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Escolha profissional

Cedo a estudante de Pedagogia Janaína Bueno, hoje com 27 anos, experimentou o que era o mercado de trabalho. Aos 14 anos, arrumou seu primeiro emprego em uma lanchonete, enquanto ainda cursava o Ensino Médio em uma escola da rede pública paulista. De lá para cá, teve as ocupações mais diversas. Trabalhou em escritório de contabilidade, loja de roupas, empresa de pós-vendas, até conquistar seu atual estágio na área pedagógica.


Prestes a concluir a faculdade, Janaína tem um desejo: arrumar um trabalho com o qual possa se identificar. “A gente tem de gostar daquilo que faz. Para mim, a satisfação pessoal com o trabalho vem em primeiro lugar porque não há dinheiro no mundo que pague a paz de espírito”, diz a estudante.

Katerine Marques tem 17 anos e concorda com Janaína. A estudante de Jornalismo deixou o trabalho em um call center por não se sentir motivada. “Eu até ganhava bem, mas não gostava do ambiente de trabalho, não era o que eu esperava em termos de realização profissional. Acordava todo dia achando ruim ter de ir trabalhar”, conta. Para ela, mais importante que ser bem-sucedida é estar satisfeita com o trabalho: “Melhor gostar do que faz e buscar o resto com o tempo”.

As duas jovens ilustram o resultado de uma enquete realizada pelo Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube), que perguntou em seu site o que os jovens de todo o País, com idade entre 15 e 26 anos, consideravam mais importante no trabalho. A opção mais votada pelos 7.791 ­participantes foi a satisfação pessoal com o desempenho, eleita por 53% dos entrevistados, seguida de conseguir conciliar vida pessoal e profissional (27,94%), ter um relacionamento saudável com os colegas (9,87%), alcançar altos cargos e status (6,83%) e ganhar muito dinheiro, com apenas 2,35%.

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Para Eva Samanta Buscoff, coordenadora de Treinamento do Nube, diferentemente da geração antecessora, que encarava o trabalho de forma mais regrada, priorizando a construção de uma carreira a longo prazo e a remuneração financeira, os jovens de hoje colocam como grande objetivo profissional a ‘­qualidade de vida’. “Esta é uma geração que cresceu mais sozinha, pois tanto o pai quanto a mãe estavam inseridos no mercado de trabalho. Por terem pais mais ausentes, esses jovens investem muito na vida pessoal”, explica a coordenadora. Essa preocupação, segundo Eva, esclarece a colocação em último lugar da opção “ganhar muito dinheiro”. “Não é que o jovem de hoje não se importe com salário ou que não tenha ambição financeira. Mas ele enxerga a remuneração como conse­quência do comprometimento, da satisfação pessoal com o trabalho”, diz.

Em outras palavras, se os jovens de hoje possuem um mantra profissional é o “Faça o que você ama”, apontou a historiadora Miya Tokumitsu, em artigo para a revista americana Jacobin. Segundo Miya, o discurso de que é preciso descobrir como ganhar dinheiro fazendo aquilo que se ama nunca foi tão forte, principalmente entre as faixas etárias mais jovens. O problema, entretanto, está no tipo de implicações sociais que esse conceito traz. “De acordo com essa maneira de pensar, o trabalho não é algo que se faz por uma compensação, mas um ato de amor-próprio. Esse tipo de pensamento faz os trabalhadores acreditarem que seu trabalho serve a si mesmo e não ao mercado”, escreveu.

A busca por uma identificação pessoal com o trabalho é tamanha que até virou negócio. No Brasil, o site 99jobs propõe conectar candidatos de 18 a 24 anos com a vaga dos seus sonhos a partir do entrelaçamento de valores. Com perguntas como “você faz o que ama?”, “qual empresa combina com você?” e slogans como “Adeus, trabalho chato! Oportunidades selecionadas de acordo com o que você quer”, a empresa parece ter conquistado a atenção do público jovem: já são mais de 150 mil cadastrados desde sua fundação, em maio do ano passado.

Para Ana Ligia Finamor, coordenadora acadêmica do MBA em Gestão Empresarial e Gestão de Pessoas da Fundação Getulio Vargas, estamos diante de uma geração jovem mais exigente, imediatista e, por isso mesmo, menos habilitada a lidar com frustrações. Ao associar prazer e realização no trabalho, corre-se o risco de idealizar características, condições e relações de trabalho futuras. “No mercado de trabalho, os jovens têm muita dificuldade em controlar a frustração, por isso são menos fiéis às empresas. Quando não conseguem o que esperam, eles vão e trocam de emprego”, relata.

Segundo um estudo divulgado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE), a taxa de rotatividade entre os jovens de 18 a 24 anos chega a 77%, ante um porcentual de 28% na faixa etária que vai dos 30 aos 64 anos. Ainda de acordo com o levantamento, o tempo médio dos jovens em um emprego é de dois anos. “Há uma impaciência por parte dessa nova geração. Antes, a pessoa entrava em uma empresa, fazia carreira, ficava lá a vida inteira. Hoje, tem muita gente jovem que, se passar dois anos e não tiver ascensão profissional, já está passando o currículo para outra empresa”, afirma Eduardo Shinyashiki, especialista em Recursos Humanos e presidente da Sociedade Cre Ser Treinamentos.

Para Ana Heloisa da Costa Lemos, professora da Escola de Negócios da PUC-Rio, é preciso um olhar mais crítico sobre as generalizações feitas sobre os jovens e gerações, pois os perfis traçados geralmente se referem às aspirações dos jovens da classe média. “Se você perguntar o que é mais importante no trabalho para um jovem de baixa renda, a remuneração talvez apareça em primeiro lugar. Para ele, satisfação pessoal pode ser justamente ganhar bem”, diz a autora do trabalho Novas Gerações no Mercado de Trabalho: Expectativas renovadas ou antigos ideais, em parceria com Flávia Cavazotte e Mila Viana.

Ana Heloisa também aponta que as expectativas e objetivos variam entre os jovens de diferentes carreiras. “Alguém que está cursando Filosofia certamente não tem como meta ganhar muito dinheiro ou está no lugar errado”, diz. Os valores familiares adquiridos ao longo da vida também influenciam as prioridades. “Vi casos de pessoas que vieram de famílias onde os pais perderam o emprego em determinado momento da vida e isso fez com que eles procurassem posições mais seguras, como concursos públicos”, conta.

*Publicado originalmente em Carta na Escola