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Diário de Anne Frank
Os alunos do 7º ano de uma escola na zona rural do Rio Grande do Sul estudaram os diários de Anne Frank

Escondida da perseguição nazista em um anexo secreto de uma fábrica holandesa, a alemã Anne Frank, então com 13 anos, profetizava:


“Cerca de dez anos depois do fim da guerra, vai parecer esquisito quando se disser como nós, judeus, vivemos, comemos e conversamos aqui. (…) Não quero ter vivido inutilmente, como a maioria das pessoas. Quero ser de utilidade e alegria para as pessoas que vivem à minha volta e para as que não me conhecem”.

A garota, que viria a falecer dois anos depois em um campo de concentração, não poderia imaginar o alcance de suas palavras.

Quando os alunos do 7º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Pedro Jorge Schmidt, localizada na rural Estrela, no Rio Grande do Sul, estudavam o gênero confessional nas aulas de Língua Portuguesa, lá estava no material didático um pequeno fragmento do Diário de Anne Frank.

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“Após a leitura do trecho, afirmei que a história narrada era real, que Anne havia existido, assim como as situações que ela contava. Essa informação foi uma grande surpresa para os alunos”, conta Gisele da Gama Melo, psicopedagoga e professora de Língua Portuguesa na escola.

Por terem a mesma idade da autora e, muitos, de origem alemã, os alunos se identificaram de imediato com a menina e o contexto de seus relatos, a Segunda Guerra Mundial.

“Percebi que eles tinham um conhecimento um tanto vago sobre o que havia sido o Holocausto, mas que estavam interessados em saber mais. Muitos alunos da escola são de origem germânica, cujos avós vieram para o Brasil em busca de trabalho ou fugindo da guerra, da perseguição.”

Diante da curiosidade, Gisele procurou o diretor da escola, Fábio Luis Mallmann, e sugeriu a realização de um projeto interdisciplinar sobre o tema, que foi imediatamente aceito.

“Já vínhamos adotando algumas práticas com o objetivo de relacionar a escola com a comunidade rural em que está inserida. Queríamos formar alunos-pesquisadores, que soubessem se posicionar em diferentes contextos, na sociedade como um todo. Logo, o projeto do Holocausto surgiu como um passo importante”, conta Mallmann.

Anne Frank
O diário escrito por Anne Frank durante o Holocausto tornou-se objeto de estudo dos alunos no Brasil

A primeira sugestão de Gisele foi a leitura na íntegra do Diário de Anne Frank, livro de mais de 300 páginas. “Não foi impossível como alguns colegas acharam, muito pelo contrário. Os alunos estavam prontos, cheios de vontade de saber mais sobre aquela garotinha que passou por várias situações difíceis e ainda escrevia”, diz.

Obras como O Menino do Pijama Listrado, A Menina que Roubava Livros, O Colecionador de Lágrimas e O Violinista de Auschwitz também integraram as leituras e discussões.

“Vimos, aos poucos, a literatura cumprir o seu papel de estimular o pensar, transformar, criticar, relacionar situações e ampliar a visão de mundo”, conta a professora.

Além da disciplina de Língua Portuguesa, outras áreas do conhecimento foram envolvidas no projeto. Em História, os alunos puderam conhecer mais profundamente a trajetória do partido nazista alemão, o contexto da Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, entre outros aspectos.

Em Ciências, vieram à tona assuntos tais como as pesquisas sobre transplantes de órgãos, genética e a descoberta de novos medicamentos durante a guerra.

A produção audiovisual dedicada a retratar o momento histórico também foi apresentada aos alunos, que assistiram aos filmes Escritores da Liberdade e A Vida É Bela.

“Queria mostrar como a violência não é apenas produzida por seus patrocinadores, mas também por aqueles que se calam diante dela”, explica Gisele. Assim, o debate foi ampliado para a questão dos direitos humanos, preconceitos etnorraciais e sobre as influências dos valores daquela época nos dias atuais.

“O que mais observei foi o amadurecimento da turma ao fazer relações entre o projeto e notícias atuais sobre ataques neonazistas, crimes movidos por preconceitos de raça e gênero, entre outros.”

As famílias também foram convidadas a participar. Avós e bisavós relataram suas histórias, as dificuldades que passaram na Europa durante a guerra, a viagem até o Brasil, o início da colonização em solo brasileiro, momentos que constrangeram e oprimiram suas culturas, as diferenças de língua, costumes e a valorização de suas raízes.

Para fechar, uma surpresa. Em parceria com o Instituto Cultural Judaico Marc Chagall, associação sem fins lucrativos situada em Porto Alegre, a escola convidou os sobreviventes do Holocausto Johannes Melis, de 75 anos, Curtis Stanton, de 83, e Bernard Kats, de 77, para uma palestra.

“Ler os livros, assistir aos filmes, tudo teve seu valor, mas estar diante de pessoas que real-
mente viveram aqueles acontecimentos foi algo mágico”, conta Gisele.

O encontro, inicialmente programado para atender o público da escola, chamou a atenção da Secretaria de Educação do município, que estendeu o convite a todos os alunos da rede municipal de Estrela, reunindo mais de 500 pessoas. Além dos estudantes, pessoas da comunidade vieram assistir, contribuindo com relatos e histórias.

“Levar essas histórias reais para os alunos que já estavam com todo aquele repertório sobre o assunto foi, realmente, uma experiência transformadora. Imagine um salão lotado onde não se ouvia nenhum ruído. Todos com os olhos fixos nos palestrantes, muito emocionados”, relata Mallmann.

O intercâmbio de experiências promovido pelo encontro foi a parte favorita da estudante Maiara Werle, de 13 anos. “Foi muito interessante ouvir as histórias daqueles senhores sobre a Segunda Guerra Mundial, a perseguição que sofreram e como fugiram para o Brasil. Eu tinha uma noção vaga de como havia sido essa parte da história, mas o projeto me deu uma dimensão muito maior.”

De família alemã, Maira acredita que a iniciativa também foi importante para conhecer mais a fundo a história de seus antepassados e entrar em contato com a literatura e cinema voltados para esse triste episódio histórico.

Para Gisele, ver os alunos pedirem sugestões de outras leituras, fazer inferências entre elas, se posicionar no mundo com liberdade de opinião e capacidade de realizar críticas sociais construtivas fez valer todo o trabalho.

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*Publicado originalmente em Carta Fundamental 56