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Atrair os pais e criar laços significativos com a comunidade são estratégias decisivas para melhorar a qualidade de ensino em escolas mais vulneráveis, aquelas em que há maior prevalência de problemas sociais e econômicos. É o que defende a analista sênior de políticas educacionais da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), Beatriz Pont. “As expectativas dos pais tendem a aumentar a importância que os filhos dão à escola. Isso pode fazer muita diferença”, defende. Espanhola, Beatriz Pont veio ao Brasil em novembro de 2012 para participar da segunda edição do Ciclo de Debates Gestão Educacional, promovido pela Fundação Itaú Social.


A analista sênior coordenou o estudo Equity and Quality in Education: Supporting disadvantaged students and schools (Equidade e Qualidade em Educação: Apoiando escolas e alunos mais vulneráveis), que demonstra que os sistemas educacionais mais eficientes são os que conseguem conjugar qualidade de ensino com equidade de oportunidades. O relatório, cujo sumário está disponível em português no site da OCDE (www.oecd.org/edu/preschoolandschool/equityandqualityineducation-supportingdisadvantagedstudentsandschools.htm), apresenta recomendações de políticas que podem ser adotadas em diferentes países.

Há também exemplos de políticas já aplicadas em outros países.  Na França, existe um projeto chamado Caixa de Ferramentas dos Pais, no qual os responsáveis recebem um DVD com informações sobre como será o ano escolar. Além disso, as reuniões de pais e professores não focam apenas relatórios sobre o comportamento das crianças, mas explicações sobre como a escola se organiza, como o pai pode ajudar na lição de casa e sobre a saúde do aluno.

Um dos pontos de partida do estudo foi a constatação de que pais economicamente desfavorecidos tendem a participar menos da vida escolar dos filhos. Os motivos, segundo Beatriz, são múltiplos. Trabalhar longe da escola, falta de tempo, baixa escolaridade e até mesmo medo são apontados pela especialista como razões para o baixo nível de engajamento. “Em países em que há muita imigração, os pais podem não falar a mesma língua da escola e, por isso, não conseguem se envolver.”

A especialista ressalta que o engajamento não significa, necessariamente, trazer os pais literalmente para dentro da escola. Uma opção para aqueles impossibilitados de ir até o estabelecimento de ensino seria se envolver com os estudos do filho dentro de casa, por meio da leitura e da ajuda com a lição de casa. “Existem muitas formas de se envolver. Outra maneira é ir até a escola, falar com a professora e realmente entender o cotidiano de seu filho, mas as duas são igualmente importantes.”

No entanto, para que tal envolvimento seja bem-sucedido, é necessário que a escola cultive uma boa política de comunicação. Chamar os responsáveis somente para reportar más notícias e pedir para que eles participem da vida escolar do filho, sem mais instruções, não é suficiente. “As escolas precisam oferecer diretrizes claras e diretas, tais quais: venha às reuniões de pais, certifique-se de que seu filho faz a lição de casa todos os dias, ofereça o melhor ambiente possível para a criança fazer a lição de casa, garanta que ele tenha material escolar em dia etc.”

O fortalecimento dos vínculos entre a escola, a família e a comunidade é apenas uma das estratégias. Também são citados no relatório treinamento de gestores escolares e a construção de um ambiente positivo propício à aprendizagem na escola. Atrair e conservar bons professores, além de assegurar o uso de estratégias de aprendizagem eficientes, também são ações que podem ser adotadas pelas escolas.

Como envolver os pais na escola

Formas de comunicação
Comunicação com grupos heterogêneos de pais precisa ser reforçada e diversificada para além dos envios de informativos e boletim. Fazer visitas à família e incentivar iniciativas na comunidade podem ser positivas.

Não dar apenas más notícias

Especialmente no caso de filhos de pais menos familiarizados com a vida escolar, o comportamento e as realizações das crianças precisam ser relatados de forma balanceada. Se a única informação que chega em casa são as más notícias, haverá poucas chances de ganhar o apoio dos pais.

Atenção personalizada

O relatório da OCDE recomenda que as escolas identifiquem os pais que ainda não estão envolvidos na vida escolar de seus filhos e enviem convites personalizados, independentemente do desempenho dos filhos. Isso mostra para os pais que a escola valoriza a criança e seu progresso.

Escolas devem encorajar a interação entre pais e professores com orientações claras a respeito de como os pais podem contribuir para a vida escolar. As orientações podem incluir: organizar um local apropriado para o estudo ou dedicar tempo suficiente à lição de casa. Informativos sobre o valor da lição e sua relação com os objetivos educacionais podem ajudar.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental