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Indisciplina escolar

Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizado (Talis, em inglês) respondida por professores de 32 paí
ses mostrou o Brasil em primeiro lugar no quesito “tempo gasto para manter a ordem na classe”. Na média, os profissionais brasileiros disseram que perdem 20% do período de aula com indisciplina, enquanto o padrão foi de 13%. É a segunda vez que a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) faz esse levantamento com profissionais que atuam nos últimos anos do Ensino Fundamental.

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Na primeira, em 2008, os educadores brasileiros também foram os que mais disseram perder aula com o assunto. O dado isolado não traz novidade para quem está em sala de aula, mas um estudo feito com cruzamento de outras respostas ao mesmo questionário ajuda a explicar por que ostentamos tal recorde.

Entre os profissionais que reclamam perder mais tempo estão os que declararam ter alunos pobres e atuar em grandes cidades. Já entre aqueles que gastam menos tempo com o problema aparecem docentes que lecionam em escolas mais democráticas e colaborativas. “A partir de um conjunto de respostas como qual a frequência com que o educador dá e recebe retorno sobre seu trabalho, observa colegas, atua em conjunto, participa de atividades com turmas diferentes, percebemos, por exemplo, quem está em ambientes colaborativos.

Da mesma maneira, chegamos às escolas que têm mais espaço para participação de pais e alunos. Para cada fator há um conjunto de respostas”, explica a pesquisadora em políticas públicas Gabriela Moriconi, da Fundação Carlos Chagas, que ganhou uma bolsa para realizar análises sobre os dados na sede da OCDE e investigar soluções adotadas por outros países.

O estudo leva para além do senso comum de que os estudantes seriam indisciplinados e parte para as razões que geram a desordem. A escolha do foco veio pela constatação em outras investigações de que a indisciplina é um dos principais obstáculos para o trabalho docente. “Além da questão de perder tempo de aula, temos muitas evidências no País de que esse é um dos motivos de abandono da profissão”, afirma a pesquisadora. Para a análise, ela cruzou respostas a outras perguntas do questionário para entender quais fatores estão associados a professores que gastam tempo para manter a ordem no Brasil e em duas realidades consideradas próximas: Chile e México.

Outro dado importante na análise do resultado da pesquisa de Gabriela é a formação específica. Quando o conteúdo ensinado faz parte da área de conhecimento do professor, ele perde menos tempo com indisciplina. Os educadores que afirmam terem aprendido a ensinar determinado conteúdo, perdem menos tempo ainda. “A literatura especializada sobre engajamento mostra que a primeira coisa para manter o envolvimento é o domínio do conteúdo e saber ensinar. Então, esses achados fizeram muito sentido para mim”, diz.

Para ela, a questão da colaboração profissional também cai na formação tanto de conteúdo como de gestão da sala de aula em termos de organização do tempo, divisão das atividades, espaço e estabelecimento de regras. “Diante da realidade que temos, muito se aprende com outros colegas, tanto a prevenir maus comportamentos como a agir diante de casos de indisciplina.”

Bons exemplos

A partir das constatações, Gabriela fez a segunda parte da pesquisa em busca de programas e políticas públicas que poderiam servir aos brasileiros para reduzir o tempo gasto para manter a ordem. Ela escolheu conhecer as saídas adotadas na Inglaterra e em Ontário, região do Canadá, por serem sistemas em que quase todos os alunos atingem desempenho ao menos razoável e teriam problemas com indisciplina, segundo as declarações dos professores locais.

O estudo constatou que a colaboração e a formação dos professores se davam em ambientes em que a dedicação é exclusiva a uma escola, o que aumenta a integração da equipe e os momentos de troca. “O aprendizado e os combinados não ocorrem apenas em um determinado horário específico. A gente sabe que não é assim em setor algum. Quanto mais os profissionais convivem, mais se fortalecem.

Por outro lado, uma das percepções foi de que os adolescentes dos últimos anos do Ensino Fundamental eram por lá tão desafiadores quanto os brasileiros. Em suas visitas, a pesquisadora viu gestores lidando inclusive com casos de violência física e tráfico de drogas. “Quando eu contava sobre a impressão dos educadores brasileiros, os professores diziam que era assim no mundo todo, algo natural da idade”, lembra.

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Dentro da busca pelo engajamento dos alunos, Gabriela procurou projetos que dessem importância a ambientes de bem-estar físico e emocional. Em Ontário encontrou um programa de combate ao bullying, que inclui discussão de valores, incentivo ao envolvimento dos pais e busca pela descoberta dos interesses dos estudantes. Desde as séries finais do Ensino Fundamental há tentativas de individualizar as aulas conforme as curiosidades de cada aluno para envolvê-los ao máximo.

Na Inglaterra, a aposta é na fiscalização das escolas inclusive com um departamento próprio com a finalidade. A inspeção é feita em quatro critérios: nota dos alunos, qualidade do ensino, liderança e gestão e comportamento e segurança dos alunos. “Cada unidade passou a ter tanta responsabilidade de manter o ambiente apropriado para estudos como para os demais itens. É uma política mais de controle”, conta Gabriela.

Em comum, ela destaca o acompanhamento dado aos estudantes quando recebem medidas administrativas. Existem dispositivos como advertência e suspensão, mas quem é punido não fica sem ter o que fazer. Pelo contrário, é acolhido em outra ponta por programas para ajudá-lo a encontrar caminhos e motivação ou a refletir sobre suas ações: “Os alunos podem ser afastados da aula, mas não da escola”.