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Malala
Mais jovem ganhadora do Nobel da Paz, Malala Yousafzai sofreu um atentado ao lutar pelo direito das meninas à escola

Pioneiro no estudo acadêmico da literatura infantil, o crítico e professor Peter Hunt, da Universidade Cardiff, no Reino Unido, diz em um de seus livros que a principal preocupação de quem analisa uma narrativa para crianças deve ser com “o que mantém a página virando, como o narrador conta sua história e como reconhecemos o que é importante para a narrativa”.


Aparentemente, esse tipo de reflexão esteve sempre presente no trabalho da jornalista Adriana Carranca enquanto ela escrevia Malala: A menina que queria ir para a escola (Companhia das Letrinhas).

Malala para Crianças
Para produzir o livro, jornalista Adriana Carranca visitou o Vale do Swat, terra natal de Malala

Na obra, a autora narra ao público infantil a trajetória da menina paquistanesa que quase dispensa apresentações ao público adulto. Hoje com 17 anos, Malala Yousafzai tornou-se a personalidade mais jovem a receber o Prêmio Nobel da Paz, por seu ativismo pelo direito à educação para meninas – o que pôs em risco a sua própria vida em 2012, quando sofreu um atentado promovido pelo grupo fundamentalista islâmico Talebã, no Vale do Swat, região de fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão.

Foi para o Vale do Swat que Adriana, habituada a escrever sobre conflitos para o jornal O Estado de S. Paulo, viajou logo depois do ataque, mesmo com o acesso fechado a jornalistas. Seu projeto, a princípio, era a produção de um livro-reportagem para adultos sobre a violência contra a mulher, tendo a história de Malala como a principal. A ideia começou a mudar quando a jornalista percebeu a quantidade e a qualidade dos elementos narrativos que poderiam despertar o interesse do público infantil.

“Eu já tinha ido até a fronteira, mas não para o Vale do Swat. Ao chegar ali, vi um lugar muito mágico, cercado por montanhas cobertas de gelo, habitado por um povo guerreiro. Lá eu descobri que o Swat era um principado e entrevistei seu príncipe. Descobri que a própria Malala vinha do grupo mais intelectual do vale, o Yousafzai, berço de vários filósofos, poetas e escritores, o que ajudava a explicar o fato de ela ser tão articulada para se expressar. Esses elementos eram reais, mas pareciam saídos de um conto de fadas e me fizeram pensar em escrever para crianças”, relata a escritora à Carta Educação.

O sentimento de Adriana intensificou-se durante a hospedagem na casa de seu tradutor, onde viviam oito crianças. A convivência com a família de etnia pashtun, a mesma etnia de Malala, foi essencial à apuração, pois tornou insuspeita a presença da jornalista no Vale do Swat e a colocou em contato com narrativas locais. “Como as crianças não tinham muita opção do que fazer dentro de casa, à noite, o avô contava diversas histórias ao redor de um fogaréu antes de elas dormirem. E, durante o dia, eu entrevistava colegas da Malala, seus primos, vizinhos e amiguinhas mais próximas. Fui até a escola, conversei com as meninas que estudavam com Malala, fui à casa dela, vi suas coisas e fui me encantando com aquela história, de uma criança, contada por crianças”, destaca a autora.

O que mantém a página virando
A celebrização de Malala durante e após seu tratamento médico chamou a atenção do mundo para o cotidiano das meninas e mulheres em países onde a vigência de uma interpretação da lei islâmica (Sharia) tira delas direitos básicos. No entanto, para crianças que vivem realidades diferentes daquela, o contexto de conflito que transformou uma estudante adolescente em alvo de um grupo fundamentalista talvez não ficasse tão claro, mesmo diante da contínua cobertura midiática. E um dos méritos do livro é justamente expor aquele cenário por meio de uma narrativa que prima pelos detalhes.

