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Instrumento Mayuri, originário da Índia
Originário da Índia, instrumento Mayuri é uma das peças do Museu Virtual de Instrumentos Musicais

De um instrumento de madeira esculpido em formato de pavão (com direito, inclusive, a plumas), emana um som que evoca as paisagens e tradições da Índia. Trata-se do mayuri, instrumento musical utilizado para acompanhar canções urbanas, populares e religiosas no país. Na mitologia hindu, o pavão é associado a Sarasvatî, deusa das artes e da música, além de ser uma metáfora recorrente na poesia local para o ato de cortejar. Por esse motivo, tornou-se bastante popular nas cortes indianas durante o século XIX, quando era utilizado para o acompanhamento de rituais religiosos.


Outro clique e o internauta é transportado de cenário. Ao som do yueqin, a China parece ganhar contornos. O instrumento de cordas tradicional do país, frequentemente utilizado em conjuntos de ópera de Pequim, foi de grande popularidade durante a dinastia Tang (618-907 d.C.). Porém, após esse momento de apogeu, caiu em desuso, sobrevivendo marginalmente até a segunda metade do século XX, quando foi modificado e passou a fazer parte dos modernos conjuntos chineses de concerto.

Estas e muitas outras histórias sobre os instrumentos musicais de diversas culturas compõem o Museu Virtual de Instrumentos Musicais (MVIM), no ar desde o fim de 2014 e fruto de uma parceria entre o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dedicado a pesquisadores, estudantes, professores e amantes da música, o museu traz um catálogo virtual no qual estão reunidas informações detalhadas, fotografias de variados ângulos, áudios e vídeos referentes a 80 instrumentos.

“Pensamos, primeiro, em fazer um museu real com uma vertente virtual a partir do acervo do Museu Instrumental Delgado de Carvalho, desativado desde 2008”, conta Adriana Ballesté, coordenadora do MVIM.

A instituição, única do gênero no Brasil, foi fundada no fim do século XIX pelo compositor e maestro Leopoldo Miguez (1850-1902), primeiro diretor do Instituto Nacional de Música – nome original da atual Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Mas vimos que o desafio de fazer um museu ‘real’ não seria viável naquele momento e, por outro lado, percebemos que as primeiras etapas para reativar o museu poderiam já ser executadas.” Assim era concebido o projeto do MVIM.

Totalmente interativa, a plataforma permite ao visitante navegar por meio das quatro classificações básicas em que estão divididos os instrumentos: aerofones (instrumentos de “ar”, em que uma coluna de ar vibra produzindo o som), cordofones (instrumentos de cordas, em que a vibração das cordas produz o som), idiofones (instrumentos rígidos que produzem o som pela vibração do seu próprio corpo), e membranofones (instrumentos de membranas, nos quais o som é produzido pela contração e descontração de uma membrana, como o tambor).

As informações apresentadas sobre as peças são fruto de uma pesquisa coordenada por Adriana e desenvolvida pela bolsista da Faperj, Alea de Almeida, e incluem descrição do instrumento, como traços de sua constituição física, acessórios, elementos decorativos e elementos técnicos; informações históricas e curiosidades; informações do exemplar (tais como data e fabricante); dimensões; nomes adicionais e bibliografia.

“Poucos instrumentos do acervo são tipicamente da cultura brasileira, pois o acervo do Museu Delgado de Carvalho não foi criado com essa finalidade. Essa é uma lacuna que pretendemos, num futuro próximo, preencher. Mas podemos citar o reco-reco, o triângulo, a trompa indígena”, diz Adriana.

Em meio ao acervo, há também peças raras como um basset horn (instrumento da família do clarinete), de autoria da reconhecida fabricante alemã Griessling & Schlott, uma banduvitarra (instrumento híbrido formado por um corpo de bandurra e por um braço mais longo similar ao da guitarra portuguesa), fabricada no Brasil por João da Silva Braga, e um meio-violino, de autoria não identificada, que foi o primeiro de Leopoldo Miguez.

Outra preocupação da instituição é estabelecer um canal direto de diálogo com as escolas brasileiras e, tendo em vista a obrigatoriedade do ensino de música, ampliar as possibilidades pedagógicas da plataforma. Para isso, a equipe do museu já está planejando a próxima etapa do projeto: a criação de uma área educativa com jogos e atividades educacionais. “Acho que o catálogo já pode ajudar muito os professores em suas aulas e os alunos em suas pesquisas. Mas fizemos uma pesquisa com professores e muitas sugestões deverão ser incorporadas ao museu virtual”, conta Adriana.