tanto entre as crianças como entre elas e os adultos”, afirma Fortunati. Para isso, os ambientes não apresentam fronteiras definidas como janelas, muros e divisórias.

Tudo parece convidar e atrair os olhos de um espaço para o outro. “Transparência é uma das palavras que os educadores gostam de usar”, diz Valéria.

Da mesma forma, o aprendizado não é dividido ou isolado em categorias. As crianças voltam-se para projetos e aprendizados prévios que podem ser continuados, interrompidos, retomados.

“Há um sentido de continuidade e de concatenação. As coisas se movem em espiral e se estendem”, explica a pesquisadora brasileira, que resolveu estudar o projeto após participar de um grupo de estudos sobre a abordagem de Reggio Emilia, que visita anualmente desde 2004.

Em vez de currículo, fala-se em ação estratégica que move o projeto. “Um currículo leva a operações e resultados predeterminados, já a estratégia requer habilidade de trabalhar as oportunidades e conexões que surgem”, explica Marisa Zanoni Fernandes, professora da Universidade do Vale do Itajaí que conheceu a experiência ao longo do desenvolvimento de sua tese de doutorado.

“O contexto acolhe e promove a autonomia, a curiosidade. Por isso, o jogo livre, as atividades em pequenos grupos, as interações entre diferentes idades (agrupamentos por faixa etária mista)”, afirma.

Os professores, por sua vez, trabalham sempre em colaboração. Dessa maneira, não só os resultados e ações positivas, mas também os problemas, riscos e erros são trabalhados em conjunto. “Ninguém se esforça sozinho, o que implica benefícios resultantes de cada contribuição pessoal e, ao mesmo tempo, mantém a marca do grupo”, conta Valéria, que esteve lá em 2010.

Para Marisa, que também visitou a cidade, o educador em San Miniato é, essencialmente, um sujeito que exerce a função de escuta: “Ele reflete e interpreta as ações e relações entre as crianças (documentação), organiza o espaço e a gestão das relações com as famílias, focando sempre na obtenção de oportunidades”.

O envolvimento das famílias é outro aspecto fundamental. “Tentamos dar espaço e tempo para acomodá-las e fazê-las conhecer mais de perto os nossos serviços e, assim, ajudá-las a escolher o que é mais adequado às suas necessidades e de seus filhos”, diz Fortunati.

O encontro com os pais acontece por meio de reuniões, assembleias, colóquios, laboratórios e festas e representa um importante momento de atualização tanto para os profissionais como para os pais.

São apresentados, através de múltiplas documentações, os processos, as teorias, as inteligências das crianças. Trata-se de encontros, nas palavras de Valéria, em que os saberes da criança tornam-se visíveis, comentados e interpretados em conjunto.

Além disso, o diálogo revela-se fundamental para que os educadores possam conhecer a história e as experiências que cada criança traz consigo. “Devemos conversar com os pais sempre que possível, para que as famílias entendam e compartilhem o valor e o conteúdo dessas experiências”, explica Fortunati. Sobre os maiores beneficiados com a experiência, o condutor do projeto responde:

“Há 20 anos, pesquisadores americanos vieram estudar a cidade e fizeram a seguinte pergunta: os jardins de infância são para as crianças ou para as famílias? Ao final, concluíram que, em San Miniato, não são nem para crianças nem para as famílias, mas para a comunidade”.