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Créditos: Divulgação Brinque-Book

Por Carol Scorce


O livro infantil Peppa, da escritora Silvana Rando, publicado pela editora Brinque-Book e alvo de críticas por apresentar conteúdo racista, não estará mais à venda. A decisão veio da autora no início deste mês de novembro, em acordo com a Brinque-Book, que assumiu o compromisso de recolher a publicação do mercado.

O livro narra a história de uma menina de pele clara e que vive em conflito com os cabelos crespos. O enredo enfatiza o rigor físico da força dos cabelos de Peppa, protagonista da história. A menina aparece puxando uma geladeira com os cabelos, por exemplo. Embora a força dos cabelos seja valorizada na narrativa, a menina deseja um cabelo liso, tido dentro dessa narrativa como sendo o cabelo bonito,  o ideal. A busca por esse ideal estético acaba por desinfantilizar a menina, que, segundo a autora, era a crítica proposta na história. O cabelo como afirmação de identidade e formação cultural, e a problematização do padrão estético em si, foram questões deixadas de lado.

“O livro foi concebido como uma história de humor que criticava a vaidade exagerada na infância. Foi inspirado em uma amiga oriental. E ele era interpretado assim quando lancei, em 2008. Mas os tempos  mudaram, a interpretação que fazem do livro hoje é outra, e se uma única criança pode se ofender, não vale a pena seguir com o livro”, afirmou a autora.

A discussão pública sobre os pontos racistas do livro surgiu a partir de um vídeo (veja o vídeo abaixo) divulgado em 2016 pela empreendedora e dona de um canal do YouTube, Ana Paula Xongani. Ana Paula teve acesso ao livro em uma reunião de pais e professores da escola da filha, que na época tinha pouco mais de dois anos, e estudava no Centro de Educação Infantil da Vila Matilde, bairro da zona Leste da capital paulista.

“Era uma reunião de início de ano e eu fui preocupada com as questões raciais, porque sei que a construção da autoestima é fundamental na infância. Eu olhei os brinquedos, fiz crítica ao fato da pintura do muro só ter crianças brancas, e fui olhar os livros. Dei uma folheada no livro Peppa e percebi que aquele livro não propunha a discussão que a gente deve fazer com as nossas crianças. As professoras me pediram que eu levasse o livro para casa e olhasse com calma, e foi o que eu fiz.”

Foi quando a empreendedora decidiu publicar o vídeo apontando para o que classificou como erros. De 2016 para cá, o vídeo de Ana Paula sobre o livro foi intensamente visto e republicado. “Na época, minha intensão não era fazer uma discussão direta com a autora, mas com todas as pessoas. Nós precisamos refletir se são esses valores que queremos passar para as crianças. Isso precisa estar claro.”

Com o clima de polarização que toma conta, em especial, das redes sociais, o embate entre Ana Paula e Silvana se tornou inevitável. Antes de anunciar o fim da publicação, a autora defendia o reconhecimento do livro por leitores e também por profissionais da literatura. Peppa chegou a ser eleito um dos 30 Melhores Livros pela revista Crescer.

Ana Paula reforça que seu lugar de fala e de crítica é como mãe, qualificada a questionar a educação formal. “Quando soube que o livro era bem aceito e que tinha ganhado prêmios, só reforcei minha tese de que o racismo é estrutural a partir da hegemonia branca. Quem são essas pessoas que premiam livros? Que cor elas têm? Quem são as pessoas que escolhem o material didático que vai ser distribuído nas nossas escolas? Que cor elas têm?”

A autora reavaliou o tom adotado anteriormente, e hoje afirma que todos têm o direito de criticar a obra. “Conversei com muitas pessoas, de dentro e de fora do mercado editorial. É uma discussão para ser feita em todos os lugares. Acredito que o livro é mais importante agora. Toda essa discussão fez ele ter outra dimensão”, completa Silvana.

A publicação de Peppa ainda não foi totalmente recolhida do mercado. Em grandes redes de livrarias on-line o livro segue à venda. A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que o livro não faz mais parte da lista de compras de materiais para as escolas.

A discussão sobre a abordagem racista do livro ganhou força, e a blogueira Ana Paula publicou mais vídeos sobre como discutir racismos a partir dos materiais didáticos das escolas (veja o vídeo abaixo). “Há seis meses pedi um posicionamento da secretaria de Educação e não tive respostas. Acho uma falta de respeito. Mesmo que a editora recolha, os livros continuarão nas escolas. Você pai, você mãe, diretores de escolas, também façam esse movimento e retirar os livros das escolas para que ele impacte em menos crianças”, e encerra o vídeo agradecendo os educadores que se dispuseram a fazer o debate de maneira respeitosa, influenciando no desfecho.