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Redação
Para especialistas, exame evoluiu e refinou seus critérios de correção.

Redigir um texto dissertativo-argumentativo sobre a publicidade infantil no Brasil. Trazendo essa proposta, a prova de redação do último Exame Nacional do Ensino Médio, realizado em novembro de 2014, revelou-se o calcanhar de Aquiles de muitos estudantes brasileiros. Segundo balanço divulgado pelo Ministério da Educação, dos mais de 6 milhões de candidatos, 529 mil, ou 8,5%, tiraram nota zero na modalidade – um número cinco vezes maior que o do ano anterior. Além disso, a média geral na redação caiu quase 10% em relação a 2013.


Buscando uma justificativa para o baixo desempenho, mídia, professores e alunos apontaram, de saída, o tema da proposta de redação como o fator de complicação. Eles alegaram que a publicidade infantil não havia sido suficientemente debatida pela sociedade e, portanto, permanecia alheia à maioria dos jovens. De fato, dentre as redações que levaram nota zero, cerca de 250 mil foram anuladas por fugir ao tema ou desobedecer outros critérios da prova. “O maior fracasso de 2014 em relação a 2013 resulta de um agravante: o desconhecimento do tema específico cobrado na prova”, acredita Ieda de Oliveira, professora e pós-doutorada em Análise do Discurso pela Université de Paris XIII.

Para Maria das Dores Soares Maziero, professora universitária e membro do grupo de pesquisa Alfabetização, Leitura e Escrita, da Unicamp, entretanto, dizer que os alunos foram mal na redação porque não estavam preparados para falar sobre publicidade infantil é reduzir o problema. “O aluno não vive descolado da realidade, ele também é consumidor e sabe do apelo da publicidade. Quantas coisas não teve vontade de ter porque viu em uma propaganda?” Além disso, a professora defende que a coletânea de textos que acompanhava a proposta dava pistas suficientes para a produção de um texto adequado ao tema. “Um bom aluno é capaz de aprender o tempo todo, inclusive com a coletânea que está sendo dada na prova”, diz.

Na visão de Rogério Chociay, professor do Departamento de Teoria Linguística e Literária da Unesp de Rio Preto, a queda de 10% na média e o aumento dos zeros são, na verdade, esperados diante da evolução do exame. Nos últimos anos, o Enem refinou seus critérios de correção e tornou-se mais exigente. “Se antes algumas redações ou tentativas de textos eram aceitas e corrigidas, agora não são mais”, lembra o professor, que já integrou a comissão de redação do Enem.

Eduardo Antonio Lopes, professor e coautor do material de redação do sistema Anglo, aponta polêmicas envolvendo redações de outros anos como principal motivo para o aprimoramento dos critérios de anulação. No Enem de 2012, um candidato inseriu um trecho de receita de macarrão instantâneo no meio da redação que tinha como tema o movimento imigratório e tirou nota de 560. Na mesma edição, outro estudante incluiu o Hino do Palmeiras e obteve nota 500. “Houve uma pressão muito grande por parte da sociedade para que houvesse maior rigor na correção. O MEC, então, mudou o edital e incluiu a cláusula para anulação no caso de inserção de fragmentos totalmente alheios à proposta, com intenção jocosa”, conta.

Atualmente, são critérios para anulação da redação: fuga ao tema, cópia do texto motivador, texto insuficiente, não atendimento ao tipo textual indicado, partes desconectadas e textos que ferem os direitos humanos.

Ponta do iceberg

Algo com que todos os especialistas concordam é que a queda na média geral e o aumento de notas zero nas redações do Enem são apenas a ponta do iceberg. O problema mais profundo reside no fato de que, em grande parte das escolas públicas brasileiras, os alunos têm pouca oportunidade de escrever e, sobretudo, de ouvir um retorno sobre sua produção escrita. “O professor é mal remunerado e tem pouco tempo para fazer o básico, como preparar e dar aula, como é que vai dar redação para salas que chegam a ter 40 alunos? Como vai ter tempo para corrigir uma por uma?”, indaga Maria das Dores.

Devido a esta dificuldade, quando costumam dar algum tipo de produção textual, os docentes acabam se concentrando na correção dos aspectos mais superficiais, como erros de ortografia e pontuação. “Se é difícil para o Enem organizar e treinar um corpo de corretores, imagina nas escolas públicas. Para muitos dos participantes, foi a primeira vez no ano que tiveram uma nota de redação com base em critérios”, diz Lopes.

Aspectos gramaticais, entretanto, estão longe de ser o principal problema dos textos. A dificuldade maior dos alunos que concluem o Ensino Médio está relacionada à habilidade de argumentar, associar dados e visões de mundo. “Para isso, é necessário relacionar os conhecimentos das diversas disciplinas do currículo escolar. É essa relação que faz o aluno ser crítico, criativo, original e apto a discutir os mais variados problemas”, comenta Dafne Rosa, professora de redação do Colégio Sion, em São Paulo.

Pouca leitura, pouca prática de exercícios de produção de textos e baixo repertório cultural também contribuem para a diminuta qualidade média da produção textual dos brasileiros, aponta Ieda. Segundo a especialista, é preciso, por um lado, despertar no aluno o hábito e o prazer da leitura e, por outro, exercitá-lo nas técnicas de estruturação do texto e no domínio da língua. “Ler é condição indispensável para escrever, mas não é condição suficiente. Produzir textos com base apenas no modelo de autores experientes é como tocar um instrumento de ouvido, sem teoria musical. Além de ler, o aluno precisa também aprender técnicas de estruturação do texto e adquirir um conhecimento sólido da língua”, aconselha.

Últimos temas da redação do Enem
2010: O trabalho na construção da dignidade humana
2011: Viver em rede no século 21: os limites entre o público e o privado
2012: Movimento imigratório para o Brasil no século XXI
2013: Efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil
2014: Publicidade infantil em questão no Brasil

Dicas para trabalhar redação com seus alunos (por Ieda de Oliveira)
– Incentive-os a argumentar oralmente antes de o fazer por escrito
– Desenvolva o hábito de planejar a redação por meio de roteiros
– Ao trabalhar gêneros textuais específicos, como resenhas e notícias, faça-os ler textos nesses modelos, analisando sua estrutura
– Distribua textos com problemas de repetição de palavras, rimas, excesso de oralidade e peça para que eles os reescrevam, melhorando o estilo