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Sebastian Wordehoff
Sebastian, alemão, durante o intercâmbio no Brasil

Camila Santos ingressou em uma escola brasileira pela primeira vez aos 15 anos, quando a família voltou da Noruega. O japonês Umon Nakamura tinha 18 anos ao desembarcar por aqui com o objetivo de estudar por um período de dois anos. O alemão Sebastian Wördehoff, 16 anos, está no meio de um ano de intercâmbio no Brasil. A pedido de Carta na Escola, os três compararam o nosso Ensino Médio aos sistemas de ensino dos países mais desenvolvidos a que estão acostumados.


De forma geral, olhares estrangeiros tão distintos como o japonês e o alemão coincidem em suas avaliações sobre o sistema educacional brasileiro. Entre críticas e elogios, acham que o currículo brasileiro tem conteúdos mais avançados do que os das escolas de que vieram. Veem os alunos daqui como jovens mais preocupados com o futuro do que os colegas de outros países e dizem que os professores são companheiros, mas muito benevolentes com os alunos.

“Saber como os alunos enxergam o ensino é muito significativo, afinal o aprendizado deles é o objetivo final”, comenta Olgair Garcia, doutora em Educação pela PUC-SP, que fez conferências em diferentes países para falar do cotidiano escolar brasileiro, por causa do seu trabalho direto com Paulo Freire nos anos 1980. “Muitos educadores adorariam ter a proximidade que temos com os estudantes”, diz.

Os três jovens estudaram em instituições públicas nos países de onde vieram. No Brasil, Camila foi a única a sentar nos bancos escolares públicos. Ela cursou o 2º e o 3º ano do Ensino Médio na Escola Estadual Augusto Mariano, em Andradina, interior do estado de São Paulo. Sebastian está no 2º ano do Objetivo de Bauru, também em São Paulo, e Umon cursou as séries finais do Colégio Darwin em Bom Despacho (MG).

A primeira diferença que notaram foi em relação aos prédios. Os três comentaram os muros altos e funcionários na porta das escolas. “Na Noruega só tem a porta de entrada, que fica encostada”, comentou Camila. Os horários de aula também surpreenderam, mas não apenas pelo fato de o ensino ser em tempo integral nos demais países.

Os três lembraram que se acorda mais cedo no Brasil para estar na escola às 7 horas e que não há intervalos entre as aulas. Umon foi o que mais enfatizou essa diferença. “No Japão, chegamos às 8 horas e vamos até às 17, mas sempre há intervalos de 5 a 10 minutos entre as aulas e hora de almoço”, contou. Na Alemanha e na Noruega, Sebastian e Camila viviam rotina semelhante, mas que terminava às 14h30.

Camila e Sebastian ficaram surpresos com os conteúdos mais específicos e avançados do que na Noruega e na Alemanha em Matemática, Biologia, Física e Química. “Não tinha visto nada disso por lá, apesar de gostar muito de ciências em geral”, comenta Sebastian, que já falava a língua antes do intercâmbio por causa de sua ascendência portuguesa.

Camila saiu do Brasil com a família aos 3 anos, quando o pai recebeu uma oferta de emprego no país nórdico. Em casa, continuaram falando português nos 12 anos em que viveram no exterior, portanto, fala e entende perfeitamente a língua, só teve de se adaptar para escrever. “Minha mãe contratou um professor particular”, lembra. Ainda assim, não entendia todas as explicações e conta que tinha receio de perguntar, o que não ocorria na Noruega.

“É que aqui as pessoas zoam, logo alguém fala ‘nossa, você não sabe isso?’”, comenta, apesar de elogiar a recepção calorosa que teve dos colegas e professores. “Para amizades, aqui é melhor. Lá o pessoal é mais fechado. Mas para estudar, a gente vê que rola risadinhas e o professor não fala nada. Acho que também pensa que o aluno devia saber”, afirma. Perguntada como seria a reação de um professor norueguês às piadinhas, e ela dá um exemplo. “Se alguém falasse isso lá, o professor ia dizer: você sabe? Então, faça o favor de explicar.”

Além disso, os educadores estavam sempre à disposição fora do horário de aulas para quem quisesse orientações, como lembra Neide Santos, mãe de Camila, que também sentiu a diferença. “Lá as reuniões eram individuais para falar das crianças e os alunos participavam. Aqui são os pais todos juntos, recados coletivos, a gente fica até constrangido de falar algo pessoal.”

O japonês Umon elogiou a proximidade com os professores, mas também notou que os docentes daqui são mais “compreensivos”. “Me sentia como se também fosse amigo deles, não tem muita cobrança”, comenta. Ele foi o único a dizer que em Matemática e Inglês o currículo de seu país parece estar mais avançado. “Só se fala inglês nas aulas de inglês no Japão.”

Sebastian conta que na Alemanha os professores estão disponíveis para marcar horas, mas são menos abertos ao diálogo em sala. “Me senti muito bem no Brasil, fui bem acolhido. Os professores daqui avisam quando vai ser a prova e o que vai cair, eu prefiro”, diz, explicando que os docentes alemães não explicam exatamente como será a avaliação ou quando. “Acabamos tendo de estudar tudo.”

O ritmo do estudante foi o que chamou mais atenção de Sebastian. Quando ele retornar a Alemanha vai ter de cursar novamente o 2º ano do Ensino Médio, mas não se importa. Ainda não começou a pensar em que curso superior quer fazer. “Vejo os brasileiros como muito responsáveis. A maioria dos meus colegas daqui já está pensando em entrar na faculdade”, comparou.

Para Olgair, esta é a característica mais marcante do Ensino Médio brasileiro e que leva às constatações dos estrangeiros. “Estamos muito preocupados com o vestibular, por isso tantos conteúdos e pouco foco em aprendizados para a vida”, diz. Em sua opinião, os estrangeiros aprendem mais a ter autonomia e a resolver problemas reais. Por isso, saem-se melhor em provas com questões práticas como o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa).

Na última edição do exame, que avaliou 65 países em 2012, o Brasil foi o 58º colocado em matemática, 55º em linguagem e 59º em ciências. O Japão ficou, respectivamente, em 7º, 4º e 4º, enquanto a Alemanha em 16º, 20º e 12º e a Noruega em 30º, 22º e 31º.

Mateus Fiorentini, representante do Brasil de 2011 a 2014 na Organização Latino-Americana e Caribenha de Estudantes, acha que os rankings precisam ser relativizados, mas que o Brasil poderia ter uma educação mais emancipadora, menos concentrada no próximo passo acadêmico ou do mercado de trabalho. “A escola não tem de ser para passar no vestibular ou ser um bom funcionário, mas para formar o sujeito.”