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Poética e bem-humorada, a obra do escritor encanta tanto adultos quanto crianças

Repentinamente, o breu toma conta das casas e ruas de Luanda, capital de Angola. É mais uma das muitas noites em que falta luz na cidade. Sob estrelas e zumbidos de mosquitos, dois adolescentes compartilham a escuridão de uma varanda e percebem, aos poucos, as belezas e a intimidade que a situação parece evocar. Uma Escuridão Bonita, terceiro colocado no Jabuti Juvenil 2014, deixa claro por que Ondjaki é um dos principais expoentes da literatura africana de língua portuguesa, dono de uma obra que encanta tanto adultos quanto crianças.


Permeado por uma sensibilidade ímpar, o livro traz o diálogo entre dois jovens na iminência de um beijo (ou seria do amor?), uma conversa entrecortada por aproximações e recuos. Entre gestos mansos e silêncios, o leitor parece ouvir a palpitação de seus corações. “Nunca associei a escuridão a coisas menos bonitas. Penso que ao falar dessa “escuridão” eu quis nomear esse lugar, no tempo e no espaço, onde nos damos ao tempo de uma longa conversa, nos deixamos embalar por palavras de uma conversa lânguida que é mais poema que conversa”, explica o autor, já contemplado com alguns dos mais importantes prêmios da literatura em idioma lusitano, como Jabuti, FNLIJ e José Saramago.

O “prosador, às vezes poeta”, nasceu em Luanda, em 1977 – dois anos após a independência da colônia de Portugal – como Ndalu de Almeida. Apesar de ter vivido sua infância e juventude em uma Angola socialista, dividida por uma longa guerra civil (1975-2002), Ondjaki lembra da época como “normal e feliz; cercado de afetos, de mar, de sonhos e de muitos bons professores, angolanos e cubanos”. Aos 15 ou 17 anos (não sabe bem precisar), começou a escrever suas primeiras histórias, sem pensar, entretanto, que acabaria tornando-se escritor.

“Entre as muitas possibilidades de definições desse jovem autor angolano, fico com esta: um escritor que gosta de criança e de contar estórias; que conhece a língua portuguesa, o quimbundo, o umbundo e que sabe brincar com as palavras”, define Vera Maquêa, professora de Literatura Africana na Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat).

Em sua obra, as personagens são majoritariamente crianças, vivendo experiências comuns à infância, como brincar e frequentar a escola. Apesar da pouca idade, são protagonistas de suas histórias e donas de suas escolhas. Ao mesmo tempo que conta as aventuras dos pequenos, aborda também questões de ordem existencial e política de uma Angola marcada por intensos conflitos. “Com suas personagens infantis aprendemos uma geografia da cidade, cujas contradições aparecem de modo tenso, expondo os problemas de uma nova nação em que os governantes pouco se importam com o povo”, explica Vera.

A notícia que se alastra de um possível ataque à escola em Bom Dia Camaradas e a estranha explosão nos céus de Luanda em Avó Dezanove e o Segredo do Soviético são alguns exemplos de como o universo infantil das histórias de Ondjaki não se exime de tratar dos problemas do mundo adulto que atingem também e, às vezes de maneira muito mais cruel, as crianças. “As histórias são plenas de poesia, de um mundo difícil, às vezes, em que as crianças precisam trabalhar, sofrem, mas que nem por isso impede que elas brinquem e sonhem”, diz Vera.

Para Ana Claudia da Silva, professora de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da Universidade de Brasília (UnB), a obra de Ondjaki tem ganhado um número crescente de leitores, devido ao humor e à poeticidade das suas narrativas. “As personagens infantis de Ondjaki são combativas, perspicazes e dotadas de uma imaginação sem limites, que lhes permite enfrentar grandes desafios”, afirma.

Entre as sugestões de leitura da professora está A Bicicleta Que Tinha Bigodes, vencedor do Jabuti Juvenil, em 2010. No livro, um concurso de literatura que vai premiar o vencedor com uma bicicleta leva um grupo de crianças da mesma rua a investigar a origem mágica das histórias de Tio Rui, o vizinho escritor que fascina a todos – uma homenagem de Ondjaki ao escritor angolano Manuel Rui. “Suas obras permitem trabalhar, no contexto escolar, temas como diversidade cultural, desigualdade social, corrupção, máscaras sociais, abuso de poder e protagonismo, entre outros.”

Para Eliane Debus, professora da Universidade Federal de Santa Catarina e Membro da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, os livros de Ondjaki podem ser compartilhados com as crianças desde muito cedo. Entre as obras mais emblemáticas destacam-se O Leão e o Coelho Saltitão, O Voo do Golfinho e Ombela, a Origem das Chuvas. “São narrativas curtas, simples e, por sua interlocução com a ilustração, podem ser manuseados e lidos pelos pequenos”, diz.

Eliane aponta a contribuição da Lei nº 10.639, que instituiu, em 2003, a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana no currículo, como fundamental para a disseminação de autores como Ondjaki. “Nos últimos oito anos, a produção de vários escritores africanos de língua portuguesa para infância tem adentrado o mercado como Mia Couto, Zetho da Cunha Gonçalves, Nelson Saúte e Agualusa”, lembra. As perspectivas vindas das culturas africanas são mais do que bem-vindas. “É fundamental para desconstruir a visão eurocêntrica de que a única matriz cultural que nos atravessa é a europeia”, aponta Vera.

Ana Claudia lembra que são múltiplas as expressões e culturas africanas, mesmo dentro de um idioma. “A leitura das literaturas de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe nos mostra essa diversidade e nos faz descobrir mais sobre o que é ser brasileiro.”