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Debora Araujo

Os olhos que me fitam do cartaz não negam: Débora Araújo Seabra de Moura, 32 anos, tem síndrome de Down. Apesar disso, e talvez até mesmo por isso, sua história de vida é muito surpreendente. Há nove anos tornou-se a primeira educadora com síndrome de Down no País.


Professora-assistente na Escola Doméstica de Natal (RN), com 17 crianças de 6 a 7 anos, ela acaba de lançar o livro Débora Conta Histórias, um apanhado de fábulas infantis cuja moral no desfecho é preterida pelo manifesto do direito de ser diferente.

Em seu papel de professora e cidadã, Débora nos mostra que a diferença não deve impedir ninguém de ser aquilo que se deseja. A inclusão é sua maior bandeira.

Suas conquistas ganharam espaço na imprensa nacional e sua vida tornou-se tema de palestra em Portugal e na Argentina. Débora recebeu prêmios e homenagens, virou símbolo e se diz feliz por poder inspirar outras pessoas e mostrar que a vida com a síndrome de -Down é possível, assim como a inclusão é necessária.

Filha do casal Margarida e Robério -Seabra de Moura – ela advogada, ele psiquiatra –, Débora foi criada pelos pais para ter a maior autonomia possível. Sempre estudou em escolas convencionais e é vista como uma desbravadora. Sua história pessoal confunde-se com a própria luta das pessoas com a síndrome e de suas famílias por uma nova perspectiva de vida.

Débora Conta Histórias
Ilustração do livro Débora Conta Histórias

A oportunidade de realizar estágio na escola onde havia estudado durante o Ensino Fundamental, o Colégio Imaculada Conceição (CIC), foi determinante em sua formação docente. A missão era auxiliar a professora da pré-escola. “As crianças gostavam de mim e foram legais comigo. Até me chamavam de professora Débora. Eu adorei isso e me emocionei várias vezes.

Em 2001, ela iniciou um dos maiores desafios de sua vida: enfrentar os anos de formação do magistério na Escola Estadual Prof. Luís Antônio. No primeiro dia de aula, apresentou-se aos alunos e professores dizendo que queria ser tratada igual a todos. Mas não foi o que ocorreu.

“Nem todas as pessoas compreendiam a inclusão. Tive muita dificuldade com os professores e alguns colegas. Tinha gente preconceituosa e gente que tentou me explorar. Foi difícil”, relata Débora. “Eu dizia que ela não precisava se submeter àquelas situações humilhantes, mas ela me respondia que não desistiria de seus sonhos”, conta a mãe.

Em 2004, Débora concluiu o curso. O feito deu-lhe projeção. Ela tornava-se a primeira professora com síndrome de Down do Brasil, onde existem cerca de 300 mil pessoas com a síndrome. Segundo dados da Federação Brasileira das Associações Síndrome de Down, cerca de 60 pessoas iniciam cursos profissionalizantes por ano.

Após estágios de formação, o que incluiu a experiência de uma semana na creche da Unicamp, em Campinas, a Escola Doméstica (ED), instituição onde ela já havia estudado, foi procurada por Margarida Seabra e abriu as portas- -para Débora trabalhar. Em março de 2005, ela iniciou sua trajetória na ED, realizando o sonho de atuar em sala de aula.

A primeira professora a trabalhar com Débora na ED foi Sandra Nicolussi. A ela Débora dedicou o livro, tornando-a personagem principal de suas histórias. Juntas trabalharam, durante três anos, com crianças de 3 a 4 anos.

Sandra conta que, no início, a amiga queria explicar aos alunos o que era síndrome de Down, o que foi desnecessário. “As crianças não fazem perguntas. Elas não têm preconceito, os adultos é que têm. Os alunos só queriam aproveitar aqueles momentos com a professora Débora.

Débora, no entanto, não desistiu de ter uma atuação ativa na escola em relação à síndrome. O tema sempre foi explicado nas salas de aula e hoje uma geração inteira de alunos passou pela convivência com a professora e aprendeu na prática sobre a síndrome e a inclusão.

Desde que ingressou na Escola Doméstica, Débora Seabra conta com a orientação da psicopedagoga Dulciana Carvalho. O encontro semanal serve como espaço de reflexão, esclarecimento e discussão.

A parceria constituiu-se num dos alicerces da atuação de Débora como professora. “Iniciamos o trabalho para ajudá-la a ser uma boa profissional, na perspectiva de que, quanto mais for trabalhada, melhor será seu desempenho em sala. Ela traz para a orientação pedagógica tudo que sente e vivencia.

O desafio inicial era situar Débora dentro do ambiente de sala de aula, para que ela estivesse o tempo todo ciente do que estava se passando e tivesse uma participação efetiva. Outra dificuldade é que as professoras auxiliares não tinham acesso ao plano de aulas. Débora mudou isso.

