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Aluna do Ciência sem fronteiras

O programa Ciência Sem Fronteiras ultrapassa a primeira metade de vida com  um inimigo difícil de combater no curto prazo: a falta de domínio de língua estrangeira por parte dos brasileiros. Em abril, foi anunciado o retorno antecipado de 110 bolsistas reprovados no teste de proficiência em inglês: 80 estavam no Canadá e 30, na Austrália. Todos faziam parte de um grupo inicialmente inscrito para fazer graduação sanduíche em Portugal, segundo principal destino dos brasileiros no programa. O país, porém, deixou de integrar o Ciência sem Fronteiras em 2013.


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A exclusão de outros 1,2 mil bolsistas aumentou as polêmicas do programa, criticado pelo baixo aproveitamento acadêmico dos estudantes, má gestão e desentendimentos entre as iniciativas pública e privada na distribuição das bolsas.
 
O perfil dos estudantes beneficiados é um problema antigo. Desde o início, foram aprovados para estudar na Europa, Estados Unidos, Canadá e Austrália jovens que não tinham fluência na língua inglesa e que, consequentemente, não conseguiram acompanhar os cursos nos quais se matricularam. Trazê-los de volta ao Brasil seria um desgaste à imagem do programa e parecia uma solução descartada.
 
De acordo com  a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que lidera o programa no  Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq),o retorno dos bolsistas trata-se de um “fato isolado”.  Eles estão retornando, segundo o órgão, porque não atenderam exigências mínimas das universidades. “Os requisitos não são homegêneos e variam de acordo com a área do curso, o histórico escolar do aluno e a proficiência no idioma”.

Até então, a solução para vencer a deficiência linguística  dos brasileiros  foi custear cursos de idioma, a distância, no Brasil, e presenciais, no exterior, o que onerou ainda mais as contas do programa. A bolsa para alunos matriculados em cursos de idioma no exterior estendeu-se para até 18 meses, divididos em seis meses para realização do aperfeiçoamento linguístico e de 12, para as disciplinas acadêmicas e as atividades de estágio – recomendadas, mas não obrigatórias.
 
Outro imbróglio é o acordo com o setor privado. Das 26 mil bolsas que deveriam ser financiadas por empresas, apenas 5.306 foram concretizadas, ou seja, 20% do previsto. Em contrapartida, o governo afirma já ter implementado 65% de sua meta de 75 mil bolsas. Para o CNPq, o cenário mais prejudicial fica por conta da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). Somadas, as instituições haviam se comprometido com o custeio de 11 mil bolsas, mas até o momento não homologaram nenhuma.
 
Segundo a CNI, “as bolsas não foram concedidas porque o termo de cooperação com a Capes e o CNPq não foi assinado”. A entidade descreveu um “impasse entre as partes” com relação ao período das bolsas. A CNI defende um prazo de até um ano e ressaltou que não vai custear diretamente as bolsas, pois as empresas farão isso. A CNI diz ainda haver “uma parcela específica de mil bolsas que o Senai pretende custear para os pesquisadores ligados aos Institutos Senai de Inovação e Tecnologia”, e afirma que as negociações com o governo federal avançaram e a expectativa é de assinar os termos de compromisso em breve.
 
A Abdib replicou que a principal dificuldade “é conseguir reunir os valores expressivos necessários para atingir a meta proposta de concessão de bolsas”. Em nota assinada por Ralph Lima Terra, vice-presidente-executivo, a entidade afirma que fez um levantamento para detectar as competências das empresas e desenvolver, com o CNPq, “um modelo de acordo de cooperação científica e tecnológica que atenda às necessidades dos diversos segmentos de infraestrutura”, como fontes renováveis de energia elétrica e tecnologias para saneamento básico e meio ambiente. Segundo a Abdib, os próximos passos serão “construir editais para selecionar estudantes” e “viabilizar a participação da iniciativa privada no Ciência sem Fronteiras”.
 
Procurado pela reportagem, o CNPq não respondeu se existem vínculos legais entre iniciativa privada e pública que viabilizem eventuais ônus ou cobranças judiciais no caso de não cumprimento do acordo.
 
A maior contribuição individual do setor privado está sob a responsabilidade da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), cujo compromisso é a doação de 180,8 milhões de dólares ao programa até 2015, correspondentes a 6,5 mil bolsas de estudo. Segundo Mário Sergio Vasconcelos, diretor de relações institucionais da entidade, o cronograma está absolutamente em dia.

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De acordo com o CNPq, possuem também acordos firmados com o programa as seguintes empresas: Shell, Statoil, Abdib, Vale, Hyunday, BG Group, Natura, Petrobras, Posco e Eletrobras.
 
Contras e prós
 

As dificuldades não surpreendem o sociólogo Simon Schwartzman, para quem todo o programa foi elaborado às pressas e estruturado sobre um foco equivocado. Membro da Academia Brasileira de Ciências, ele acredita que a destinação de 64% das bolsas para a modalidade de graduação-sanduíche é incompatível com os objetivos almejados pelo Ciência sem Fronteiras. “A ideia de que precisa haver um intercâmbio maior para trazer competência e conhecimento para o País é importante, mas do jeito que o programa foi pensado, está longe de fazer isso. Enviar um aluno de graduação para estudar durante um ano em uma universidade estrangeira é a maneira mais adequada e eficiente de se internacionalizar a ciência?”, questiona.
 
