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Foto de Joyce Venancio
Joyce Venâncio é sócia do Preta Pretinha juntamente com suas irmãs Lúcia e Cristina

Entre os descolados e caros ateliês do bairro da Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, a vitrine de uma loja de bonecas chama atenção. Na Preta Pretinha, as estampas e os cortes em miniatura de vestidos, sapatos e penteados dos mais de 150 modelos de bonecas (que custam entre 15 e 285 reais) formam um mosaico de pequenas obras-primas.


O quadro é ainda mais encantador pela diversidade de fisionomias e etnias de pessoas de carne e osso reproduzidas artesanalmente em pano.

Bonecas mulatas, ruivas, indígenas, loiras, orientais e muçulmanas dividem prateleiras com obesas, míopes, portadoras de necessidades especiais, entre outras.

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A inclusão chega aos brinquedos de parque

Criar bonecas à imagem e semelhança das pessoas reais era um sonho da infância da psicóloga Joyce Venâncio, sócia do negócio juntamente com suas irmãs Lúcia e Cristina.

“Não me identificava com as bonecas brancas e loiras. Queria algo que fosse a extensão da minha família”, conta. A única oportunidade de brincar com bonecas negras acontecia quando as empresas de brinquedos lançavam edições especiais dos modelos chamados “jambinho” , vendidos em determinadas épocas do ano.

O desejo de Joyce e suas irmãs ganharia corpo pelas mãos da avó Maria Francisca, que passou a confeccionar as bonecas de pano em casa.


As cabeças de plástico, compradas na Rua 25 de Março, eram revestidas com malha ou meias de seda tingidas de marrom. “Até isso era preciso fazer, porque as meias “cor de pele” equivaliam à pele branca. Quando ficavam prontas, era uma felicidade enorme”, relembra Joyce.

Na escola, as meninas exibiam orgulhosas seus brinquedos, apesar dos comentários maldosos. “Eu não me importava. Minha vó era muito sábia e nos ensinou desde cedo a valorizar quem éramos.” Não passava muito tempo para que os colegas de Joyce pedissem para brincar com as bonecas.

Os ensinamentos da avó guiariam as irmãs Venâncio até a vida adulta. No fim da década de 90, Joyce ocupava um importante cargo dentro de uma produtora de televisão, mas, em meio a uma crise financeira, foi demitida. Primeiro veio o desespero do recomeço. Depois, a inspiração para colocar o sonho de infância em prática. “Chamei minhas irmãs e falei sobre o projeto da loja.

A ideia era confeccionar bonecas de pano que não existiam no mercado. Então, decidimos começar com as bonecas negras e orientais, para depois expandir para outras etnias.”

Mais do que ampliar a variedade, Joyce preocupava-se em desconstruir estereótipos, a exemplo das “negas malucas”. “Eu não queria fazer aquela boneca negra com os olhos esbugalhados, boca exageradamente grande, fitinhas no cabelo e vestido de chita. Eu queria acabar com isso e também com esse nome de nega maluca, porque ele é pejorativo e ajuda a perpetuar o preconceito.”

Outra preocupação era que os produtos estimulassem a imaginação e outros aspectos lúdicos da brincadeira. “Não queríamos bonecas realistas, mas bem feitinhas e com traços simples.”

Com a loja em funcionamento desde o ano 2000, Joyce passou a escutar de seus clientes frases como “até que enfim uma boneca como eu”, “você tem de fazer também uma boneca igual a mim”, e descobriu que não eram só crianças e meninas que gostavam de bonecas.

“É surpreendente o número de adultos, idosos e homens que se interessam por bonecas. Cada um tem uma história. Tem gente que gosta porque os bonecos lembram momentos importantes de sua vida, porque não tiveram esses brinquedos quando crianças ou, até mesmo, porque não puderem gerar filhos.”

Conforme o ateliê foi crescendo – hoje cerca de 30 mil bonecas são vendidas por ano –, a diversidade aumentou. Intuitivamente ou a pedidos, Joyce fez das bonecas uma forma de representar as diferenças e a própria condição humana. “Criamos uma boneca adolescente grávida para ser um instrumento de discussão entre os jovens sobre a gravidez precoce e suas consequências”, afirma.

A recepção do público, porém, nem sempre é positiva. Joyce lembra-se da história de um engenheiro negro que, fascinado com as bonecas, resolveu voltar com a filha.

“Quando ela as viu, recuou. Primeiro, pediu uma Barbie, depois a boneca ruiva, depois uma oriental. Mas ela visivelmente não queria a boneca negra.”

Segundo a empresária, de seus clientes afrodescendentes, apenas 20% compram bonecas negras. “Há uma resistência muito grande. Escuto mães dizendo que não querem que seus filhos sejam caçoados na escola.”

