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O museu foi aberto ao público em 2006
Aberto desde 2006, o Instituto Inhotim está em um município de 35 mil habitantes.

Em Minas Gerais, cravado na Serra da Moeda, em Brumadinho, a uma hora de Belo Horizonte, o Instituto Inhotim é hoje o maior museu a céu aberto do mundo, contando com um dos mais amplos acervos de arte contemporânea do Brasil.


Figura ainda, juntamente com o Instituto Ricardo Brennand, no Recife, como os únicos do País na lista dos melhores museus do mundo. Esse gigante cultural e ambiental, aberto ao público desde 2006, está dentro de um município com pouco mais de 35 mil habitantes, segundo projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2015.

Até então, a cultura local girava em torno do minério e da ruralidade, como boa parte das pequenas cidades do interior. Aos poucos, não só a economia de Brumadinho foi transformada por Inhotim, mas a proximidade e o acesso à arte contemporânea e ao riquíssimo acervo botânico têm, após quase uma década de fundação, aberto portas e janelas ao pensamento crítico dessa população, em especial a alunos e professores, por meio dos programas educativos do Instituto.

Brumadinho e Inhotim
Aberto em 2006, Instituto Inhotim está localizado em uma cidade de 35 mil habitantes

“Queremos estabelecer uma relação”. A partir dessa afirmação, segundo a gerente de projetos educacionais do Instituto Inhotim, Maria Eugênia Salcedo, nasceram aproximadamente 16 programas educativos – alguns com fôlego impressionante, como o Escola Integrada, que leva 1,5 mil alunos de Belo Horizonte por semana para passar o dia entre museu e Jardim Botânico.”

A arte contemporânea num primeiro momento pode parecer hermética, difícil de acessar, mas esse medo pode ser facilmente substituído pelo interesse, porque tem uma potência questionadora. E é isso o que vemos acontecer. É essa ideia de estar em dúvida, de questionar o tempo todo que o instituto trouxe, é assim que ele nasceu, e é isso o que inspira os projetos educativos”, explica Maria Eugênia.

Tudo em Inhotim faz com que a tradicional visita de escolas aos museus, além dos projetos educativos de longa duração, fuja do convencional. São 140 hectares de visitação, esparramados entre jardins e florestas, 22 galerias e o acervo com mais de 100 renomados artistas brasileiros e estrangeiros, de 30 diferentes nacionalidades.

A busca utópica do instituto em mudar a educação materializa-se em seus projetos. O primeiro, “Descentralizando o Acesso” nasce da necessidade de diálogo permanente com as escolas públicas da região do Inhotim.

No entorno, 15 municípios são convidados. Primeiramente, professores do Ensino Básico são chamados para uma conversa dentro do instituto, onde é feita a formação dos acervos dos museus.

Depois, educadores do museu vão às escolas, num segundo momento de debate com os professores. Por fim, os professores levam os alunos ao parque, juntamente com uma proposta de seu desejo. Alunos fantasiados, teatro no jardim, visitação e debate sobre uma obra ou autor específico: a cada educador cabe escolher o tipo de vivência que os alunos terão naquela oportunidade.

Um material impresso reúne tanto o acervo escolhido quanto o objeto do trabalho naquele ano, como as experiências e debates entre educadores. Esse material é produzido ao longo do ano em parcerias, e vira caderno de apoio para o grupo de professores que participará do programa no seguinte.

“Foi uma quebra de paradigma para nós e uma construção política mesmo. Temos a experiência do professor que acabou o curso, do ano passado, o que ele sentiu. E do professor que entra. A polifonia de vozes dos professores é algo que eu quero ouvir mais.

Essa polifonia sobre uma obra, ou sobre maquetes, por exemplo, que é uma coisa supercomum nas escolas, ao longo do ano os professores têm subvertido. Às vezes adotam, às vezes subvertem, às vezes utilizam e os alunos subvertem. Nosso desafio é levar essa energia transformadora para dentro das salas de aula”, diz Maria Eugênia.

