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Estudantes da EMEI Alceu Maynard de Araújo, no Bom Retiro

Atualizado dia 20/09 às 09h55


Irene de Jesus Cardoso, 37 anos, ainda está digerindo o comunicado que recebeu na agenda da filha, Amanda, de 5 anos, na última semana. Foi assim que soube que a escola onde a criança estuda, a EMEI Alceu Maynard de Araújo, no Bom Retiro, deve deixar de atender em período integral em 2018.

A mãe ainda não sabe como vai fazer para conciliar a sua rotina de trabalho como vendedora, com o novo horário proposto pela unidade. Hoje, Amanda chega à escola às 8h e sai às 16h. O horário permite que a mãe deixe a filha antes do trabalho e a encontre ao fim do expediente para retornarem a Itaquaquecetuba, onde moram.

Post da escola EMEI Alceu Maynard de Araújo no Facebook

Com a nova medida, no entanto, Amanda teria que estudar das 07h às 13h, ou das 13h às 19h. “Quem ficaria com ela para eu poder trabalhar? Meu chefe vai topar que eu trabalhe meio período para cuidar da minha filha? É uma situação muito difícil”, lamenta. “Filho de rico fica de 10 a 12 horas na escola. Por que filho de pobre não pode ficar oito?, questiona a mãe.

É de incerteza também a situação do assistente de vendas, Lucio Presse da Silva, 39 anos. Ele não sabe como vai fazer para conciliar o horário de estudo de seus dois filhos, de quatro e cinco anos de idade. Um dos garotos está finalizando a educação infantil na Maynard e deve migrar no próximo ano para uma unidade de Ensino Fundamental. A expectativa, no entanto, era que o caçula iniciasse os estudos na mesma unidade em 2018.

“Hoje, um deles já fica comigo aqui no trabalho pelo menos uma hora por dia, das 16h às 17, até dar meu horário de saída. Agora, saindo às 13h, eu não tenho o que fazer, teria que pagar alguém para cuidar dele e isso não cabe no meu orçamento”, avalia Lucio.

Uma fonte ouvida pelo Carta Educação afirma que a mudança pegou a EMEI Alceu Maynard de Araújo de surpresa e que a medida da Prefeitura não condiz sequer com o estudo de demanda feito pela unidade anualmente.

“Não temos procura por atendimento em período parcial na região. O Bom Retiro é um bairro central, e a escola tem como público os trabalhadores locais e seus filhos”, afirmou Maristela*.

A decisão ainda deve trazer para a EMEI Alceu Maynard de Araújo ao menos 80 crianças de 4 e 5 anos que deixarão de ser atendidas pelo Centro Municipal de Educação Infantil (Cemei) Dom Gastão, localizado a mais de três quilômetros de distância. Outra escola que receberá as crianças transferidas é a EMEI Antônio Figueiredo Amaral, localizada na Barra Funda, a 4 quilômetros da Cemei.

Além de terem que migrar de uma escola para outra e superarem a distância entre as unidades, esses estudantes terão uma redução no atendimento educacional de pelo menos quatro horas diárias – os alunos da Cemei Dom Gastão ficam na escola por 10 horas atualmente; esse tempo seria reduzido para seis horas.


A creche Dom Gastão também problematizou a situação em rede social

Uma fonte próxima da realidade da Dom Gastão alega que a medida é inadequada. “Estão maquiando a educação, ‘abrindo’ mais vagas, mas acabando com a qualidade. Os pais não trabalham meio período, os empregadores os liberarão para buscarem seus filhos? A prefeitura alegou que dará transporte, mas vão entregar essas crianças onde?”, critica Joana*.

Segundo os entrevistados, é inevitável o impacto na qualidade da educação e formação desses estudantes. Nas escolas, além da convivência, essas crianças têm assegurada uma assistência pedagógica, além de alimentação adequada.

A realidade, no entanto, é que muitas delas devem acabar confinadas nos locais de trabalho dos pais, ponto preocupante para Maristela. “Não podemos esquecer que muitas dessas famílias são migrantes e trabalham em oficinas e locais impróprios para a presença de crianças”, alerta Maristela. A evasão escolar também pode ser outra questão, caso as famílias não consigam encontrar outras saídas.

Até o momento, o encerramento do atendimento em período integral, proposto pelo prefeito João Dória (PSDB), foi notificado de maneira não oficial a três escolas da Diretoria Regional de Ensino do Ipiranga. O Carta Educação questionou a Secretaria Municipal de Educação sobre a medida, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.

* Nomes alterados para preservar a identidade dos entrevistados.

Reposta da prefeitura de São Paulo

A Secretaria Municipal de Educação esclarece que toda e qualquer projeção feita neste momento referente a 2018 se trata apenas de estudo feito no âmbito da Diretoria Regional de Educação, que ainda deve passar por apreciação do gabinete. Portanto não há nada definido para o próximo ano letivo.