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Pendurar as chuteiras

Ao fim de seu segundo e último mandato como prefeito de São Paulo, em 1988, Jânio Quadros respondeu à especulação em torno de seu futuro eleitoral com uma atitude à altura da excentricidade pela qual ficou conhecido. Mandou pendurar na porta de seu gabinete um par de chuteiras. O recado era claro: desistia da carreira política.


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A encenação de Jânio ilustra como termos e expressões outrora restritos ao universo do futebol entranharam-se no cotidiano dos brasileiros. Se, originalmente, a expressão “pendurar as chuteiras” era usada para referir-se aos jogadores que encerravam suas atividades no futebol, com a popularização e o enraizamento cultural do esporte passou a ser sinônimo de desistência e aposentadoria em diferentes contextos.

O “futebolês”, ou a terminologia utilizada no meio futebolístico por jogadores, técnicos, imprensa e torcedores, trouxe inúmeras contribuições para a linguagem coloquial no Brasil. Originou neologismos e expressões como “tirar o time de campo”, “encher a bola”, “jogar para o time”, “marcar contra” e “jogar limpo”, entre outros. Para os falantes do português-brasileiro, fica claro, por exemplo, que algo “aos 45 do segundo -tempo” é de última hora, que se “a marcação está cerrada” é porque a pressão é grande, e que -alguém que “só pisa na bola” não é digno de confiança.

“A prática globalizada do futebol determinou o surgimento de uma variante linguística, dotada de vocabulário particular e que se incorpora em todas as camadas da população. O futebol ocupa um espaço de destaque no discurso da vida cotidiana, mesmo para aqueles que não demonstram o menor interesse pela rodada da semana”, aponta João Machado de Queiroz na tese de doutorado Vocabulário do Futebol na Mídia Impressa: O Glossário da Bola, realizada pela Unesp-Assis.

Muitas das inovações linguísticas surgiram a fim de designar eventos que aconteciam dentro de campo e que não encontravam respaldo nos dicionários. Foi o caso do verbo “pipocar”, uma analogia ao desempenho de um jogador que evita o confronto direto com algum adversário para não se machucar, pulando feito milho na panela.

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“Esse termo já está incorporado à nossa linguagem coloquial. Ouvem-se fora do contexto futebolístico frases como ‘ele não responde a nenhuma pergunta, está sempre pipocando’. A linguagem do futebol sofre todos os fenômenos linguísticos do idioma comum e, da mesma forma, pode servir de expressão criativa em qualquer narrativa”, explica Luiz Cesar Saraiva Feijó, professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autor dos livros Dicionário Futebolês – Português (Ed. Francisco Alves/Ed. Lance, 2006) e Futebol Falado: A dramática linguagem figurada do futebol (Sociedade Brasileira de Língua e Literatura, 2010).

A própria bola, protagonista do esporte, recebeu as mais variadas nomenclaturas (pelota, redonda, maricota, belezura, meu bem, menina e gorduchinha, entre outras), revelando seu lugar de destaque e afetividade na vida do povo. “Costumamos nomear as coisas a partir da importância que damos a elas e da relevância que elas têm ou adquirem em nosso cotidiano. Alguns desses itens podem ganhar uma multiplicidade de representações linguísticas, a fim de caracterizar diferentes contextos em que precisam ser representados”, explica José Carlos Marques, professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp-Bauru e organizador do livro Futebol, Comunicação e Cultura (Intercom, 2012), ao lado de Jefferson Oliveira Goulart.

Com o objetivo de catalogar esse vocabulário, o Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre o Futebol e Modalidades Lúdicas (Ludens) da USP está elaborando o Dicionário de Futebolês, que estará disponível para consulta online por volta de maio. O glossário será dividido em duas partes: a primeira, bilíngue (português-inglês), com fraseologias atuais do esporte, e a segunda, apenas em português, com termos históricos.

“O objetivo é que o dicionário possa facilitar a compreensão dos menos familiarizados com o futebol, ajudar torcedores e imprensa durante a Copa do Mundo e auxiliar as pesquisas acadêmicas sobre o tema”, explica Sabrina Matuda, pesquisadora responsável pelo projeto ao lado de Tiago Rosa Machado. O termo “fazer um gol”, por exemplo, vem acompanhado de uma amostra de uso, equivalentes em inglês e uma breve explicação cultural e histórica.

Guerra e erotismo
Além dos neologismos, a linguagem do futebol é repleta de sentidos figurados, com destaque para a guerra e o erotismo. Segundo Marques, o jogo de futebol, assim como todas as modalidades esportivas de competição, traz em si um componente cristalizado em torno do conceito do agón – termo grego que designava o local dos jogos de luta e, por extensão, os combates físicos entre dois oponentes. “Não é de se estranhar, portanto, que inúmeros termos belicistas estejam presentes no vocabulário esportivo, especialmente no futebol, como são os casos de artilheiro, matar a jogada, capitão da equipe, comandante, fuzilar o goleiro e mandar uma bomba contra o gol.”

A influência do universo bélico também é perceptível em outras línguas. “Na França, Robert Galisson, autor de Recherches de Lexicologie Descriptive: Le banalisation lexicale, afirma que a violência está presente em mais de 800 vocábulos e expressões”, diz Feijó. Sabrina aponta exemplos na língua inglesa. “Existem mais de 40 formas de dizer ‘fazer um gol’ em inglês e todas elas utilizam verbos que remetem à ação de violência, como explodir, martelar, pregar.”

O erotismo, por sua vez, aparece na linguagem esportiva por meio da nomenclatura de jogadas e situações que metaforizam o ato sexual ou a conquista da fêmea. “Daí a presença de expressões como ‘meteu 3 a zero’, ‘véu da noiva’ (para as redes do gol), ‘enfiou a bola entre as pernas do zagueiro’, entre outras”, diz Marques. Para Feijó, as relações eróticas aparecem na tentativa de se verbalizar uma cena de intimidade, já que o objetivo do jogo é adentrar a bola no gol adversário.

“O sociólogo Antônio Jorge Gonçalves dizia que a bola, no futebol, assume o significado do sexo feminino, ou seja, é o objeto em que fica implícito o desafio da conquista e do controle por parte dos jogadores”, diz. Logo, não é de se estranhar que o bom jogador seja aquele que tem intimidade com a bola e que esta tenha recebido tantos apelidos femininos.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental