COMPARTILHE
Homem lê jornal

O jornalista jamais deve expressar opinião em seus textos. Essa noção de neutralidade está presente em manuais de jornalismo e disseminada no senso comum. Assim, a opinião presente nos veículos de comunicação ficaria restrita a espaços bem delimitados em jornais ou revistas, como os editoriais e os artigos assinados. No entanto, essa pretensa neutralidade já é questionada há algum tempo nos meios acadêmicos.


Leia também: Dicionário repaginado
A comunidade contada por seus jovens

Uma das ideias defendidas é que é impossível, para qualquer discurso, não expressar, em alguma medida, a opinião. Reunindo 15 artigos de brasileiros, franceses e suíços especialistas em linguagem, o livro “A Construção da Opinião na Mídia” problematiza e busca colaborar com a compreensão das estratégias de construção da opinião e do discurso midiático.

Organizador do livro, Wander Emediato, porém, faz um alerta. “O objetivo do livro não é acusar a mídia por sua subjetividade nem entrar na problemática de que essa subjetividade manipula, no sentido mais falacioso dessa palavra”, explica o professor e coordenador do Núcleo de Análise do Discurso (NAD) da Universidade Federal de Minas Gerais.

Os artigos, segundo Emediato, partem do princípio de que toda prática discursiva (inclusive a expressa em jornais, revistas ou televisão) é marcada pela subjetividade. Esse aspecto emerge, no caso do jornalismo, na hierarquização e na seleção das informações extraídas das entrevistas e que farão parte do texto final, por exemplo. A discussão é feita a partir desse pressuposto.

Além disso, caso os leitores fossem realmente críticos, capazes de dialogar e tomar seus próprios posicionamentos diante de um fato noticiado, a subjetividade da mídia não seria um problema. “Um leitor crítico não teme nada. Ele poderia ler, em tese, tudo, sem temer nenhuma influência.” O problema, então, volta-se novamente para as condições da leitura no Brasil. “O brasileiro lê muito pouco e, quando lê, toma as informações extraídas como a verdade, sem conseguir fazer as relações lógicas e críticas necessárias”, analisa.

Dividido em 15 capítulos, o livro explora diferentes facetas do discurso da mídia. Um deles discute os pontos de vista presentes nas revistas femininas. Outro, debate a encenação discursiva do programa Roda Viva. O jornalismo religioso e a imprensa popular também são analisados , assim como os programas de talk shows e as interpretações feitas por cordelistas de notícias veiculadas pela imprensa.

Geralmente restritas às faculdades de Comunicação, essas questões podem ser debatidas no Ensino Médio, na opinião de Emediato. “O professor pode levar as questões para a sala de aula, sair do currículo mais conteudista e problematizá-las com seus alunos”, defende.