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Há atualmente 589 mestrados profissionais em curso
Segundo dados da Capes, há 589 mestrados profissionais em curso no Brasil.

Pesquisar com todo o rigor acadêmico, tendo como campo de aplicação obrigatoriamente a sala de aula: esta é a proposta dos programas de mestrado profissional para docentes, um tipo de formação que vem recebendo incentivos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).


Com foco em professores atuantes, os cursos concentram as aulas em um ou dois dias da semana, possibilitando que o professor concilie mais facilmente o estudo com o trabalho. Segundo dados da Capes, há atualmente 589 mestrados profissionais em curso no Brasil.“Desde que terminei a graduação, em 2010, queria fazer mestrado, mas era difícil, afinal, tenho dois empregos.

Entrei nesse porque as aulas eram aos sábados”, conta a professora de Matemática da rede estadual de São Paulo Marceli Iwai, que está terminando o mestrado profissional em Matemática pela Universidade Federal do ABC.

Ainda que não tenha concluído o programa, Marceli diz que ele já está contribuindo para a sua prática docente. “Ajudou porque me aprofundei em muitos conteúdos e vi formas de adaptá-lo melhor. A gente discute, vê outras opções, novas maneiras de ensinar, coisas que sozinha, na escola, não eram possíveis.”

Apesar de não ser exatamente uma novidade, apenas nos últimos anos os mestrados profissionais em todas as áreas do conhecimento vêm ganhando visibilidade.

A categoria está presente desde a elaboração das primeiras diretrizes de pós-graduação feitas pelo governo, nos anos de 1960. Mas ele só começou a ser oferecido de fato em 1999, com programas no Sudeste para bacharéis em Odontologia.

Segundo uma portaria da Capes, editada em 2009, duas das principais diferenças entre mestrado, acadêmico e profissional são que o trabalho final pode ser um produto (não precisa ser obrigatoriamente uma dissertação), e os professores do mestrado profissional não precisam necessariamente ser titulados – podem ser profissionais com comprovado destaque no mercado de trabalho. A titulação que recebem os alunos de ambos, porém, tem exatamente o mesmo valor, são todos “mestres”.

Na década passada, com os números de mestrados profissionais em diversos campos crescendo, o governo federal lançou uma iniciativa para articular a formação nesse nível para professores da Educação Básica.

São cursos semipresenciais organizados pela Universidade Aberta do Brasil, chamados mestrados profissionais de ensino “em rede”. Cada programa tem uma “universidade âncora”, responsável por elaborar o projeto pedagógico, o currículo, definir carga horária. Mas outras universidades podem associar-se e estabelecer polos em seus campi.

O primeiro deles foi para docentes de Matemática, criado em 2010 e chamado de ProfMat. Coordenado pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), hoje ele está presente nas 27 unidades federativas e obteve nota 5 na avaliação trienal da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior em 2013.

A evasão, um dos maiores desafios do ensino a distância e das pós-graduações de forma geral, tem ficado em 10%, o que é considerado baixo.

Puxados pelo sucesso do ProfMat, outras áreas de conhecimento foram lançando seus programas. Atualmente existe o ProfLetras, ProfHistória, ProfArtes e ProFis (para docentes de Física), além do em administração pública (ProfiAp), destinado à formação de gestores.

Em conjunto, os programas têm hoje 7.967 matriculados e já formaram 1.926 mestres. Os professores da rede pública que ingressam nos programas recebem automaticamente uma bolsa durante 24 meses e, em contrapartida, assinam um documento comprometendo-se a permanecer por no mínimo cinco anos no ensino público.

Qualidade do ensino

A professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Marieta de Moraes Ferreira, coordenadora nacional do recém-criado ProfHistória, conta que 12 universidades e 95 professores se associaram para formar a primeira turma do mestrado profissional em ensino de História. Nessa primeira seleção, entraram 150 alunos, todos professores da rede pública.

A intenção é dobrar a oferta para o próximo ano, expandindo o curso em parceria com outras universidades, de vários estados.
Para ela, o principal valor do mestrado profissional para docentes é o fato de ele ser uma iniciativa em prol do Ensino Básico.

“Muitos dizem que o ensino no Brasil é péssimo, que a educação vai mal, especialmente no Ensino Médio. Tendo em vista esse cenário, há um entendimento na sociedade sobre a necessidade de melhor formação do professor”, afirmou.

Para Marieta, além de completar o que o docente aprendeu nas licenciaturas – muitas vezes “insuficiente” – é uma forma de manter o professor em processo constante de aprendizado, algo necessário para profissionais de todas as áreas.

Por ser um estudo em nível stricto sensu, ele é muito mais completo e profundo do que outros tipos de cursos, defende a professora da UFRJ.

“É muito comum serem oferecidas “atualizações”, cursos de 30 horas mais ou menos. O que também tem sua utilidade, claro, mas você estuda um tema só. O mestrado profissional são dois anos, você faz pesquisa, e sempre tem o foco no ensino, na aplicação do conhecimento em sala de aula”, explica.

Portanto, ela defende que esta é hoje a melhor opção de estudos para um professor do Ensino Básico – melhor até que um mestrado acadêmico.

“Na minha aula do mestrado profissional estou discutindo sobre memória. A gente lê e analisa textos teóricos, mas sempre se pergunta como posso trabalhar aquela questão com os alunos do Ensino Básico. Muda a abordagem”, diz.

