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Armadillosuchus arrudai
Exposição de dinos no Rio de Janeiro: interesse pelo tema é cada vez maior

Um crocodilo de 18 metros e cinco toneladas, um jabuti maior que as tartarugas das ilhas Galápagos e preguiças-gigantes, do tamanho de três seres humanos. Estes são alguns dos animais encontrados ou pesquisados pela equipe do laboratório de Paleontologia da Universidade Federal do Acre (Ufac), de Rio Branco, nos últimos cinco anos. No laboratório, biólogos e geólogos se dedicam a garimpar e interpretar as formas de vida existentes há centenas de milhares e até milhões de anos.


Os profissionais, porém, têm dificuldade para dar o tratamento que a riqueza ancestral da região amazônica mereceria. O laboratório da universidade, com mais de 6 mil fósseis, conta com somente três pesquisadores. Os professores dividem seu tempo com outros laboratórios, e sequer seus estudantes de biologia, curso de origem da maioria dos paleontólogos, tem a disciplina de paleontologia obrigatória na grade curricular. Além disso, fósseis da região fronteiriça da Floresta Amazônica são encontrados por pesquisadores europeus baseados no Peru. Assim, eles levam o crédito por novas descobertas que poderiam dar mais visibilidade aos brasileiros.

No Acre, faltam seres vivos para tantos que já desapareceram na região. “Nós temos muito material que não está estudado ainda. Com certeza falta gente para pesquisar o que temos no nosso acervo. E a maioria dos que estudam são pessoas vindas de fora, porque a gente não consegue formar paleontólogos na nossa universidade”, diz o paleontólogo Edson Guilherme, responsável por organizar um fóssil de jabuti de mais de um metrô de altura, encontrado em 1995 mas só estudado 15 anos depois. “Aqui, a gente está precisando de apoio, de dinheiro, de um olhar mais carinhoso.”

A dificuldade para a pesquisa paleontológica não é exclusividade da universidade acreana. Diante dos problemas dos colegas de pesquisa em todo o país, o paleontólogo Alexander Kellner criou um movimento com o nome do objeto de estudo mais famoso da área: SOS Dinossauros.

O objetivo de Kellner é chamar atenção para a necessidade de mudanças na política de fomento à pesquisa no país, fazendo o risco de desaparecimento dos paleontólogos diminuir. “Por que é SOS Dinossauros? Porque SOS Paleontólogo não tem apelo. E isso é um movimento popular e político, precisa chamar atenção,” diz Alexander, conhecido pela descoberta do Oxalaia quilombesis, o maior dinossauro já encontrado no Brasil.

O movimento surgiu a partir da reivindicação de vários paleontólogos exposta num abaixo-assinado. A partir daí, a principal reivindicação deles se tornou a criação de um comitê de Paleontologia para avaliar projetos de pesquisa no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), principal fomentador das pesquisas no País.

Atualmente, os projetos de pesquisa de paleontólogos são avaliados nos comitês de Zoologia, Botânica e Geociências, formados em sua maioria por profissionais daquelas áreas de estudo. Graças ao caráter interdisciplinar da paleontologia, com a maioria de geólogos e biólogos na área, os projetos são pulverizados entre as áreas.

Diante da falta de especialidade e do desconhecimento da área pelos membros dos comitês, explica Kellner, poucos colegas tem os seus projetos aprovados pelo conselho. Alguns deles também mudam de área e modificam suas pesquisas para conseguir a verba.

Questionado pela reportagem, o CNPQ não se pronunciou sobre a possibilidade de criação de um comitê na área. Em nota, a assessoria de imprensa ressaltou a quantidade de projetos na área de paleozoologia, responsável por 1,61% dos pedidos de bolsa dentro do comitê de zoologia.

Segundo Kellner, a situação só não é mais precária devido ao apoio de fundações de pesquisas estaduais, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Fapesp).

O presidente da Sociedade Brasileira de Paleontologia, Max Langer, pondera que estas dificuldades de pesquisa não são exclusivas da paleontologia, mas um problema comum a outras áreas. “A paleontologia é uma ciência eminentemente básica, é difícil achar uma aplicação para isso. Em alguns contextos, como o CNPQ, é pedida uma contrapartida de engajamento social ou aplicação da ciência, mas a paleontologia é carente disso,” diz Langer, professor de biologia da USP de Ribeirão Preto.

Se falta uma aplicação à paleontologia, sobra atratividade à área. Seus objetos de estudo mais famosos, como dinossauros, mamutes e outros seres ancestrais, podem ajudá-los a conseguir mais apoio. Em 1999, a exposição Nos Tempo dos Dinossauros bateu recordes de visitação em uma parceria entre o Museu Nacional e o Museu de Ciência da Terra no Rio de Janeiro. Já em 2006, outra exposição chamou grande público na Oca, no parque Ibirapuera em São Paulo.

Apesar de tais exemplos, Kellner acha que elas foram insuficientes quando comparadas aos esforços feitos em lugares como os Estados Unidos, a Europa e alguns países da Ásia. Para ele, espetáculos com dinossauros podem ser uma porta de entrada à ciência como um todo. “Nós, em termos de política pública, não aproveitamos muito bem isso. Em todo mundo, as pessoas lotam museus para ver isso. Já que tem esse interesse em dinossauro, devemos usá-lo para levar os jovens ao museu”, comenta o paleontólogo. “Vamos mostrar o dinossauro, mas vamos mostrar os peixes, os invertebrados, arqueologia, geologia, tudo isso que existe nesse mundo natural para eles.”

Apesar da situação adversa, o presidente da Sociedade Brasileira de Paleontologia acha que os paleontólogos não correm o risco de ter o mesmo destino dos dinossauros tão cedo. A extinção, diz ele, ainda está fora de questão. “Existem problemas? É óbvio. Mas, apesar de tudo, eu ainda vejo a tendência no momento como positiva,” finaliza Langer.