“Os adultos podem ter mais noções sobre a guerra no noroeste do Paquistão, entre o Exército e as forças pró-Talebã. Mas, quando as crianças escutam algo sobre Malala, elas não necessariamente sabem, para começar, onde fica o Paquistão ou mesmo o que é islamismo. A criança brasileira sabe o que é uma igreja, mas não sabe muitas vezes o que é uma mesquita. E esses detalhes trazidos pelo livro mostram que somos iguais nas nossas diferenças”, conta a jornalista.

Adriana pondera que as crianças têm cada vez mais acesso a notícias sobre o mundo todo pela internet e mais conhecimento sobre a existência de diferentes culturas. No Brasil, há ainda a convivência com imigrantes, expatriados e refugiados. Alerta, porém, que alguns padrões de comportamento são repetidos em histórias contadas às crianças sem qualquer tipo de contraponto. “Ainda contamos para elas a história da Cinderela, de que se a menina for boazinha e arrumar um bom marido, ela vai se realizar no casamento e viver feliz para sempre. Daí a importância de contar também a história dessa Cinderela, que não queria se casar, mas se realizar com os estudos, pela escola”, conclui.

Além disso, a autora recorda que não teve mais dúvida de que o livro infantil era o mais interessante quando começou a ler sobre as passagens de Alexandre, o Grande e do guerreiro mongol Gêngis Khan pelo Vale do Swat. “Vi o quanto esses acontecimentos históricos eram instigantes para as crianças e acabei deixando o projeto inicial na gaveta”, revela Adriana, que passou a estudar literatura infantil com o jornalista e escritor Claudio Fragata, assim que decidiu o público do livro.
Formação de leitores

Desde o lançamento do livro, Adriana tem visitado escolas para ler a obra e conversar com estudantes do Ensino Fundamental. Ela conta que a interação continua após as visitas, pois os professores enviam fotos das crianças trabalhando com o livro em sala de aula e os pais postam fotos no Facebook e no Instagram com mensagens de agradecimento. “Esse contato com o público na escola me surpreendeu. Principalmente, porque imaginei que as crianças fariam perguntas especificamente sobre Malala, e não foi assim. Elas perguntam muito mais sobre as condições de vida das crianças no Paquistão e em outros lugares, questionam o que o governo faz para melhorar ou se o Exército não ajuda”, avalia.

Para a autora, é interessante o quanto as crianças se impressionam e se envolvem com a história. A mãe de um aluno contou a ela, por exemplo, que o filho quer passar férias no Paquistão. “Se isso não é possível fisicamente, é bacana pensar que a tecnologia talvez consiga conectar crianças de lá e de cá. Afinal, hoje, a escola Khushal, onde Malala estudava, tem computador”, aponta Adriana. Ela conta que o trabalho de levar seu livro para as escolas daqui mostrou o quanto as crianças consideram Malala uma heroína dos tempos modernos, por ter tentado mudar a situação das meninas proibidas de estudar usando sua habilidade para se comunicar por meio de um blog. “Ao escrever ao mundo sobre o Swat, enquanto os jornalistas não podiam entrar lá, ela se tornou a única janela para o Vale”, lembra.

O trabalho de Adriana como jornalista é marcado pelo olhar sobre o cotidiano das mulheres e crianças que vivem nos países e regiões em guerra, sobretudo Afeganistão, Síria, Palestina, Israel, Faixa de Gaza, Cisjordânia, Indonésia, África, Congo, Uganda e Sudão do Sul. “Em todos os campos de refugiados, mulheres e crianças são a maioria das pessoas, são elas que sobrevivem e levam o país adiante, enquanto os homens morrem nos conflitos”, diz a autora dos livros O Afeganistão Depois do Talibã, finalista do Prêmio Jabuti em 2011, e coautora de O Irã sob o Chador (Editora Globo, 2010). “Algumas histórias eu contei no jornal e nos dois livros, mas devo escrever mais para o público infantil depois dessa primeira experiência, pois acho importante que as crianças do mundo saibam umas das outras e convivam com as diferenças”, afirma.

Saiba Mais
Malala: A menina que queria ir para a escola, texto de Adriana Carranca e ilustrações de Bruna Assis Brasil. Companhia das Letrinhas, 2014.