Entre os programas que estabelecem uma relação mais duradoura com os alunos, a menina dos olhos de gestores do instituto e da comunidade de Brumadinho é o “Laboratório”.

Nele, 30 alunos de escolas públicas do município são selecionados para durante um ano receberem uma bolsa de estudos que os possibilita pesquisar arte. Esse um ano pode ser prorrogado para mais dois por meio do Fundo de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig).

Rhayane Estéfane Alves, de 15 anos, moradora da comunidade quilombola de Marinhos, há 9 quilômetros de Brumadinho entrou no programa em 2012, e está no último ano como bolsista. Além do Laboratório, Rhayane frequenta também aulas de percussão oferecidas pelo Inhotim aos quilombolas.

“Entrei com a ideia de conhecer mais do mundo, das coisas, para me soltar. E descobri que, antes de mais nada, precisava conhecer a minha cultura. É incrível conhecer outras culturas, mas eu tenho esse dever de passar a minha adiante. Hoje me entendo melhor, entendo a minha comunidade, e me sinto muito livre e segura para sugerir ideias novas”, afirma a aluna, que pensa em continuar a estudar artes ao fim do vínculo com o museu.

“Tenho muito amor pelo Inhotim. Me pego pensando como seria a minha vida se o museu não existisse aqui. Não faço a menor ideia. Acho que iria fazer uma coisa qualquer, seria vazio.”

O projeto Laboratório possibilita não somente que os estudantes vivam e convivam com o melhor da arte contemporânea no Brasil, mas também o intercâmbio cultural, artístico, ambiental, com outros países.

“Isso era absolutamente impensável para um jovem daqui, no início da sua adolescência e vivendo em comunidades ainda muito carentes de Brumadinho, senão de comunidades rurais. Pensa num jovem criado em fazendas, sítios, pesquisando as artes mais elaboradas do mundo, indo conhecer Nova York, Londres, Buenos Aires”, diz a coordenadora de projetos da Secretaria de Educação da Prefeitura de Brumadinho, Marcélia de Deus.

Os alunos saem do Laboratório com uma formação que ninguém parece saber exatamente em que: vai de curadoria em artes, meio ambiente, arte contemporânea e, é claro, a formação das cidades. De 2007, quando o programa foi criado, até hoje, o perfil dos alunos que buscam a vaga já se alterou.

“Antes eles chegavam aqui muito mais por estarem desmotivados com a escola ou movidos pela curiosidade. Hoje, eles chegam sabendo o que querem. Às vezes eles não sabem exatamente o que é isso, mas dizem que querem mudar a sua cidade, querem participar mais e melhorar a sua comunidade”, afirma Maria Eugênia Salcedo.

“Não é possível ser um povo contemporâneo sendo um povo sem memória”, a afirmação vem da diretora adjunta do Inhotim, Raquel Novaes, quando fala sobre o instituto nascer sem a ideia de ser um portador solitário de conhecimento, mas que usa Brumadinho e as comunidades do entorno como objeto de investigação e referência na concepção de projetos e mostras.

“Dos nossos funcionários 88% são de Brumadinho. O Inhotim tem um grau elevado de pertencimento na comunidade. Nas nossas metodologias, levamos em conta propostas que repercutem a tradição da própria região”, diz Raquel. A pesquisa do meio em que se vive, cidade, estado, país e mundo, mote do programa Laboratório, por exemplo, estabelece, portanto, o diálogo tão desejado pela instituição, e tão bem aproveitado pelos municípios.

Raquel cita a aluna Rhayane como um exemplo bem-sucedido. “Na comunidade dessa aluna, por ser quilombola, optamos por aulas com instrumentos de percussão, nessa tentativa de resgate à memória. Ela afirma-se como quilombola e repercute ainda na comunidade dela um olhar adquirido no estudo de arte contemporânea. Essa menina influi criticamente nessa comunidade. Programas continuados como esse tem uma capacidade de alteração social imensos, e já percebemos esses efeitos.”

A troca de Inhotim com essas pequeninas cidades provoca o entendimento que uma pergunta sem resposta pode também ser produtivo. Que área senão com as artes isso é possível?