COMPARTILHE
Crianças brincam
O papel dos playworkers é providenciar um ambiente saudável para o brincar

Na escola bilíngue Spice, localizada na zona oeste de São Paulo, as crianças aprendem inglês por meio de um método bem atípico: brincando.


Ali, as salas de aula formais deram lugar a grandes espaços coletivos, onde os alunos são encorajados a participar das atividades oferecidas pelos educadores ou a escolher suas próprias brincadeiras, desde que se comuniquem sempre em inglês.

Tal metodologia diz respeito ao playwork, que aposta na brincadeira e outros processos lúdicos como meios para o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças.

“Reconhecemos que o ato de brincar é mais do que uma atividade frívola, muito pelo contrário, é a atividade mais importante da vida de uma criança”, explica o coordenador da escola, Andrew Swan, britânico que desembarcou no Brasil há cerca de dez anos, trazendo na bagagem um diploma de pós-graduação em Ludoeducação e a experiência numa área ainda pouco divulgada no Brasil.

“Me pergunto se, hoje, as escolas possibilitam às crianças aprender ou apenas memorizar. Quando a criança adquire uma nova informação, ela precisa de tempo para assimilar, explorar e testar esse novo conhecimento, e isso acontece fora da sala de aula, principalmente na interação permitida pela brincadeira.”

Além de incentivar o desenvolvimento das habilidades corporais, linguísticas e criativas, as brincadeiras são oportunidades para treinar importantes mecanismos intelectuais, como propor soluções, negociar, fazer estimativas e planejar. “Brincar permite que as crianças explorem o mundo e encontrem seu lugar nele. Enquanto brincam, elas adquirem valores, limites e responsabilidades, aprendendo o que podem e o que não podem fazer”, explica Marilena Flores Martins, presidente da IPA Brasil – Associação Brasileira pelo Direto de Brincar.

Os playworkers, ou ludoeducadores, surgiram na Inglaterra em meados dos anos 50, com o objetivo de possibilitar às crianças um brincar mais livre, levando em consideração as etapas de desenvolvimento de cada indivíduo.

“O papel desses profissionais é providenciar um ambiente saudável para o brincar e entender como e quando ele deve se envolver na brincadeira”, explica Marilena. Além das escolas, esses profissionais podem atuar em brinquedotecas, hospitais, parques, praças públicas e outros espaços que promovam programações infantis.

“São ambientes informais, onde as brincadeiras devem ser livres. Não existem adultos dizendo como ou o que as crianças devem fazer ou esperando resultados. O conteúdo e a forma do brincar são definidos pelas crianças e o valor da brincadeira é julgado também por elas. É, portanto, um método de trabalho que permite às crianças brincarem, devido à presença de adultos e apesar da presença deles.”

Entre as principais responsabilidades de um playworker está adequar as brincadeiras de acordo com a idade e o estágio de desenvolvimento de cada criança. “Todas as crianças são diferentes e o playworker deve respeitar, observar e desenvolver relações e responsabilidades para as necessidades específicas de cada uma delas, mas sempre levando em consideração suas vontades e o autodirecionamento”, explica Swan.

Para Maria Angela Carneiro, professora da Faculdade de Educação da PUC-SP e conselheira da Associação Brasileira de Brinquedotecas, a principal diferença entre esse profissional e o recreador é que o último está somente ligado ao entretenimento da criança, mas nem sempre sabe as atividades mais adequadas ou o tipo de brincadeira que aquela criança está apta a desempenhar.

“Alguém sem a formação adequada pode cometer o equívoco de oferecer um brinquedo inapropriado ou incentivar que a criança faça uma brincadeira que não condiz com seus limites físicos ou psicológicos.”

O ludoeducador, segundo ela, tem de ter uma visão mais ampla para permitir a escolha de brincadeiras de acordo com a faixa etária, organizar o espaço de modo que não seja perigoso e até mesmo mediar conflitos.

“Tem criança, por exemplo, que não gosta de compartilhar brinquedo, então o profissional precisa interferir e mostrar que existem regras de convívio também nesses espaços. Outras vezes, a criança, por não ter com quem brincar, poderá pedir para o profissional brincar com ela. Quando ele é requisitado, deve sim entrar na brincadeira, mas se colocando no papel que a criança lhe atribuir, lembrando sempre que a criança é a protagonista daquele momento.”

Outro fator importante, segundo Luciane Motta, da Casa do Brincar – espaço que oferece programações, brincadeiras e outras atividades relacionadas ao playwork –, é ouvir a criança e deixá-la conduzir a brincadeira.

“Não devemos dizer como é a atividade, mas proporcionar a oportunidade de a criança inventar o seu jeito de brincar. Se a criança prefere transformar a panelinha em banquinho da boneca ou obstáculo para o carrinho, tudo bem. É um exercício de criatividade e fantasia.”

Entretanto, escolas como a Spice são raras no Brasil e a figura do playworker é ainda mais difícil de encontrar, estando geralmente atrelada a escolas bilíngues que possuem em suas equipes profissionais nativos de países onde existe a profissão, como Grã- -Bretanha e Estados Unidos.

“No Brasil, a existência de paradigmas obsoletos insiste em colocar o brincar em uma posição desvalorizada, desqualificando, muitas vezes, os profissionais que o utilizam como instrumento para o desenvolvimento humano e social”, conta Marilena.

A falta de incentivo na área também pode ser percebida pela ausência de cursos de formação específicos para a ludoeducação. O caminho para tornar-se playworker no País ainda está ligado à existência de alguns cursos informais de curta e média duração.

Algumas universidades também vêm oferecendo cursos livres que podem contribuir para o desenvolvimento dessa atividade, que ainda é ocupacional, uma vez que aqui não existe formalmente.

Na maioria dos casos, a capacitação acaba vindo da prática, da observação e da troca de experiências entre pessoas que se interessam pelo segmento, como pedagogos, psicólogos e assistentes sociais.

Além disso, os currículos educacionais infantis ainda priorizam demonstrações de desempenho escolar mensuráveis, baseadas em provas e notas.

“A sociedade tem de se conscientizar que brincar não é uma atividade sem nenhuma importância. Muitas vezes nos deparamos com o obstáculo de pais que acham um absurdo pagar para os filhos irem brincar na escola. Eles preferem testes, demonstrações de resultados empíricos de evolução e ignoram a importância da brincadeira nesse processo”, aponta Maria Angela.

COMPARTILHE
Artigo anteriorUma escola para o meu quilombo
Próximo artigoPara ler Leminski
Jornalista formada pela PUC-SP e bacharel em Letras pela USP. Já trabalhou no site da revista Crescer e escreve sobre educação desde 2013.