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Prática só visa resultado final, não processo
A atitude pode levar a criança a crer que o dinheiro é a mediação de tudo

Esqueça a mesada e outros instrumentos tradicionais de educação financeira. O melhor método para criar filhos financeiramente responsáveis e ensinar que dinheiro é fruto de trabalho duro é remunerando-os pelas tarefas que executam dentro de casa ou pelo bom desempenho na escola.


É isso o que recomenda o especialista em finanças norte-americano Dave Ramsey e sua filha Rachel Cruze no polêmico Smart Money Smart Kids (Dinheiro Esperto Crianças Espertas, em tradução livre), lançado em 2014 nos EUA e ainda sem edição no Brasil.

Com passos práticos, o livro defende que mesadas e semanadas sejam banidas de dentro das famílias, pois reforçam a ideia de que é possível ganhar dinheiro sem, necessariamente, merecê-lo. O correto seria estabelecer e pagar quantias para cada serviço realizado em casa, como lavar a louça, arrumar o quarto ou cortar a grama. Assim, as crianças saberão que para cada trabalho feito há uma recompensa. Apesar de polêmica, a obra rapidamente tornou-se um best seller nos Estados Unidos, tendo encabeçado a lista dos mais vendidos do The New York Times.

Especialistas em educação e infância, entretanto, criticam os ensinamentos da família Ramsey. Para eles, vincular a ideia de dinheiro e afazeres domésticos e escolares pode passar mensagens perversas para os pequenos, gerando uma inversão de valores. “Se toda vez que uma criança tirar 10 ela ganhar determinada quantia, o que era fim, ou seja, aprender, se desenvolver cognitivamente e socialmente, acaba se tornando apenas um meio para outra finalidade – conseguir dinheiro”, explica Yves de La Taille, pesquisador e estudioso do desenvolvimento moral e professor do Instituto de Psicologia da USP.

O mesmo vale para a execução de tarefas domésticas. “A criança que deveria estar fazendo aquilo com a intenção de auxiliar a família começa a realizar um trabalho alienado dentro da própria casa”, diz.

Além disso, essa visão pode levar a criança ou o adolescente a crer que o dinheiro é a mediação de tudo e que as únicas coisas que valem a pena ser feitas são aquelas que são pagas. “Ficam de lado valores como a moral, a justiça, a solidariedade, que deveriam ser coisas importantes por si só, mas passam a ser caminhos para conseguir dinheiro. Por isso, acho muito perigoso esse ‘neoliberalismo’ familiar”, explica La Taille.

Para a psicóloga Laís Fontenelle, do Instituto Alana, podemos educar as crianças para um consumo mais consciente de outras formas. “É claro que elas precisam começar a entender, desde cedo, o valor do dinheiro, que ele “não nasce em árvore”, entre outras coisas, mas não é remunerando tarefas escolares ou domésticas que vamos conseguir isso”, defende. Para Laís, a forma mais adequada de mostrar essa relação é fazendo com que a criança tenha admiração e interesse pelas ocupações e que aprenda a poupar para alcançar objetivos a longo prazo. “Assim você ensina que o trabalho em si pode ser prazeroso e que, como consequência, vem uma recompensa, uma remuneração, mas que isso não é o mais importante.”

Nesse sentido, é importante atrelar a noção de empoderamento financeiro infantil à de um consumo consciente. A criança precisa entender o valor subjetivo das coisas, desenvolver uma regulação interna, conseguindo adiar alguns desejos. “Antes de tudo, ela precisa compreender o impacto que seu consumo individual tem no coletivo, diferenciar o que é desejo do que é necessidade e como, muitas vezes, somos induzidos a comprar coisas pela publicidade ou porque nosso amigo tem”, diz Laís. Outra prática importante é estimular na criança aspirações que vão além de bens materiais. “Há coisas que elas vão almejar na vida que não são conquistadas por meio do dinheiro”, lembra a psicóloga.

Cássia D’Aquino, especialista em Educação Financeira, concorda. “Esse autor pode até entender de planejamento financeiro, mas não de psicologia infantil, dos efeitos dessa prática na construção do indivíduo”, critica. Para a especialista, os filhos devem colaborar nas atividades de casa pela consciência de que são parte de uma pequena comunidade e de que precisam agir em prol de um bem comum. “As crianças obedecem os adultos porque os amam, querem agradá-los. Esse deve ser o motor da obediência. Com essa prática, é como se disséssemos “troco meu amor por tantos reais”.

Dar prêmios conforme o desempenho escolar é outro erro grave. Quando se diz a uma criança que ela vai receber dinheiro se tirar tal nota, o que se está dizendo é que só interessa o resultado e não o processo. “Se ela vai colar, burlar as regras para atingir o objetivo não interessa desde que apareça com a melhor nota”, explica Cássia. Não existe presente maior, ela diz, para uma criança do que receber um abraço apertado ou dar orgulho aos pais. “É isso que ela deseja, que seu desempenho seja celebrado e não recompensado.”

Dentro desse panorama, a escola deve respeitar as práticas adotadas pela família como as mesadas e semanadas. Seu papel é ser mais um espaço para a discussão do assunto. “A escola pode mostrar como a economia está presente no nosso cotidiano, promovendo discussões que mostrem que a vida é cheia de escolhas, inclusive em relação ao dinheiro, e que eles devem escolher o mais pertinente aos seus objetivos e que sejam também capazes de arcar com as consequências dessa escolha”, afirma Cássia.