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Sala de Aula

Ensinar não tem receita. O que funciona em um país pode não dar resultado em outro, assim como o sucesso de uma escola não necessariamente funciona em uma distinta e até mesmo o que funcionou com um aluno pode não dar certo com outro.


Ciente disso, a fundação britânica Sutton Trust, focada em reduzir a desigualdade educacional, reuniu pesquisas sobre boas práticas docentes nos últimos dez anos e cruzou os dados para separar as que mantêm evidências de impacto na aprendizagem das que se provaram casos isolados.

O estudo chamado “What make great teaching” (“O que faz grandes educadores”, em tradução livre) foi feito em parceria com a Universidade de Durham, também na Inglaterra. Quatro características sobressaíram-se como práticas de professores com resultado efetivo sobre os estudantes: conhecimento sobre o conteúdo que lecionam, criação de um ambiente propício, formação com a ajuda de outros docentes e entendimento de como os alunos aprendem. “São fatores que devem ser considerados ao menos como base de reflexão”, diz o estudo.

O francês Bernard Charlot, emérito da Universidade Paris 8 e pesquisador da Universidade Federal do Sergipe, concorda com a ausência de fórmulas e com a necessidade de apontar caminhos com evidências concretas.

“Existe uma máxima da educação de que toda e qualquer experimentação pedagógica dá certo. Isso ocorre porque o próprio fato de experimentar causa uma mobilização positiva, mas quando se aplica em escala, o entusiasmo não se repete tampouco o resultado. Por outro lado, os jovens precisam de indicativos de por onde ir”, explica.

O levantamento do Sutton Trust traz detalhes sobre cada prática. No caso de conhecimentos específicos da área, por exemplo, as pesquisas concluíram que é fundamental ter bom domínio dos conteúdos que serão ensinados. Por outro lado, níveis de conhecimentos muito superiores ao patamar que se leciona não demonstraram fazer diferença.

Ou seja, um professor de Biologia para Educação Básica que deseja resultado no aprendizado deve investir mais em conhecer profundamente a matéria para Ensino Fundamental e Médio do que avançar seu domínio da Biologia. “Melhorar a qualidade do conhecimento dos professores em sala de aula sobre os conteúdos que lecionam deveria ser uma das prioridades em qualquer escola”, afirma a porta-voz do instituto, Hilary Cornwell.

“Não se pode ensinar bem o que não se sabe”, retoma Charlot. “Parece muito básico, mas não é o que se vê nas escolas brasileiras dos anos finais dos ensinos Fundamental e Médio. Muitas vezes, o professor não é especialista na disciplina e a ensina”, lembra, afirmando que o ato pedagógico requer três elementos e cada um deve ser mediador entre os outros dois: professor, aluno e saber. “Um professor que sabe muito da matéria, mas não como alcançar o aluno não produz aprendizagem. Assim como outro que considera o aluno, mas não sabe a matéria.”

O próximo elemento diagnosticado pelo levantamento do Sutton Trust, o ambiente propício não tem a ver com condições físicas ou tecnológicas da sala de aula. Trata-se de atribuir mais sucesso ao esforço do que à habilidade do estudante e de valorizar a capacidade de continuar tentando após o fracasso. A sala de aula propícia seria aquela em que o aluno se permite errar, seguro de que sua tentativa será respeitada.

O filósofo da ciência Gaston Bachelard definiu “conhecimento” como “a resposta a uma pergunta” e “verdade” como “erro retificado”. Para Charlot, o ambiente certo é aquele que faz as questões nascerem e permite aos estudantes ousarem. “O ideal é que o aluno pense: posso errar, o professor não vai gritar, não vai me desvalorizar, os colegas não vão tirar sarro de mim. Posso ousar, portanto posso tentar, portanto, posso pensar”, ilustra.

Infelizmente, suas pesquisas há anos no Brasil apontam o contrário: ambientes individualistas e competitivos, conteúdos segmentados e provas de múltipla escolha que não permitem acompanhar a linha de raciocínio dos alunos. “A maioria dos problemas que vejo no Brasil é igual aos que via na França, mas neste caso os franceses ainda escrevem muito e permitem aos professores entender o que estão pensando, enquanto os brasileiros cada vez mais marcam alternativas.”

Parte da resposta sobre como criar tal ambiente está na formação com outros professores ou “em pares”, indicada como terceira prática docente efetiva pelo Sutton Trust. Formada em 2012, a professora de História Janaína de Souza é um exemplo do sucesso da prática. Ela conta que aprendeu mais em seu primeiro ano contratada na escola estadual Antonio Kassawara Katutok, em Gabriel Monteiro, interior de São Paulo, do que na faculdade.

“Aprendi a respeitar a heterogeneidade, a propor atividades diferenciadas para alguns alunos e a avaliar com o objetivo de acompanhar o desenvolvimento e encontrar formas de ajudar”, resume. A unidade tem a prática de colocar professores para assistir às aulas dos colegas presencialmente ou por vídeo.

“Quando comecei, tinha dificuldade para conseguir a atenção dos alunos. História não parecia ser algo atraente para eles e só me ocorria tentar ser agradável”, conta Janaína. Ao assistir às aulas de veteranos, encontrou uma estratégia mais eficiente desenvolvida pela colega de Língua Portuguesa. “Todos achavam a professora rigorosa e a matéria difícil, mas prestavam atenção por interesse pela forma como contextualizava e por perceberem que ela era muito justa em suas avaliações, o que contava pontos a quem demonstrasse esforço. Funcionou comigo também.”

A diretora, Maria Elizabete Fernandes Oliveira, conta que começou a assistir às aulas intuitivamente quando era coordenadora pedagógica na mesma instituição. No início, nem todos aceitaram a iniciativa. “Alguns não me queriam na sala, achavam uma intromissão. Fiquei só nas que permitiram, observava e ia atrás de técnicas ou conteúdos para colaborar. Logo, a postura foi mudando. O professor precisa de ajuda permanente, mas às vezes nem sabe disso.”

A última medida que se prova eficiente para a melhora da prática pedagógica é o conhecimento sobre o estudante. Esse item, segundo o Instituto Sutton, muitas vezes confunde-se com saber sobre a vida do estudante. Para a instituição, resulta em mais aprendizado conhecer a forma como os alunos pensam, que atividades os instigam e como veem a escola. “Um professor munido dessas informações coordena melhor a turma, lida melhor com as diferenças de comportamento e tem em mente as potencialidades e dificuldades”, conclui o estudo.

Para Charlot, o conhecimento sobre a criança pode sugestionar o professor, nem sempre de forma positiva. Informações de condição social desfavoráveis ou mesmo envolvimento com atividades ilícitas, por exemplo, dificilmente serão ignoradas pelo docente. “Importa saber como envolver o aluno e como ele aprende. No fim das contas o atual desafio do professor é mobilizar, fazer com que nasça o desejo de aprender.”