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Prova gênero
Prova foi fotografa e compartilhada por milhares nas redes sociais

“Cheguei à sala toda suada e precisei de uns minutinhos para recuperar o fôlego. Assim que sentei com o meu grupo para ver o teste, tive uma alegria que me faria correr até o dobro da distância.” Qual educador não gostaria de provocar tal ânimo por sua aula? O motivo da alegria da estudante foi uma simples troca de letra no cabeçalho da prova: em vez do tradicional “aluno”, o professor de Biologia Alex Werner von Sydow escreveu “alunx” no espaço reservado para os nomes dos estudantes em uma avaliação de Ensino Médio no Colégio Pedro II, na cidade do Rio de Janeiro.


Foi uma ação estudada. Alex já havia acompanhado o envolvimento dos estudantes com a questão de gênero anteriormente e pensava sobre o assunto há meses, desde que um grupo de alunos foi à escola vestindo saias para protestar contra as diferentes regras adotadas a respeito dos uniformes masculinos e femininos. “Eu podia usar termos neutros como estudante ou nome, mas queria legitimá-los e causar uma reflexão”, conta o educador, que está há 19 anos no tradicional colégio carioca.

Inicialmente, ele tentou colocar a palavra com o artigo no feminino em primeiro plano e o masculino relegado aos parênteses: “aluna (o)”. No entanto, achou a ação insuficiente. Não era uma questão de quem vinha primeiro, mas de neutralizar o gênero. Encontrou a inspiração na linguagem utilizada em fóruns de discussão e adotou o “x”, válido para homens, mulheres e transgêneros.

Apesar da provocação calculada, a resposta foi surpreendente. Os alunos receberam a iniciativa com satisfação e alívio, além de usar o acontecido para ampliar o debate. Em poucas horas, a questão havia extrapolado os muros da escola, pertencente à rede federal pública, e era compartilhada aos milhares na internet, especialmente em grupos de defesa de direitos humanos. “Não esperava que fosse repercutir tanto. Não previa a exposição em redes sociais. Mas, mesmo aí, a aluna foi ética e me consultou antes”, lembra Sydow.

A divulgadora foi Maitê Haical, 17 anos, responsável por fotografar o cabeçalho e postá-lo nas redes sociais com o texto que abre esta reportagem. “Acho que o machismo e o sexismo começam a ser construídos na escola e fiquei muito feliz em ver que, finalmente, um professor dava a devida atenção ao tema. A escola é um espaço para ser crítico e promover mudança”, comenta a estudante.

O educador conta que foi sua primeira iniciativa contundente em relação ao tema. Desde 2010, ele desenvolve na escola o projeto Agenda Multicultural, com discussões interdisciplinares e temas transversais. Normalmente, o resultado são exposições culturais e científicas, mas as discussões sobre dogmas e preconceitos sempre foram um dos objetivos. “Não acho que sejam temas para o professor de Sociologia ou Filosofia. São temas da Educação”, diz Sydow.

“A questão pedagógica principal neste caso está na avaliação que podemos fazer sobre o binarismo dos sistemas. Temos de perceber a natureza humana do jeito que ela se manifesta nas relações interpessoais e sociais, e não impor um padrão”, explica, completando que, se há um padrão, ele não tem surtido efeitos positivos. “Se o caminho atual fosse ideal, a sociedade não estaria do jeito que vemos hoje, padecendo de tantas vítimas de pobreza, perseguição, guerras e preconceitos de toda ordem.”

A professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Jane Felipe de Souza, elogiou a “atitude política” do professor por tirar o tema do contexto e incorporá-lo ao cotidiano. Integrante do grupo de pesquisa sobre Educação e Relação de Gêneros, ela destaca que o uso do x ou do @ em lugar do artigo de gênero está disseminado entre grupos feministas e de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT), mas ainda é polêmico fora do contexto acadêmico. “É uma questão para marcar o respeito e jogar luz na desigualdade, nos preconceitos enraizados que existem”, conceitua.

Ela lembra o início da adoção de ambos os gêneros em discursos como “caras e caros” ou “educadores e educadoras” desde o fim dos anos 1980. “Foi uma maneira de demarcar. De dar visibilidade a um grupo que até então ficava à sombra. No começo houve um estranhamento, depois até o presidente, José Sarney, usou em seus discursos a brasileiros e brasileiras.”

Diante da repercussão do caso no Colégio Pedro II, houve quem discordasse. Alguns manifestantes disseram achar bobagem ou apologia a uma ou outra opção sexual. Jane defende que é papel da linguagem comunicar, logo, a mudança de letra usada intencionalmente para dar um sentido é ainda mais eficiente.

Na opinião da especialista, as críticas são uma maneira de disfarçar o preconceito, como ocorre com oposicionistas de Dilma Rousseff, contrários ao uso da palavra presidenta. “As pessoas se apegam ao formalismo da linguagem para não dizer que o preconceito é exatamente contra o que a letra trocada significa”, comenta.

Sydow vê as críticas com bons olhos. Para ele, fazer com que pessoas que discordam da inclusão e igualdade refletirem é um avanço. “Ainda que possam não ter gostado, as pessoas pararam alguns segundos para pensar sobre um assunto que costumava não ser discutido. Não se trata de doutrinar, mas, pelo contrário, estimular as diversas opiniões. As divergências são importantes para o processo de amadurecimento”, afirma.

Entre as vantagens do amadurecimento, o professor cita a responsabilidade de seus estudantes adolescentes diante das aulas. Para alguns alunos, como Maitê, no entanto, a escola é que está amadurecendo. Para Carta na Escola, ela escreveu: “Infelizmente, na maioria das escolas o que importa é o número de aprovados no vestibular. Felizmente no Pedro II temos professorxs e servidorxs que pensam de forma mais ampla”.