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Créditos: Redes da Maré

“Toda vez que você ouvir um barulho alto, corre que é a hora do abraço.” Dessa maneira Kelly Santos, moradora da Favela da Maré, no Rio de Janeiro, orienta seu filho de três anos durante os tiroteios quase diários. “É a forma que eu encontrei de tentar preservar ao máximo a infância dele”, conta.


Não é todo dia que ela pode pegar sua bicicleta e levá-lo à creche, a um quilômetro de onde mora. No trajeto está a fronteira entre as Favelas Nova Holanda e a Vila do Pinheiro, lideradas por comandos rivais, área onde as disputas são frequentes.

Há dias em que a escola não abre. Outros em que tenta e logo precisa ser fechada. Kelly conta que já recebeu um pedido desesperado da unidade para ir buscar o filho durante um tiroteio, enquanto os professores tentavam manter os pequenos deitados no chão. “Como faz pra segurar uma criança dessa idade deitada?”

Ela, que viveu infância, adolescência e agora a fase adulta na Maré conta que atualmente a sensação de medo e insegurança piorou. “Os policiais entram aqui quase toda hora, reviram casas de moradores, entram para matar… Eu não consigo entender que política é essa, porque quando você pensa que uma escola fecha para a polícia atuar, é o Estado contra o Estado. Nós só queremos viver.”

Violência em escala

Essa realidade tem sido comum a todos os 17.238 estudantes das 44 escolas da Maré. E não só a eles. Dados da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro revelam que, do início do ano letivo ao dia 12 de julho, 382 escolas das 1537 da rede foram fechadas pelo menos um dia por conta da violência, deixando 129.504 alunos sem aula em toda a cidade. As regiões de Acari e da Maré são as que mais acumulam dias sem aula.

Créditos: Redes da Maré

A situação levou o município a reativar estratégias utilizadas em 2009 e 2013, em parceria com a Cruz Vermelha Brasileira (CVB), para mitigar as consequências humanitárias da violência armada.

Representantes de 400 escolas em situação de risco passaram por um treinamento oferecido pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), o Acesso mais Seguro para Serviços Públicos Essenciais. Participaram da formação 41 professores das onze Coordenadorias Regionais de Educação. A ideia é que eles atuem como multiplicadores e levem o conhecimento adquirido para os demais docentes e funcionários.

O curso é uma adaptação para contextos de violência urbana que o CICV elaborou para diminuir a vulnerabilidade de seus funcionários em ambientes de conflito armado e violência nos países nos quais opera. Os professores foram orientados a criar uma metodologia de trabalho nas escolas e até a simular ações necessárias em casos de violência (evacuação, por exemplo). Também aprenderam a sistematizar um protocolo de abertura e fechamento de escolas e a enumerar não só as perdas em termos de aprendizado, mas o impacto econômico dessas decisões.

“Sabemos que essa situação de violência que vivemos hoje foi construída e tem causas sociais, culturais e econômicas. A paz ou uma paz relativa também terá que ser construída e os profissionais de Educação têm legitimidade para isso”, afirmou o secretário municipal de Educação, César Benjamin, durante a cerimônia de lançamento da formação.

Para a Redes de Desenvolvimento da Maré, é preciso relativizar algumas questões. O conteúdo da formação, por exemplo, é focado na ideia de que as pessoas têm de se comportar de uma determinada forma no momento do conflito. “Porém, mais do que considerar que a Maré vive em guerra, é necessário considerar a ausência do direito à segurança pública nas favelas.”

A instituição também entende que o tipo de crime a ser enfrentado revela a maneira como o Estado olha para a população. “O enfrentamento às drogas foi eleito como o principal crime a ser combatido, mas tem-se a questão da apreensão de armas e não se vê o mesmo empenho da Polícia Federal e do Ministério Público. É importante não naturalizar esse tipo de ação bem intencionada do CICV, pois não é uma solução estrutural e estruturante para esse problema.”

Pedagogia de emergência

Em um dos episódios de violência nas escolas do Rio de Janeiro um professor foi tido como herói. Durante um tiroteio, o docente Roberto Ferreira, do CIEP Roberto Morena, na Zona Oeste, levou seus estudantes ao corredor e decidiu cantar com eles.

Para o terapeuta social e educador Reinaldo Nascimento, presidente da Associação da Pedagogia de Emergência no Brasil, a arte pode ser um bom aliado para diminuir os traumas causados pela violência. “Claro que a situação é super delicada, mas é uma maneira de fortalecer outras memórias nessas crianças, que não as da violência. É uma forma das coisas belas tornarem-se mais fortes do que as coisas feias.”

Segundo Nascimento, que tem experiência em territórios de guerra como Faixa de Gaza, Síria e Iraque, crianças expostas frequentemente a situações de violência podem desenvolver sintomas e comportamentos inesperados ou até evoluírem para casos clínicos, como síndrome do pânico.

“É muito comum o medo, o choque, ou casos de crianças que no pós-trauma se tornam quietas ou ativas demais, agressivas, agitadas, com imenso grau de abstração, ou até voltam a ter atitudes infantis, como chupar o dedo ou ter medo de dormir sozinha.”

Para o educador, é importante que as escolas observem e reconheçam esses tipos de fenômenos, até para que saibam como melhor conduzir atividades com essas crianças.
“Em uma situação de conflito e violência não se tem regras claras e isso é muito ruim. É importante que as escolas as restabeleçam, bem como o ritmo de seus rituais e fortaleçam as relações entre os pares para que todos se sintam em um local seguro”, orienta.

O desafio, claro, se projeta muito além das escolas e pede respostas urgentes das políticas públicas. De 2011 a 2015, o Brasil registrou mais mortes violentas do que a Síria, país efetivamente em guerra.

Foram 278.839 ocorrências de homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenção policial no Brasil no período, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Na Síria, foram 256.124 mortes, de acordo com o Observatório de Direitos Humanos da Síria.

Para Nascimento há uma questão central: “Aqui a violência ainda é velada e opõe interesses desconhecidos tanto da Polícia quanto das facções criminosas.”