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As mulheres passam de duas a dez vezes mais tempo cuidando de uma criança do que os homens

Criar os filhos e cuidar da casa parecem ser, segundo discursos recentes proferidos pelo governo Temer, funções exclusivas das mulheres na sociedade. Se no Dia Internacional da Mulher, o presidente afirmou ter absoluta convicção “do quanto a mulher faz pela casa, do quanto faz pelo lar, do que faz pelos filhos”, na semana passada foi a vez do Ministro da Saúde, Ricardo Barros, reforçar os “papéis naturais” de homens e mulheres.


Ao anunciar um plano para reduzir a obesidade no País, Barros atrelou o problema ao fato das crianças, ao contrário do que ocorria antigamente, não terem mais a oportunidade de acompanhar a mãe nas tarefas diárias de preparação da comida. “Muitas delas não ficam em casa com as mães e não têm oportunidade de aprender a descascar os alimentos”, disse.

Apesar de terem sido amplamente criticados, enunciados como esses preocupam, pois revelam como a noção retrógrada e machista de que a tarefa de criar os filhos é um encargo apenas das mães resiste e, ainda pior, é reforçada por aqueles que deveriam desconstruí-la: os governantes.

Em tempos em que diversos países discutem, reveem e aprimoram políticas de equidade de gênero ligadas ao cuidado como a licença-paternidade, uma parcela considerável da sociedade brasileira continua achando justificável a alienação da figura paterna da educação das crianças.

Para Belinda Mandelbaum, psicóloga e coordenadora do Laboratório da Família da Universidade de São Paulo, tal situação escancara como o País ainda está profundamente marcado por um modelo patriarcal de família, que enxerga o homem como provedor e autoridade máxima dentro da casa e a mulher como encarregada da administração do lar e do cuidado com os filhos.

“Apesar dos avanços conquistados, principalmente, a partir de meados do século XX, com a emancipação das mulheres com a luta feminista e, consequentemente, a conquista de novos espaços como o mercado de trabalho e a universidade, os valores da nossa sociedade não evoluíram na mesma velocidade”, explica.

Isso significa que continua-se exigindo da mulher todas as responsabilidades ligadas ao cuidado da prole, independentemente de trabalhar fora ou não. “No Brasil, diferentemente de outros lugares onde presenciamos uma maior igualdade na distribuição das tarefas domésticas, ainda é considerado um tanto vexatório o homem realizar esse tipo de atividade. Por isso, é lamentável que o presidente acabe reforçando esse estigma, oferecendo esse modelo de família, da mulher bela, recatada e do lar”. O mesmo pode-se dizer da fala do ministro, que ainda culpabiliza as mães por um problema muito mais complexo que é a obesidade infantil, diz.

Segundo o estudo Situação da Paternidade no Brasil, realizado pelo Instituto Promundo sobre o envolvimento do homem no papel de cuidador no Brasil e no mundo, embora as mulheres representem atualmente 40% da força de trabalho remunerada, em média, elas ainda passam de duas a dez vezes mais tempo cuidando de uma criança do que os homens.

O relatório defende ainda a necessidade de entender que a paternidade é um caminho importante para a promoção da igualdade de gênero. “Quando os homens e os meninos são envolvidos na divisão igualitária do trabalho de cuidado há benefícios diretos para suas vidas, que podem ser mais saudáveis e menos violentas. Quanto à influência na vida de mulheres e meninas, abre-se a possibilidade de que tenham maior participação na vida política, na comunidade e no mundo de trabalho”, diz.

Belinda concorda. Para a especialista não há qualquer razão para extrair os homens das atividades que permeiam a criação dos filhos. Muito pelo contrário, eles deveriam participar ativamente desse processo a fim de criarem filhos com vínculos mais saudáveis e preparados para o mundo. “Não penso em nenhuma atividade de cuidado que seja exclusivamente feminina, a não ser claro, dar à luz e amamentar. Mas mesmo nessas ações o papel do homem é fundamental para criar condições para que a mãe possa, por exemplo, amamentar seu filho de uma maneira mais tranquila, menos sobrecarregada”, aponta.

Uma paternidade mais participativa é essencial não apenas para uma sociedade mais igualitária, mas também para o desenvolvimento da criança. “A figura do pai é um terceiro elemento importante na família, que faz um corte entre a relação mãe-filho, e apresenta outras formas de identificação para a criança, essencial para a criação de vínculos mais saudáveis”, diz Belinda. “Esse debate precisa ser feito em sociedade para fugirmos desses valores patriarcais que consideram tudo que acontece em relação à educação de um filho no espaço doméstico um assunto materno”, conclui.