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Eduardo Boitempo

Alunos diferentes aprendem de maneiras e em ritmos também distintos. Mas como identificar essas particularidades, dentro de um modelo educacional cada vez mais uniformizado? As plataformas e outras tecnologias de ensino adaptativo ou aprendizagem adaptativa (adaptive learning, em inglês) surgem como uma alternativa.


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Utilizando softwares capazes de detectar e mapear as principais habilidades e deficiências de cada aluno a partir de suas reações às tarefas propostas, essas ferramentas prometem revolucionar o processo de ensino-aprendizagem ao permitir o desenvolvimento de planos de estudo e atividades sob medida. Em outras palavras, uma educação personalizada de acordo com o perfil de cada estudante.

Por meio delas, cada aluno recebe um feedback de seu desempenho em tempo real, além da sugestão de conteúdos que precisam ser reforçados para avançar na disciplina, que pode vir em formato de games, textos, vídeos e exercícios. “O sistema mede a variação do nível de proficiência do estudante a cada passo e modifica o programa no ritmo e grau de dificuldade necessários para otimizar a aprendizagem daquele indivíduo”, explica Martha Gabriel, autora do livro [email protected] – A (r)evolução digital na educação, publicado pela Editora Saraiva.

Integrados ao cotidiano escolar, esses programas podem complementar o trabalho do professor. “Da mesma forma que algumas escolas têm tutores para auxiliar os estudantes nas atividades extraclasse, o ensino adaptativo funciona como um tutor particular computacional para cada aluno”, diz Martha.

Para Sara Ittelson, diretora de Desenvolvimento de Negócios da Knewton, considerada a maior plataforma adaptativa do mundo, as classes estão repletas de indivíduos que vêm de contextos educacionais diversos e, portanto, que apresentam necessidades e interesses diferentes. “É difícil para o professor saber exatamente onde cada aluno está, no que está tendo dificuldade e por quê. Pretendemos dar-lhe análises e ferramentas para ajudá-lo a identificar essas necessidades com mais facilidade”, diz.

Fundada em 2008, a empresa americana já impactou a prática pedagógica de mais de 4 milhões de estudantes e espera atingir mais de 7 milhões de usuários até o fim de 2014, incluindo os brasileiros. “Estamos conversando com muitas empresas brasileiras de educação. A Knewton, em breve, anunciará parcerias no Brasil e em toda a região latino-americana”, conta Sara.

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No País, a primeira e maior plataforma de ensino adaptativo é a Geekie Lab, que estima atingir 3,7 milhões de estudantes até o fim deste ano. Para Eduardo Bontempo, fundador da startup ao lado de Claudio Sassaki, as ferramentas de aprendizagem adaptativa são estratégias que possibilitam maior inclusão dos alunos. “O que vemos hoje é uma escola que tenta ensinar todos da mesma forma. É o aluno tendo de se adequar ao conteúdo e não ao contrário. Nesse processo massificado, muitos acabam ficando para trás”, relata.

Ao gerar relatórios com informações detalhadas sobre o desenvolvimento individual dos estudantes ou ainda da classe como um todo, a Geekie Lab possibilita que o professor, escola e rede de ensino ofereçam uma aula que atenda todos os alunos, e não apenas um grupo específico. “Eles passam de fato a conhecer quem são seus alunos, qual a forma que eles aprendem melhor e o que é preciso adaptar para permitir que tenham uma melhor experiência de aprendizado”, explica Bontempo.

Outro serviço oferecido pela empresa é o Geekie Teste, ferramenta com foco no Enem cuja concepção se baseia na Teoria de Resposta ao Item (TRI), mesma metodologia utilizada pelo exame e por provas internacionais. “Oferecemos um diagnóstico por meio do qual o aluno pode comparar sua nota com a nota de corte dos cursos de sua escolha, além de saber que conhecimentos priorizar para atingir seus objetivos.” O professor também recebe um relatório de sua matéria, podendo ter uma visão dos temas, turmas e alunos que precisam de mais atenção. O diretor, por sua vez, conta com um diagnóstico geral da escola, que lhe permite traçar um plano de ação.

A possibilidade de fazer a coleta e o acompanhamento de informações sobre como os alunos aprendem em rede pode auxiliar até mesmo a formulação de políticas públicas. “Reduz-se o intervalo de intervenção, já que os resultados são praticamente instantâneos. Pode-se, por exemplo, identificar escolas que se destacam regionalmente e entender as boas práticas aplicadas para replicá-las para todo o estado.”

Hoje, a Geekie é parceira de 19 secretarias estaduais de Educação – Acre, Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima, Santa Catarina, Sergipe e Tocantins  –  que recebem relatórios de suas escolas, a fim de visualizar um cenário macro de como estão seus alunos. “Os relatórios são detalhados a ponto de conseguir identificar, por exemplo, não apenas em que matéria os alunos estão com mais facilidade ou dificuldade, mas até mesmo em que conteúdo específico”, afirma Bontempo.

Apesar dos benefícios que a aprendizagem adaptativa pode trazer para alunos e professores, é importante ressaltar que a metodologia não é uma panaceia. “A educação é inerentemente complexa. Certamente, não pode ser reduzida a uns e zeros. Knewton e outras soluções de tecnologia são apenas uma parte do ecossistema educacional. Podem ajudar os professores a responder perguntas como ‘cobrimos um material difícil na semana passada, quão bem a classe o entendeu?’ ou ‘o que mais eles precisam fazer para dominar um determinado conceito’”, ressalta Sara.

Para Martha, um desafio importante é conseguir o equilíbrio entre sistemas computacionais e professores. “A maioria dos professores sente-se ameaçada com a possibilidade de ser substituída pelos sistemas, e isso requer um processo de educação mostrando como eles podem se beneficiar do ensino adaptativo para atuar em conjunto, qual o papel de cada um, como eles se complementam para obter melhores resultados.”

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