Por outro lado, o trabalho da Preta Pretinha caiu nas graças dos japoneses. De tempos em tempos, a loja é destaque na mídia do país. “Eles adoram as bonecas, principalmente as negras.” Uma agência de viagens brasileira que atende o Japão chega até mesmo a agendar a abertura da loja aos domingos (dia em que fecha as portas) para atendimento exclusivo aos turistas.

Entre seus principais clientes também estão os educadores, público fiel que ajuda a garantir a permanência do ateliê no bairro de aluguéis exorbitantes.

Foi de tanto ouvi-los reclamar da dificuldade de lidar com alunos especiais que Joyce decidiu criar uma linha. “Minhas irmãs ficaram inseguras, pois sabiam que seriam difíceis de vender. Mas eu acreditava na importância dessa ferramenta para a inclusão. É brincando com essas representações humanas que as crianças podem se colocar no lugar do outro.”

Assim, nasceram os bonequinhos com síndrome de Down, deficiência auditiva, visual, cadeirante, muletante e amputado, entre outros.

A proposta é que os educadores possam montar kits com diferentes bonecos e trabalhar a questão da diversidade e inclusão em sala de aula.

“Por meio da brincadeira, tentamos combater esse preconceito presente nas casas e escolas”, conta Maria Zilda Alves Silveira, professora de Educação Especial.

Quando utiliza os bonecos da Preta Pretinha em sala, Maria Zilda gosta de usar a metáfora de que as pessoas são como pérolas. “Tem a pérola branca, a pérola negra, a pérola que vem diferente. Todas elas são igualmente valiosas, assim como nós.”

A reação, segundo Maria Zilda, são olhinhos brilhando de curiosidade e frases como “olha, ele é que nem o nosso colega, ele é especial”. “A criança não tem preconceitos, quem tem sãos os pais, professores e a sociedade. Se mostrarmos desde cedo que esses alunos são tão especiais como os outros, essas crianças serão muito mais abertas às diversidades.”

Outro parceiro da Preta Pretinha é o CEU Emei Aricanduva, em São Paulo, onde as bonecas integraram o projeto “A Minha Identidade e a Sua Identidade! Nossa Diversidade”, vencedor na Categoria Escola/Educação Infantil do 4º Prêmio Educar para a Igualdade Racial, promovido pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades.

“O projeto durou quase três anos e nele abordamos a questão da diversidade e dos direitos das crianças. Tínhamos mais de dez bonecos. Entre eles, a bonequinha com câncer”, conta Andrea dos Santos Barbosa, professora de Educação Infantil da escola.

Os bonecos eram apresentados aos alunos, participavam de painéis expositivos e depois iam integrar a brinquedoteca, para que as crianças pudessem interagir com os brinquedos.

“Era comum elas perguntarem por que tal boneca não tinha cabelo ou por que aquele outro tinha olho puxado. Então nós explicávamos as condições de cada bonequinho, que aquela estava doente e por isso o cabelo tinha caído, que os olhos puxados eram uma característica das pessoas com síndrome de Down, e assim por diante.”

Os resultados do projeto foram aparecendo aos poucos. “Percebemos que os alunos não mais preferiam escolher a boneca loira, de olho azul, e, nos desenhos, eles passaram a pintar cada pessoinha de uma cor. Foi muito interessante”, conta Andrea.

Cláudia Tricate, psicóloga e diretora pedagógica do Colégio Magno/Mágico de Oz, em São Paulo, encomendou as bonecas para um projeto sobre diversidade cultural. “Cada boneco recebeu um nome, uma nacionalidade, e passou a integrar uma das nossas turmas durante dois meses. A boneca que representava a Espanha, por exemplo, era a Carmem, uma cadeirante que havia tido paralisia infantil.”

Além de trabalhar a cultura espanhola, a turma da Carmem mobilizou-se em uma campanha de vacinação contra a doença infecciosa. Já a turma que ficou com a visitante americana, uma bonequinha obesa, mobilizou-se em um trabalho sobre educação alimentar. “A recepção foi muito boa. Teve uma mãe que de tanto ouvir o filho falar da “nova colega” achou que a boneca era uma pessoa real, uma aluna estrangeira”, lembra Cláudia.

Além da loja, Joyce e as irmãs mantêm desde 2010 o Instituto Preta Pretinha, que oferece palestras, oficinas e atividades sobre a importância da diversidade, da inclusão social e do brincar. “Manter o instituto, bem como a loja na Vila Madalena, não tem sido fácil. Mas eu tenho esse trabalho como missão. Hoje, as pessoas sabem que as bonecas da Preta Pretinha são as bonecas da inclusão, não se limitando mais aos bonecos negros.”