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Statup de educacao

Organizações menores, mais flexíveis e ágeis do que as empresas tradicionais, as startups estão apostando suas fichas na integração entre educação e tecnologia no Brasil. Tendência mundial há alguns anos, elas miram a melhora do ensino no País, e, claro, ganhar dinheiro em um mercado de proporções gigantes. Entre as inovações surgidas a partir desse novo modelo, estão sites de videoaulas capazes de atingir milhões de alunos, materiais pedagógicos digitais e até mesmo um quiz para celular com conteúdos do Enem.


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E-books: ainda é cedo?

Em tese, qualquer empresa iniciante pode ser chamada de startup. Sua definição mais atual, porém, denomina um grupo de pessoas à procura de um modelo de negócios em escala, trabalhando em condições de extrema incerteza, em que não há garantias de que o negócio ou produto desenvolvido dará certo ou se tornará sustentável. No entanto, o dinamismo e a complexidade do mundo contemporâneo demandam soluções mais rápidas para seus problemas, criando um cenário favorável para o desenvolvimento desse novo tipo de empresa.

“No mundo das startups, é possível prototipar soluções para problemas reais. O objetivo da startup não é responder perguntas, como é o caso da ciência, mas sim observar os problemas locais e dar a eles soluções globais”, explica Luciano Meira, pesquisador das áreas de educação e tecnologia e pesquisador associado da startup Joystreet.

A área educacional tornou-se a menina dos olhos das startups e de seus investidores há pelo menos cinco anos, quando o setor apresentou uma expansão significativa de investimentos. Apenas nos Estados Unidos, em 2012, foram injetados 600 milhões de dólares – um valor cinco vezes maior do que em 2002, quando os investimentos atingiram a casa dos 150 milhões. Entre as principais tendências estão a digitalização de materiais didáticos, o oferecimento de cursos online e o desenvolvimento de melhores formas de avaliar o desempenho e o aprendizado dos estudantes.

Para Meira, o mercado digital tende a emergir com força no Brasil e no mundo. Nos últimos dois anos, os objetos digitais nativos, ou seja, desenvolvidos especialmente para o ambiente virtual e tecnológico, cresceu 12,5%. Ao mesmo tempo, houve uma queda de 10% nos materiais didáticos puramente analógicos. “É uma mudança importante e mundial, que está sendo observada pelos investidores”, conta.

Na visão de Gustavo Caetano, presidente da Associação Brasileira de Startups, todos os grandes mercados, inclusive o educacional, serão atacados pelas empresas de inovação. “Nos Estados Unidos está havendo uma modificação grande das universidades tradicionais para as virtuais”, exemplifica Caetano, citando os Massive Open Online Courses (Moocs), cursos online oferecidos por grandes universidades, capazes de atingir milhões de alunos no mundo todo. “No Brasil ainda estamos na primeira etapa, que é levar a educação da sala de aula para a internet”, explica.

Para os sócios-fundadores da startup de conteúdo pedagógico e educacional Evobooks, Carlos Grieco e Felipe Rezende, o barateamento da tecnologia como um todo e a introdução dos dispositivos móveis nas escolas transformaram a educação em um ambiente propício para o florescimento de novos negócios. O setor, na visão deles, foi um dos últimos a permitir a entrada da tecnologia e da inovação. Hoje, os materiais didáticos digitais produzidos pela Evobooks estão presentes em escolas como o Ginásio Experimental de Novas Tecnologias Educacionais (Gente), pertencente à rede pública municipal do Rio de Janeiro.

Nem tudo, porém, são flores. Assim como empresas iniciantes em qualquer setor, as startups de educação enfrentam dificuldades e poucas conseguem sobreviver e se sobressaírem no mercado competitivo. “O problema das startups de educação é o mesmo de qualquer outra. Quando você está em uma fase de ideia ainda incipiente, é preciso convencer que sua empresa é a certa para executar o projeto”, explica Samir Iásbeck, fundador do quiz educacional Qrânio.

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Mas de que forma as startups podem contribuir para a melhoria da qualidade da educação no País? “O risco é a gente começar a inovar e hackear a escola”, ri Meira. Ele explica que existem, há décadas, editoras e instituições já estabelecidas no mercado educacional que conseguem prover soluções para alguns problemas, ainda que essas soluções sejam, na visão de Meira, muitas vezes conservadoras.

Aumentar o acesso à educação também pode ser uma das contribuições das startups para o mercado educacional brasileiro. “Hoje é possível fazer, em casa, cursos em universidades como a USP ou o MIT”, conta Caetano. Outra contribuição pode ser o desenvolvimento de modelos de gamificação e de educação adaptativa. Em Minas Gerais, também foi criado um programa similar de financiamento.

Para prosperar, porém, uma startup de educação precisa, em primeiro lugar, partir de um problema real e tirar sua boa ideia do papel, afirma o criador do site de vídeoaulas Veduca, Carlos Souza. Além disso, é importante que a empresa trabalhe com um grupo de pessoas dotadas de diferentes habilidades e pontos de vista.

Para sair do papel, as startups podem receber ajuda de um “investidor-anjo”, responsável por injetar dinheiro em uma fase inicial da empresa e fornecer uma espécie de know-how de negócios, e de aceleradoras, organizações que dão apoio, dinheiro e, literalmente, aceleram a startup. Por fim, há também os fundos de investimento, que entram no jogo quando as empresas de inovação iniciantes já estão em um patamar melhor.

É possível também receber financiamento estatal para inovar. Em 2013, foi criado o Startup Brasil, programa criado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação para apoiar empresas nascentes de base tecnológica. Entre suas metas, está alavancar ao menos 40 startups no primeiro ano de funcionamento (75% delas nacionais) e colocar o mesmo número de produtos ou serviços inovadores no mercado. O investimento em cada empresa pode chegar a 200 mil reais.

*Publicada originalmente em Carta na Escola