Desde o seu lançamento até agora, o Ciência sem Fronteiras absorveu 2,5 bilhões de reais, implementou 49.067 bolsas (39.564 delas na modalidade de graduação sanduíche) e concedeu outras 63 mil, essas últimas já tiveram a verba empenhada, mas a prática ainda está em andamento. Desse total, falta implementar 37 mil bolsas.
 
Para Schwartzman, o foco do programa deveria estar nas bolsas de pós-graduação, mestrado e doutorado, que trariam maior contribuição para o desenvolvimento de pesquisas e para o amadurecimento do cenário de inovação brasileiro. Nos outros casos, diz, corre-se o risco de enviar alunos para um intercâmbio cultural, e não a uma troca acadêmica. “A verdade é que os estudantes de graduação chegam às universidades sem muito compromisso, assistem aos cursos, viajam, fazem contatos e voltam. Certamente, para eles, é uma experiência que vale a pena, mas me pergunto: qual o resultado que isso traz para o cenário científico brasileiro?”
 
Segundo a Capes, focar no aluno da graduação é justamente o diferencial e o desafio do programa: “Os bolsistas poderão tornar-se futuros pesquisadores e alunos da pós-graduação”.
 
Além disso, credita-se à dimensão do projeto empecilhos na sua execução. “Quando você tenta implementar um programa em larga escala,  não há como filtrar tudo. Vai ter gente aprovada que não sabe falar uma segunda língua, vai ter universidade estrangeira não tão qualificada”, afirma Schwartzman. Segundo o CNPq, as universidades são escolhidas a partir de rankings internacionais de qualidade, como o Times Higher Education e o QS World University Rankings.
 
A crítica encontra respaldo em depoimentos de alunos beneficiados pelo programa. Para Luiza D’Elia, aluna de Rádio e TV da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a obtenção da bolsa de estudo na Inglaterra na área de Indústria Criativa (não mais contemplada pelos editais atualmente) foi mais relevante como uma experiência de vida. “De fato, a universidade inglesa na qual estudei tinha uma infraestrutura muito boa, laboratórios de ponta, entre outros aspectos. Mas achei o nível do ensino e dos alunos fraco”, conta a estudante, que usou o auxílio enviado pelo CNPq (que pode chegar a 1.270 libras, dependendo da cidade) para viajar pela Europa e explorar as ofertas culturais de Londres. “Pude conhecer museus, cinemas e musicais. No fim, foi isso que fez valer a pena.”
 
Beneficiado com uma bolsa de graduação sanduíche na Alemanha no primeiro edital do programa, Thiago Cazarine, estudante de Engenharia Elétrica da Unicamp, também apreciou a experiência, mas ressalvou o fraco nível da universidade estrangeira na qual estudou. “Lá, as aulas têm um ritmo lento, o conteúdo é bem mastigado. Às vezes, eu sentia que os professores subestimavam a capacidade de compreensão dos alunos.” Para o estudante, conhecer pessoas de diferentes lugares, religiões e etnias foi o aspecto mais enriquecedor do intercâmbio.
 
Por outro lado, Janaína Ataíde, estudante de Farmácia da Unicamp, diz que o programa foi a oportunidade de estudar fora do País com a qual sonhava desde o Ensino Médio. “Meus pais não teriam condições financeiras de me manter estudando fora por muito tempo.” Após obter bolsa, Janaína estudou durante um ano no Canadá. “Lá, o curso de Farmácia é focado na área clínica e no farmacêutico dentro do hospital, enquanto aqui o enfoque é na indústria, no medicamento. Teve um caráter complementar.”
 
Para Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, o modelo universitário estrangeiro, baseado em menos horas em sala e em mais pesquisas e trabalhos, pode levar a esta impressão equivocada sobre o nível das instituições. “Os alunos aqui são muito paparicados. Não estão acostumados a correr atrás da informação. E tem outra coisa que precisa ser questionada: o aluno só estuda porque tem cobrança? Quer dizer que, se o curso não tem prova, não tem mérito?” Para ela, as acusações em relação aos resultados trazidos pelo programa são injustas. “O que o Ciência sem Fronteiras evidenciou e serve de alerta é a deficiência que o País tem em falar uma segunda língua, mas de modo algum isso invalida a proposta do programa”, diz.
 
José Celso Freire Junior, coordenador institucional do Ciência sem Fronteiras na Unesp, concorda. “Diante da magnitude do programa, da quantidade de alunos e dos objetivos envolvidos, as críticas são irrisórias”, afirma. Para ele, o projeto revelou a necessidade de o Brasil desenvolver e investir em políticas públicas de capacitação em língua estrangeira. “Um País que deseja se inserir na comunidade global de conhecimento precisa de pessoas capazes de se comunicar em outras línguas. O programa expôs um problema que as universidades já conheciam antes: que a questão do idioma seria empecilho para a perfeita implementação.”

*Publicado originalmente em Carta na Escola