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sala do museu da pessoa
Acervo reúne mais de 15 mil histórias de vida e 72 mil documentos e imagens

O Museu da Pessoa é um museu diferente. Lá, qualquer um, famoso ou não, tem espaço para expor. Não existem corredores, quadros ou esculturas. Localizado em uma casa na zona oeste de São Paulo, ele até recebe visitas, mas você pode acessar o acervo pelo site. E todos podem mandar contribuições para o acervo, já que, aqui, as atrações são os relatos de gente comum.


Tudo começou há 20 anos, por iniciativa da historiadora Karen Worcman, atual diretora-executiva do museu. Anos antes, entre 1984 e 1990, quando ainda estudava História na Universidade Federal Fluminense, Karen participou de duas pesquisas que tinham como base entrevistas. Os projetos estudaram a vida e a obra do fotógrafo José Medeiro e a história dos judeus imigrantes no Rio de Janeiro. Daí nasceu a ideia de que a história de cada um tem valor e, por isso, deve ser parte da história da sociedade.

Nas palavras de Sônia London, coordenadora dos programas de formação e disseminação do museu, o acervo possui relatos de vida que vão de moradores de rua a presidentes de empresas. Para participar, é preciso ligar e agendar uma entrevista. Todas as terças e quintas, o museu abre suas portas e recebe quem deseja gravar seu depoimento. No acervo do museu ficam registrados o vídeo, a transcrição da conversa e imagens feitas ali. Outro método para fazer parte do museu se dá pela internet. No portal, é possível se cadastrar para enviar imagens, vídeos, áudios e textos.

O conteúdo é colocado no ar e fica à disposição para consultas. Também pela internet, é possível ter acesso às outras histórias na íntegra. Após 20 anos de atuação, o acervo reúne mais de 15 mil histórias de vida e 72 mil documentos e imagens.

Além de receber, o Museu da Pessoa também vai atrás de histórias. No projeto Museu Que Anda, um estúdio itinerante percorre espaços públicos, como praças e eventos, à procura de pessoas dispostas a contar trechos de suas vidas. “Estipulamos um tema e as pessoas falam, por exemplo, sobre infância, trabalho, relacionamentos”, explica a coordenadora.

Em parcerias com empresas, os pesquisadores do museu recolhem depoimentos que ajudam a recontar a história de corporações ou instituições.

O trabalho do Museu da Pessoa também repercute nas escolas. Desde 2001, Sônia é responsável pelo Projeto Memória Local na Escola, resultado da parceria entre o museu e o Instituto Avisa Lá. A ideia é registrar a memória do entorno, envolvendo os alunos na coleta das histórias dos moradores.

Após mais de dez anos de atividade, Sônia indica, entre os benefícios de utilizar a história oral em sala, a aproximação entre escola e comunidade e o aumento da autoestima dos alunos, que são agentes ativos do projeto. Para a coordenadora, algumas histórias podem ainda revelar relações entre escola e seu entorno que permaneciam desconhecidas. “Outro benefício é que a escola passa a ser produtora de conhecimento, e não apenas reprodutora”, afirma.

Samira Matiele, professora da Escola Municipal José Camilo dos Santos, em Duque de Caxias (RJ), aplicou o Memória Local na Escola em sua turma do quinto ano durante o segundo semestre de 2012. Ela explica as etapas: “Primeiro, nós escolhemos com os alunos a pessoa que será entrevistada. Depois, os estudantes montam o roteiro de perguntas. E, então, é feita a entrevista. Ela é filmada e há os alunos que anotam, os que entrevistam e os que desenham”.

De volta à sala de aula, eles compõem o texto final e selecionamos os desenhos. No fim,  tudo vira um livro, geralmente lançado em algum local público da comunidade.

Nos municípios de Guaíba (RS) e Indaiatuba (SP), a metodologia das entrevistas com pessoas da comunidade foi integrada ao currículo escolar do terceiro e quarto anos do Ensino Fundamental. Em São Bernardo do Campo, a memória local é conteúdo oficial da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Para Sônia, o intercâmbio da escola com a sociedade é um caminho para unir educação e cultura: “A escola sempre é vista como aquela que produz e dissemina conhecimento. Ao valorizar o conhecimento das pessoas da comunidade, reconhecendo as histórias locais, mostramos que existe um jeito diferente de estudar História e estimular o interesse dos alunos pela realidade em que vivem. A História não precisa ser contada só pelo historiador”.

*Publicado originalmente em Carta na Escola