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Sala de aula vazia

Nem a reforma estrutural da divisão das disciplinas nem a criação de uma base curricular comum parecem agradar aos acadêmicos engajados no Pacto Nacional pelo Ensino Médio. Inspirado no Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), a versão para a última etapa da Educação Básica consiste em três horas semanais de formação para os professores, com materiais desenvolvidos pelos pesquisadores e discutidos em cada escola.


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Reunidos em grupos de pesquisa, eles questionam as medidas apontadas como solução para a etapa de ensino e tentam trazer o foco para a questão que julgam principal: formação continuada. “Vejo a proposta de uma relação de conteúdos a aprender por ano como desconfiança de que os professores sejam capazes de fazer seu trabalho com autonomia. Bom, mesmo que a suposição esteja certa, este é o jeito errado de resolver. Não é uma lista que vai ajudá-los”, resume Monica Ribeiro da Silva, coordenadora do Observatório do Ensino Médio da Universidade Federal do Paraná (UFPR), sobre a Base Nacional Curricular Comum, que está em discussão no Ministério da Educação.

A respeito das reformas mais estruturais, como a proposta pela Câmara dos Deputados que agrupa disciplinas e estende o tempo dos alunos na escola, ela é ainda mais enfática: “Joga fora tudo que as pesquisas apontam. É demolir o sistema”, diz.

Formado em 2008, o Observatório do Ensino Médio da UFPR discute o sentido da escola para o jovem e o quanto isto estaria associado às taxas de abandono, que ainda são da ordem de 50% nesta etapa no Brasil. O tema levou Monica a escrever o capítulo “Currículo do Ensino Médio, Seus Sujeitos e o Desafio da Formação Humana Integral” na primeira etapa dos Cadernos de Formação do Pacto, em 2013, e a coordenar a publicação na segunda etapa, no ano passado.

Até 2014, cerca de 20 mil entre os mais de 490 mil professores atuantes no Ensino Médio recebiam a bolsa por fazer parte do programa. Ao invés de informações de conteúdo, o material foca em formas de envolvimento. Uma das sugestões, por exemplo, é que o professor peça aos alunos que reflitam sobre suas expectativas. “Peça que eles escrevam (ou utilizem outra forma de expressão mais atraente, como um pequeno vídeo, uma teatralização etc.) quais são seus valores atuais, seus planos para o futuro, e como eles se imaginam daqui a 10 anos”, diz a recomendação. “Acreditamos que com este exercício simples você poderá se surpreender com a beleza de muitos sonhos, com o valor que estes jovens dão a família e a escola. Esses dados podem ser expostos, sem identificação dos autores, mas como forma de valorizar o jeito de cada um”, conclui a proposta.

Em seminário realizado na Faculdade de Educação da Universidade de Campinas (Unicamp) em novembro de 2014, cujo tema “Que jogo é esse?”, fazia uma provocação sobre a disputa que se dá entre diferentes visões do papel da escola na formulação da base curricular, Monica foi uma das pesquisadoras a defender um “passo atrás”. Entre os participantes estava Carlos Artexes, professor do Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio de Janeiro, coordenador de Ensino Médio do MEC até 2011. “Temos muita base, discursos e leis lindas, agora precisamos trabalhar o que já existe”, comentou no evento.

Para eles, uma base validaria os testes padronizados e os produtos didáticos que se propõem a pautar as aulas. “Devemos nos perguntar sempre: a quem serve? Será que não é para validar provas padronizadas e materiais didáticos?”, insistiu Monica. A docente da Unicamp, Nora Krawczyk, foi uma das poucas que defendeu a institucionalização de um documento oficial do MEC. “Apenas com as diretrizes podemos dizer com o que concordamos ou não. É papel do governo fazer isso e não deixar tudo para as escolas resolverem.”

O diretor da Secretaria de Educação Básica do MEC, Italo Dutra, pediu aos acadêmicos que participem da elaboração da Base Nacional Curricular. “Para o governo, não cabe mais discutir se ela vai existir. É uma estratégia acordada com a sociedade no Plano Nacional de Educação. Por isso, a solução é que todos colaborem e cheguemos ao melhor modelo possível.”

Coordenador do Observatório do Ensino Médio da Universidade Federal Fluminense (UFF), Paulo Carrano afirma que temos “orientações demais e direitos de menos”. Seu grupo de pesquisa e o da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) lançaram a rede Em Diálogos, que reúne na internet pesquisadores, docentes e alunos em torno de temas da juventude. “É um lugar para se pensar sobre o trabalho, visitado por milhares de pessoas diretamente envolvidas no assunto. Por isso, rejeitamos os projetos de reforma de cima para baixo”, diz. Atualmente, dez universidades participam do portal que discutiu, por exemplo, os cadernos de Formação do Pacto pelo Ensino Médio e suas repercussões práticas. “O Pacto vem sendo implantado em camadas. Por conta do ano eleitoral, secretarias estaduais demoraram a assinar em 2014. Agora, ele está chegando aos professores e queremos também os estudantes.”

Entre as iniciativas estão “Conhecimentos Universais”, com experiências internacionais bem sucedidas para debate, e o pedido para que os alunos e a comunidade mostrem aos educadores seus conhecimentos prévios na campanha “A escola sabe o que você sabe?”. “O jovem tem muitos conhecimentos que podem mudar a visão do professor sobre ele e ajudar a escola a ser mais significativa. Queremos expandir o diálogo, o que é incompatível com uma listagem de conteúdos a ensinar.”