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Criança rezando
A pesquisa analisou cerca de mil crianças de seis países - Canadá, China, Jordânia, Turquia, Estados Unidos e África do Sul

Ser uma pessoa religiosa não faz necessariamente de ninguém um bom samaritano. É o que aponta um estudo americano realizado por pesquisadores da Universidade de Chicago e publicado na Current Biology. De acordo com a conclusão do estudo, que envolveu seis países de crenças diversas, filhos criados em núcleos familiares religiosos apresentam uma maior tendência para punir outras pessoas e também se mostram menos generosos.


Ainda segundo o estudo, atualmente cerca de 5,8 bilhões de pessoas, isto é, 84% da população mundial, se identificam como religiosos. Para os pesquisadores, embora seja geralmente aceita a ideia de que a religião dá contornos aos julgamentos morais das pessoas e incentiva comportamentos pró-sociais, a relação entre religiosidade e moralidade é ainda questionável.

Para chegar à conclusão, a pesquisa avaliou o altruísmo e o nível de religiosidade do núcleo familiar de 1.170 crianças com idade entre 5 e 12 anos e oriundas de seis países – Canadá, China, Jordânia, Turquia, Estados Unidos e África do Sul -, bem como os pais relatavam a empatia e sensibilidade à justiça de seus filhos.

Em todos os países, os resultados foram os mesmos. Os pais religiosos relataram que seus filhos expressavam mais empatia e sensibilidade para a justiça na vida cotidiana do que os pais não religiosos. No entanto, a religiosidade foi inversamente preditiva do altruísmo da criança e esteve positivamente correlacionada com suas tendências punitivas.

“Juntos, esses resultados revelam a semelhança entre os países na forma como a religião influencia negativamente o altruísmo das crianças, desafiando a visão de que a religiosidade facilita o comportamento pró-social”, diz o estudo.

Para Yves de La Taille, pesquisador e estudioso do desenvolvimento moral e professor do Instituto de Psicologia da USP, a investigação mostra que não é possível inferir uma relação direta entre religião e a moralidade das pessoas. “A maioria das pessoas tem um deus, é adepta de uma religião e o mundo não está melhor por causa disso. Um exemplo interessante é o Cunha [Eduardo Cunha, presidente da Câmara] que diz ser evangélico e, portanto, deveria ter a caridade como valor, o que aparentemente não o impede de ter dinheiro escondido na Suíça”, critica.

Sobre a conclusão de filhos de religiosos serem mais punitivos, La Taille vê uma coerência. “As religiões cristãs, entre outras, dão muito valor para o castigo. Há muitas regras e, portanto, toda transgressão precisa levar a uma punição. Mas eu acrescentaria que a tendência da sociedade atual é ser mais punitiva. E quem julga muito, quem pensa muito em punição, não é generoso”, reflete.

Em relação à menor generosidade, a interpretação é mais abstrata. “Não há regras para a generosidade, é um conceito subjetivo e, frequentemente, a religião leva as pessoas a terem uma moral heterônoma, cuja fonte é exterior. Então a pessoa tem a ideia vaga de que deve ser generosa, mas sem muitos parâmetros para agir, para colocar isso na prática”.

Até porque, lembra o especialista, o ódio, que seria o contrário da generosidade, tantas vezes nasce no próprio seio das religiões e seus dogmas. “Basta olhar para o Estado Islâmico e afins. Hoje, temos uma certa volta para a Idade Média. As guerras mais sangrentas da atualidade são em nome da religião”.

Então o ateu é o bom samaritano? Também não, alerta La Taille. “Do mesmo jeito que não existe uma relação de causa e efeito entre ser religioso e ser boa pessoa do ponto de vista moral, não há com não ser religioso. Há ateus extremamente morais e outros não-morais. Acho que os valores morais de uma pessoa dependem muito de um percurso pessoal e cultural”.