Apesar de ser um curso que exija bastante dedicação, os docentes têm conseguido acompanhar o ritmo. “Eles arrumam um tempo, uma forma de se dedicar. Para mim, que já dou aulas há bastante tempo no mestrado acadêmico, tem sido uma grata surpresa ver o nível das discussões, do interesse, do aproveitamento dos professores. Eles se empenham, não faltam e são os mais ativos”, disse Marieta.

Além de conseguir uma bolsa e um título de mestre ao final do curso, o professor também conquista uma forma de valorização e socialização que ele não encontra no dia a dia da escola, defende a coordenadora do ProfHistória.

“A gente percebe como eles ficam animados, cheios de iniciativas para aplicar, gostam de discutir com os colegas, estão sempre com ideias para adaptar boas práticas”, afirmou.

Outros programas

Há ainda outras iniciativas, desvinculadas da UAB. Como em um mestrado acadêmico, as próprias universidades podem criar seus programas e pedir aprovação da Capes.

Universidade de Brasília (UnB), as universidades federais do Rio de Janeiro (UFRJ), de Minas Gerais (UFMG), de Uberlândia (UFU) e do Rio Grande do Norte (UFRN), Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC) são algumas das que já montaram seus próprios programas voltados a professores do Ensino Básico.

O físico Nestor Cortez Saavedra Filho, coordenador do mestrado profissional em Formação Científica da UTFPR, voltado para educadores de ciências no Ensino Fundamental e de Física, Química e Biologia no Médio, acredita que o curso com viés profissional reduz o distanciamento entre a produção acadêmica e a prática.

“Tínhamos 30 anos de programas stricto sensu, só que o fruto das pesquisas em ensino e educação não chegava à sala de aula. Se você for ao banco de teses e dissertações vai encontrar coisas interessantíssimas sobre, por exemplo, ensino de botânica. Mas você vai para a escola e a botânica é ensinada como há 30 anos, de forma chatíssima”, afirmou.

Saavedra Filho reconhece que o distanciamento entre academia e vida profissional é comum a todas as áreas, mas diz que a situação é agravada na educação pelas condições de trabalho quase sempre precárias.

“A pesquisa não chega, a aula continua igual sempre foi. Mas para cursar esse mestrado profissional, você tem de ser professor atuando em sala de aula e o laboratório é a sua sala de aula. É um esforço para garantir que esses dois anos de pesquisa específica tenham impacto.”

E pesquisar pode sim melhorar a qualidade do ensino na outra ponta, na aula do Ensino Básico, garante o coordenador. “Durante a licenciatura, todos os professores têm alguma disciplina de metodologia, mas não fazem a conexão com a prática. Se você perguntar por que ele conduz a aula de certo jeito, ele vai responder ‘tive um professor excelente, me inspiro nele’. Quase nunca a prática é ancorada em pesquisa, na literatura sobre o tema”, disse.

Resistências

A criação dos mestrados profissionais teve de vencer uma série de resistências da academia contra a modalidade. Em 2000 a Capes já havia formado uma comissão para propor um modelo de mestrado profissional que atendesse aos professores de Ensino Fundamental e Médio.

A expectativa era que surgissem propostas de programas de diversos campos por iniciativa das universidades, o que não ocorreu.

Após três anos, havia apenas cinco programas, todos em ensino de Ciências e Matemática.João Lima Sant’Anna Neto, professor do Departamento de Geografia da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) em Presidente Prudente, foi coordenador da área de geografia da Capes de 2008 a 2014 e lembra-se da necessidade de uma campanha de convencimento entre os acadêmicos.

“A comunidade acadêmica era contra, dizia que seria um mestrado de segunda classe, que quem desejasse o mestrado que fizesse o acadêmico”, contou. Ele assegura, porém, que essa questão já foi superada.

“Hoje há um entendimento de que ele tem outra lógica, que é para quem está no mercado, mas quer voltar à academia sem abrir mão do trabalho”, afirma. O ProfGeo ainda está em fase de elaboração, com previsão para formar as primeiras turmas no ano que vem. Segundo ele, há cerca de dez universidades no Brasil que se interessam pelo ensino de Geografia e devem aderir ao ProfGeo.

O mestrado profissional, para Sant’Anna Neto, vai enriquecer o ambiente acadêmico. “Como ele é pensado para alguém que se formou há alguns anos, tem já alguma experiência prática e quer entrar novamente na academia, há uma troca, pois ele está trazendo sua experiência. Cria-se um cenário muito rico”, afirmou.

Delaine Cafiero, professora do ProfLetras da UFMG, concorda com a visão de que os docentes do Ensino Básico têm muito a acrescentar às universidades. “Eles aprendem a lidar com metodologias, conhecem novas teorias e, em troca, trazem suas perguntas reais de como concretizar o ensino. É um desafio para a universidade, que está aprendendo também”, disse.

Ela, porém, detectou ainda outra resistência que precisa ser vencida para que o modelo deslanche: as secretarias de educação. “Temos muitos professores de cidades próximas a Belo Horizonte. Há secretários municipais dizendo que não é do interesse deles que seus professores façam o mestrado – e dificultam que eles sejam liberados para vir nos dias de aula na universidade. Há exceções, de secretariais que dispensam, que ajudam, mas de forma geral o que existe é um esforço individual do professor”, afirmou.

Em sua avaliação, para que os mestrados profissionais se tornem uma política pública de melhora do ensino, eles precisam também ganhar escala. E não faltarão interessados. “Na primeira turma, a nota de corte na prova de seleção foi 95. Nunca tivemos uma nota tão alta em um mestrado acadêmico”, relata.