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Logo na primeira frase do primeiro capítulo do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, o leitor depara-se com o trecho: “Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro”. Ao passar o mouse pelo texto do livro disponível no site Machadodeassis.net, o leitor que não conhece a cidade do Rio de Janeiro pode descobrir que “Engenho Novo” é um bairro localizado na zona norte da cidade, inicialmente ocupado pelos jesuítas, “que nela instalaram três engenhos: o Engenho Velho, o de São Cristóvão e o Engenho Novo. Neste último, construíram uma capela dedicada a São Miguel e à Nossa Senhora da Conceição. No século XIX, foi aberta a Estrada de Ferro D. Pedro II (Central do Brasil), que passa pela estação do Engenho Novo”.


A coleção de referências, entre localidades, expressões e citações a outras obras, é fruto do trabalho de 12 anos da pesquisadora Marta de Senna, responsável pelas informações copiladas no site. Nele, o interessado poderá localizar também fatos históricos (como a Abolição da Escravidão, presente em livros como Esaú e Jacó e Memorial de Aires) ou identificar referências de fontes anônimas presentes nos contos e romances do autor carioca. “Temos de imaginar que o leitor que mora no Acre, por exemplo, pode não saber o que é a Rua do Ouvidor”, esclarece Marta. (Em tempo: a Rua do Ouvidor, no Centro do Rio, foi, no século XIX e XX, a mais movimentada rua comercial da cidade.)

Ex-professora universitária de Literatura Comparada e apaixonada pela obra machadiana, Marta sempre se impressionou com a quantidade de alusões histórico-literárias e citações presentes nos textos do autor. “Algumas eram fáceis de saber, como César e Napoleão ou Shakespeare. Mas, às vezes, ele falava de personagens não tão óbvios”, conta a pesquisadora-titular da Fundação Casa de Rui Barbosa. A inquietação levou à ideia de disponibilizar as referências para o leitor, inicialmente pensada para ser trabalhada em versão impressa. A ideia inicial logo evoluiu para um projeto em CD-ROM. Durante o trabalho, porém, Marta chegou à conclusão de que a compilação das referências nesse formato levaria ao engessamento do projeto. Assim nasceu o site MachadodeAssis.net, repositório de alusões em hipertexto, o que possibilita a criação de links com explicações sobre cada item adicionado, como descrito no começo da reportagem.

Com a ajuda de bolsistas da Fundação Casa de Rui Barbosa e de um técnico de informática, Marta construiu uma base de dados que contém, além das citações e alusões, a revista Machado de Assis em Linha, com estudos sobre a obra machadiana e romances e contos, que já caíram em domínio público, em hipertexto. A pesquisadora também incluiu no acervo expressões e palavras que Machado usou em suas obras, mas que não entendemos mais com o mesmo sentido e, por isso, não basta apenas consultar um dicionário para entender seu significado. Por exemplo, a palavra “gesto” pode ser interpretada, no texto machadiano, com o sentido de “fisionomia”. Já “cópia” não significava apenas uma reprodução, mas também era uma expressão que designava “grande quantidade”. “Sobretudo o aluno que precisa ler Machado de Assis, mas não conhece a palavra, isso pode se tornar um impedimento para a leitura”, explica Marta.

Nascido no Rio de Janeiro em 1839, Joaquim Maria Machado de Assis escreveu uma obra extensa, que abarca contos, romances, peças teatrais, poemas e crônicas. É, para muitos, o maior nome da literatura brasileira e foi fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. A pesquisadora destaca que todo escritor cita e faz muitas referências. Com um dos maiores autores da língua portuguesa não é diferente: “Não é que ele seja pior do que os outros, mas ele põe a serviço da sua ficção uma malha intertextual enorme, citando desde a Bíblia, que é uma narrativa fundadora de nossa cultura, até autores contemporâneos, como Gonçalves Dias”, analisa.

Em sala de aula, o site pode ser precioso para as aulas de Literatura, uma vez que o professor pode sugerir que o aluno tire dúvidas e leia os livros em hipertexto ou com a ajuda do banco de dados, ampliando o repertório do estudante. O site também é útil para pesquisadores ou interessados em geral. A professora imagina, por exemplo, que um falante de português do estado de Goa, da Índia, criado em uma tradição diferente da católica, mas que deseja ler as obras do escritor brasileiro, encontraria dificuldades em identificar trechos como “nem só de pão vive o homem”, presente em Iaiá Garcia. No caso, a expressão refere-se a um trecho da Bíblia – de longe o texto mais citado pelo autor em questão – presente no Evangelho de Mateus e Lucas. “Acho que é um trabalho generoso, cujo objetivo é tornar Machado de Assis mais acessível para o maior número de pessoas possível”.