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Tirinhas

Os primeiros dias de 2014 trouxeram uma pesquisa com resultados reveladores e que dão muito o que pensar. O estudo revela que as “narrativas em tiras” (voltaremos a essa expressão já, já) são a leitura preferida dos estudantes da rede pública de ensino de São Paulo. Essa opção apareceu em 45% das respostas dos alunos entrevistados, ficando à frente de gêneros literários tradicionais, obrigatórios no conteúdo escolar.


Contos, mitos e lendas foram a segunda opção mais indicada pelos discentes paulistas (com 36,9%). Em terceiro, aparecem os poemas (31%). Em quarto e quinto, os romances de amor (29,2%) e de aventura (24,8%). Crônicas (18,5%) e livros de História do Brasil ou mundial fecharam a lista (12,6%), divulgada em 2 de janeiro pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

Os dados integram uma pesquisa feita pela Coordenadoria de Informação e Monitoramento e Avaliação (Cima), órgão ligado à secretaria. Os responsáveis pelo levantamento ouviram estudantes do 3º, 5º, 7º e 9º anos do Ensino Fundamental e alunos do 3º ano do Ensino Médio. A cada um foi feita a seguinte pergunta: “Que tipo de livro você gosta de ler?”

As respostas eram na forma de alternativas. Os estudantes podiam assinalar mais de uma possibilidade. Segundo o texto da secretaria, que divulgou os resultados, o universo de alunos ouvido foi bastante representativo. A pesquisa abordou 1 milhão dos 43 milhões de estudantes da rede pública paulista de ensino, uma vez mais, também de acordo com números fornecidos pela área de educação.

Há vários pontos que merecem uma análise mais atenta. O primeiro é entender exatamente o que os autores do questionário entendem por “narrativas em tiras” – partindo da premissa de que tenha sido exatamente essa a expressão utilizada, já que os questionários não foram divulgados.

A expressão sugere que se trata de tiras – casos de Mafalda, Garfield, Níquel Náusea, para ficarmos em três exemplos –, mas autoriza também a interpretação de que possam ser as próprias histórias em quadrinhos em si, muitas delas narradas justamente por meio de tiras sobrepostas em uma ou várias páginas.

Essa última possibilidade ganha mais força se vista à luz da própria manchete utilizada no texto de divulgação do levantamento, veiculado
no site da secretaria estadual: “Quadrinhos, contos e poemas são estilos literários preferidos de alunos da rede”. Somado ao fato de o título trazer outras imprecisões – quadrinhos não são nem literatura nem “estilo literário” –, parece ser uma explícita falta de familiaridade no tema.

Dada a abrangência e relevância de um estudo assim, que pode, inclusive, nortear políticas públicas de leitura e a atuação do professor em sala de aula, haveria a necessidade de maior precisão na opção fornecida aos alunos. São tiras, possibilidade que nos parece a mais possível? São todos os quadrinhos, tiras incluídas?

Enfim, o que exatamente os alunos paulistas mais preferem ler? Mafalda (uma tira) ou O Eternauta (uma narrativa mais longa, com várias páginas), para pinçarmos dois casos do cânone quadrinístico argentino? São gêneros completamente diferentes, que compõem, por consequência, atividades de leitura igualmente distintas.

A pesquisa sinaliza um comportamento que vem sendo corrente no meio educacional brasileiro, visto tanto entre as entidades de educação quanto na própria sala de aula: um nítido desconhecimento do que sejam quadrinhos e de quais são seus gêneros. Surgem dessa falta de familiaridade muitas das imprecisões como a que pautou a pesquisa que ora discutimos.

Há de se ler criticamente também o resultado em si do levantamento. Ao destacarem as narrativas verbovisuais, sejam elas tiras ou quadrinhos propriamente ditos, os estudantes dão uma resposta bastante eloquente sobre o que gostam de ler e que precisa ser ouvida com atenção por quem detém as políticas públicas de ensino. Os alunos confirmam o descompasso existente entre o que apreciam como leitura e do que querem que gostem.

É fato que os livros didáticos e demais materiais de ensino estão rechea-
dos de tiras. Essas são usadas, em geral, ou como pretexto para determinada atividade (um uso que poderia ser mais bem explorado) ou como base para questões interpretativas. Estão entre os gêneros dos quadrinhos preferidos pela área educacional por serem curtas (o que facilita sua impressão) e por circularem em espaços que atingem o leitor não habitual da área, como os jornais e alguns sites.

O dado curioso é que os quadrinhos, por mais que apareçam em documentos oficiais, como o Parâmetro Curricular Nacional (PCN), no estado de São Paulo contraditoriamente figuram no Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) como conteúdo a ser aferido apenas de crianças do 4º ano do Ensino Fundamental.

Apesar de carecer de maior precisão, a pesquisa traz algumas contribuições inegáveis. A primeira delas é elucidar os reais gostos dos alunos, ao menos dos paulistas matriculados na rede pública. O que se prefere ler nem sempre é o que se apresenta a ele no ensino. O segundo ponto é que ajuda a confirmar o que já se sabia há mais de um século no Brasil: quadrinhos são leitura. Por mais óbvia que seja essa afirmação, ela ainda não é tão óbvia assim, em pleno século XXI.

*Publicado originalmente em Carta na Escola