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As crianças e os livros que ajudaram a criar

No pedaço de Brasil chamado Baixo Amazonas, localizado no noroeste do Pará, nem tudo é água e floresta. Também ali vivem milhares de pessoas, entre as quais, muitas crianças que nos ensinam saberes e fazeres de suas ricas culturas. No entanto, suas vidas cotidianas entre as matas e rios amazônicos permanecem desconhecidas por boa parte do País.


Chamada para participar de projetos com comunidades tradicionais, sobretudo quilombolas, a jornalista e artista visual Marie Ange Bordas percebeu que as narrativas dessas iniciativas tendiam a representar as crianças sempre a partir do olhar adulto. A esta percepção somou-se a reclamação de vários professores sobre a falta de materiais didáticos que contemplassem suas realidades e nos quais suas crianças se sentissem representadas.

“Levando isto em conta, em 2008, comecei a criar livros que pudessem fazer com que estas crianças entrassem nas escolas e livrarias do Brasil pela “porta da frente”, através de seus saberes e fazeres e não como objetos do estudo da diversidade brasileira”, conta.

Outro paradigma importante que a escritora desejava quebrar era o conhecimento da região amazônica apenas sob o viés da natureza, e nunca pelo fator humano. “Achei fundamental criar um material com foco na presença humana, nos conhecimentos e na história de vida das crianças que habitam a região, sejam elas ribeirinhas, quilombolas ou indígenas”.

Com essa proposta surgia o projeto Tecendo Saberes. Com patrocínio do Programa Petrobrás Cultural, de 2013, Marie Ange visitou cinco comunidades quilombolas extrativistas da castanha do Pará – Cachoeira Porteira, Cuecé, Mondono, São José e Silêncio – e o território indígena Huni Kui, do Rio Humaitá, no Acre, para criar livros, vídeos e exposições que falam dessas culturas por meio do olhar de suas crianças.

Foto: Marie Eve Hippenmayer
Foto: Marie Eve Hippenmayer

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O objetivo é subverter tanto o olhar que a comunidade porta sobre ela mesma como a maneira com que a criança da cidade percebe aquela cultura que normalmente aprende a reconhecer como outra, minoritária ou exótica. “A criança que ela vê nestes livros e vídeos é uma criança agenciadora de sua vida, orgulhosa de sua cultura, produtora de saberes que têm muito a lhe ensinar e que, apesar de viver em situações distintas, divide com ela desejos e rotinas comuns à qualquer infância”.

Como todo o conteúdo dos livros e vídeos é narrado sob a perspectiva infantil, as crianças assumem posições protagonistas e renovam o próprio conceito de tradição, libertando-se da tarefa de simplesmente reproduzir o patrimônio dos mais velhos. “O olhar das crianças nos lembra que toda cultura é dinâmica e porosa e está sempre progredindo. Preservar e dar continuidade a saberes ancestrais nunca é um ato isolado, alienado do presente. Por isso, temos que cuidar para prestigiar as culturas tradicionais sem cair em tentações puristas e redutoras”.

Marie Ange conta que seu foco é também aproximar as crianças “da cidade” destas outras realidades de vida presentes nesse Brasil tão segregado a partir da ludicidade, da brincadeira e do respeito. “Trabalhando os livros em São Paulo, por exemplo, percebo que a empatia das crianças é quase imediata. Passado o primeiro momento de repetir estereótipos, elas encontram nos materiais um tanto de informações novas e ficam admiradas com o tanto de conhecimento “das outras”, ao mesmo tempo que vislumbram várias brincadeiras e desejos comuns”, conta.

capinha Manual das crianças do Baixo Amazonas
Autor: Marie Ange Bordas
Livros da Matriz, 2015