O material é utilizado como principal subsídio para os encontros com a orientadora pedagógica. Juntas, discutem o plano de aulas, repassam os temas e as lições previstas e debatem as formas como Débora pode trabalhar os conteúdos.

A evolução dela pelas turmas, passando a atuar com alunos mais velhos, foi uma prova de confiança da equipe. “A escola acolheu-a, abraçou e acreditou na proposta. Deu-lhe o espaço para atuação e a responsabilidade como professora”, diz Dulciana.

Além da paixão por ensinar, Débora Seabra foi criada em um ambiente imerso em arte e cultura, e tem o teatro como uma de suas atividades preferidas. A experiência como escritora também a tocou. Juntamente com Dulciana Carvalho, ela organiza o projeto de um segundo livro.

Desta vez, um relato de sua experiência pedagógica. A intenção é que a obra seja escrita a várias mãos, com a colaboração de pessoas que trabalharam com a educadora. “Pensamos em uma coletânea de textos de didática voltados para professores e outros profissionais, partindo da rica experiência de -Débora”, explica Dulciana.

Com os pais, Débora rodou o mundo. Adora concertos e óperas. Conheceu cidades como Paris, onde assistiu à sua primeira ópera, Carmen, de Bizet, e Berlim, capital que lhe apresentou a Filarmônica, além de Barcelona e Praga. Eclética no gosto musical, aprecia de ópera a sertanejo, passando ainda por Beatles e MPB.

Seus olhos se acendem e a animação toma conta quando fala de sua experiência nos palcos e dos laços de amizade criados com as pessoas que frequentavam o Centro Experimental de Formação e Pesquisa Teatral.

Lá, entre 2008 e 2010, Débora cursou oficinas e teve aulas de expressão corporal, voz e interpretação. O objetivo inicial era dar-lhe mais subsídios para a atuação em sala de aula, mas o teatro arrebatou-a completamente.

Em 2010, veio o fechamento do Centro. Revoltada com o fato, Débora mobiliza  a partir daí campanhas pelo Twitter e pelo Facebook pedindo apoio para a reabertura do espaço pelo governo. Mais de uma vez interpelou a atual governadora do Rio Grande do Norte, Rosalba Ciarlini, cobrando essa medida e ações pela cultura potiguar. A reabertura não veio, mas tampouco Débora desistiu de lutar.

Entre os sonhos a realizar está o de construir a própria família. “A verdadeira inclusão começa na família. O apoio dos pais é fundamental”, reforça o pai, Robério.

“Eu não sabia que minha filha ia falar, que ia ter desejos e vontades, não sabia que ela ia ser professora, que ia escrever um livro. Débora nos surpreendeu a cada dia. Todo o amor e a atenção que demos a ela nos foram devolvidos infinitamente em alegrias ou conquistas”, completa Margarida Seabra.

O tom da delicadeza
Débora Conta Histórias, Alfaguara, selo infantojuvenil, Editora Objetiva, é a concretização de uma jornada. Escrita às escondidas dos pais durante o ano de 2010, com o objetivo de ser um presente natalino, a versão escrita em grafite e depois digitada e encadernada para os familiares tocou 
a todos por 
sua delicadeza.

Ao longo de suas 32 páginas, o leitor acompanha sob o olhar da personagem Sandra – homenagem à primeira professora a quem Débora auxiliou na Escola Doméstica – questões vivenciadas pelos animais de uma fazenda.

“Eu sei que todo mundo é diferente, mas que por isso mesmo todos merecem respeito. Fiz a história com animais porque, assim como nós, eles também sofrem e as crianças entendem isso”, conta Débora. De uma forma pura e sutil, ela fala de temas como a diferença, o preconceito, a rejeição, o respeito e a inclusão.

Após tentativas de Margarida Seabra 
de publicar as fábulas criadas pela filha, o material chegou às mãos do dono da Objetiva, Roberto Feith, que se sensibilizou com a força e a simplicidade das histórias contadas por Débora. Elas “não só emocionam, mas também expressam sua trajetória e seu modo de viver”, reforça a editora da Alfaguara, Daniela Duarte.

O livro foi lançado no dia 5 de setembro, em Natal, com uma grande sessão de autógrafos e a presença do escritor João Ubaldo Ribeiro, imortal da Academia Brasileira de Letras, que prefaciou a obra.

Entre as histórias contadas por Débora, conhecemos um pato que era discriminado por não querer namorar patas, mas sim outros patos, um pássaro de asa quebrada que é deixado para trás pelo bando, que depois se envergonha de sua atitude e voa mais devagar para que ele possa acompanhá-lo e a amizade possível entre um cachorro e um papagaio. Todas elas situações que tiveram mote em alguma vivência de Débora.

O livro tem ilustrações da talentosa Bruna Assis Brasil. O resultado é uma obra colorida, cheia de emoção e de belas histórias. Segundo a editora, além das livrarias, o livro será divulgado junto a várias entidades, governamentais ou não, que em alguma instância estejam engajadas na defesa e na melhoria de vida dos portadores de deficiência.