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segregação escolar
Choukri Ben Ayed: é sabido que os jovens escolarizados nessas unidades têm menos chance de sucesso

Com um sistema educacional público universalizado e pautado na liberdade de ensino e na laicidade, a França parece, à primeira vista, trilhar um caminho de êxito no que se refere à Educação. Na última edição do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), realizado pela OCDE, o país despontou entre os 25 melhores de um ranking envolvendo 65 nações e o ministério da educação francês é a pasta com o maior orçamento de todo o governo.


No entanto, um olhar mais atento revela um grave problema que ameaça a qualidade do ensino no país, bem como a concepção de uma sociedade francesa unificada, justa e pacífica: a segregação socioespacial das escolas.

Nas grandes cidades do país, tornou-se comum ver as melhores escolas concentradas nas regiões centrais e as de qualidade inferior distribuídas pela periferia. Além da exclusão territorial, essas últimas sofreram uma espécie de homogeneização nociva: há escolas primárias, por exemplo, onde 100% dos alunos são de origem estrangeira e situação socioeconômica vulnerável.

Em visita ao Brasil, Choukri Ben Ayed, especialista em educação nas periferias de Paris e professor do Departamento de Sociologia da Université de Limoges, explica que o fenômeno é relativamente recente e começa só agora a protagonizar debates sobre políticas públicas.

“Por ser um país pequeno geograficamente, na França era difícil ver uma escola que atendesse apenas a um determinado perfil de aluno. Com o aumento da pobreza houve a intensificação das desigualdades e da segregação. Hoje, se na periferia você encontra escolas apenas com filhos de refugiados, se você caminhar pelo centro vai achar unidades só com filhos de médicos”, conta.

As instituições criaram mecanismo para escolher, de modo velado, seus alunos
As instituições criaram mecanismo para escolher, de modo velado, seus alunos

Além do isolamento de comunidades inteiras que a situação provoca, há ainda questões colaterais: as escolas segregadas apresentam diversos problemas como violência, tensão entre alunos, alunos e professores e é sabido que os jovens escolarizados nessas unidades têm menos chance de sucesso.

“A segregação escolar é sintoma de um racismo muito forte e explícito. A legislação francesa proíbe categorizar o aluno em função da sua etnia ou cultura. Então hoje só temos estatísticas mostrando a segregação pelo viés socioeconômico, mas sabemos que a população mais excluída é de origem magrebina [região do norte da África onde predomina a cultura árabe]”, aponta o professor.

Diferentemente do Brasil que é uma Federação e, portanto, tem redes de ensino federal, estaduais e municipais, a França é uma república unitária semipresidencialista, e sua educação pública é oferecida e administrada somente pelo Estado. Entre as escolas públicas, entretanto, existem aquelas que oferecem apenas o currículo obrigatório e outras que dão a opção do estudante cursar também um currículo eletivo que oferta, por exemplo, aulas de latim, grego, alemão e cultura europeia.

Como a demanda para estudar nessas escolas com currículo mais robusto é maior que a oferta, são utilizadas estratégias e mecanismos para selecionar, mesmo que de modo velado, os alunos que irão estudar nessas instituições. “Os alunos de origem magrebina ficam em desvantagem. Uma pesquisa já provou essa discriminação em outras esferas sociais. Foi enviado à empresas currículos iguais de candidatos com nomes tradicionalmente franceses e outros com nomes árabes. Os nomes franceses eram sempre preferidos”, conta Ayed.

Para Ayed, o Estado francês até agora não fez muita coisa para evitar essa apartação. Pelo contrário, até incentivou. “A verdade é que a França não construiu nos últimos anos políticas educacionais para tentar equilibrar esse cenário. O Estado foi complacente porque as elites não estão interessadas em resolver o problema e é um assunto impopular eleitoralmente”, critica.

O professor conta que a questão da segregação escolar só se tornou visível depois dos atentados. “São questões que hoje estão sendo debatidas não exatamente pelo viés da educação, mas para evitar o risco de novos atentados. Mas se eu posso dizer algo positivo é que nunca a escola apareceu com tanta força no debate como algo importante, essencial para sustentar a República francesa”, concluiu.