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Quando Lucivânia Barbosa pisou pela primeira vez no megacampus da Escola Sesc de Ensino Médio, única escola residência 100% gratuita de todo o estado do Rio de Janeiro, ela tinha 14 anos, gostava de combinar a cor dos brincos com a dos sapatos e de dizer que havia mantido média 9 durante todo o Ensino Fundamental, concluído no município acriano de Brasileia, perto da fronteira com a Bolívia.


Com pouco mais de 1,60 metro de altura, a jovem de cabelos cacheados havia trocado o Acre pelo Rio depois de ter frequentado por anos uma escola rural e de ter sido aprovada, com grande esforço, no exame de conhecimentos gerais e na entrevista que integravam o processo seletivo da escola-modelo do Serviço Social do Comércio (Sesc).

Era janeiro de 2008, e Lucivânia sorria só de pensar que passaria três anos na metrópole, de onde sairia apenas nas férias escolares. Também estava encantada com o fato de que seu novo colégio lhe daria de graça absolutamente tudo que necessitasse: material escolar, uniforme, computador e internet, professores experientes, assistência médica e psicológica, passeios de fim de semana e até mesmo a chance de concorrer a um intercâmbio nos Estados Unidos.

Era a recompensa por ter sido selecionada para integrar a primeira turma de Ensino Médio da Escola do Sesc, que, por preceito, recebe ao menos um aluno de cada estado e divide o número de vagas de forma proporcional à participação dos comerciantes das diversas unidades da Federação na arrecadação compulsória enviada à instituição. Assim, em 2008, o Acre tinha duas vagas, e Lucivânia preencheu uma delas.

“Mas aí vieram as aulas, as provas, e vimos que ela não conhecia conceitos básicos”, lembra o carioca Luiz Fernando Moraes, professor de Língua -Portuguesa e Literatura e coordenador da Área de Códigos e Linguagens.  “Ela não entendia, por exemplo, como uma vírgula, poderia servir tanto para separar números 
quanto palavras.”

“Minha média despencou. Foi para menos de 6”, conta Lucivânia. “Em Matemática, eu tirava 2 ou 3… E, apesar de estudar muito, continuava olhando para as expressões numéricas sem ter ideia de como resolvê-las. Foi um período muito difícil para mim”, recorda a garota, que hoje tem 20 anos e mora com os tios em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

Inaugurada em 2008 em um terreno da Barra da Tijuca com 130 mil metros quadrados, na fronteira com a favela da Cidade de Deus, a Escola Sesc de Ensino Médio se propõe a oferecer um novo modelo de educação.  Moldada ao longo de sete anos por uma comissão de notáveis escolhida a dedo pelo presidente da Confederação Nacional de Comércio de Bens, Antônio Oliveira Santos, a escola é local de estudo e moradia de 500 alunos. Todos eles, sem exceção, foram selecionados por meio de provas aplicadas pelo Sesc em seus 
respectivos estados.

residencia

A aposta da escola-residência é a diversidade, explícita nas salas de aula compostas por alunos de diferentes estados, níveis de aprendizagem e condições socioeconômicas. Segundo dados da escola, 54% dos jovens são oriundos de famílias com renda mensal entre um e três salários mínimos. Trabalhar essas realidades culturais tão díspares é uma preocupação constante no colégio.

Cada série tem 11 turmas de não mais do que 15 alunos, que podem ser matriculados ao longo dos três anos do Ensino Médio. Para manter os jovens na ativa durante pelo menos dez horas por dia, a escola oferece, além das aulas tradicionais, tempos de tutoria, laboratórios e oficinas. Os gastos são custeados pelo Departamento Nacional do Sesc, que, segundo a gerência administrativo-financeira da entidade, desembolsa aproximadamente 3 milhões de reais todos os meses para manter sua única escola-residência. Em miúdos, o investimento por -aluno, incluídos gastos pedagógicos e de moradia, é de cerca de 6 mil reais.

A investida tem apresentado bons resultados nas avaliações nacionais. No recém-divulgado ranking do Enem,  a escola ficou em 23º lugar no ranking nacional e em 10º, entre as escolas da cidade do Rio.  De acordo com a diretoria, 95% dos alunos alcançam aprovação nas universidades públicas e particulares com bolsa integral. Apesar do bom desempenho, por enquanto, não há planos dentro do Sesc para abrir novas escolas.

O cenário no colégio do Rio é tão particular que quem passeia pelo enorme campus tem a sensação de estar em uma universidade americana. Do lado esquerdo de quem entra (e é preciso passar por um processo rigoroso de identificação para ter permissão de entrada), estão prédios retangulares onde funcionam os dormitórios das meninas. No outro extremo, ficam os prédios dos meninos. Em cada andar, um monitor é responsável pelo vaivém dos alunos.

No centro do terreno estão as salas de aula, o restaurante comunitário e o anfiteatro. É ali, bem perto de um lago artificial, que o burburinho acontece, onde a escola faz suas famosas festas juninas e todos os outros eventos de grande porte. Bem atrás desse espaço, fica a vila dos professores, onde moram 54 dos 85 educadores. Eles, por sua vez, são, em sua maioria, originários do Rio e de São Paulo. Cada professor residente tem direito a um apartamento de três quartos onde pode morar com a família.

Para lecionar na Escola Sesc, no entanto, os educadores enfrentam um longo processo seletivo. Passam por uma análise de currículo, uma prova e uma redação, têm de apresentar um projeto interdisciplinar, realizar uma prova de aula, sair-se bem numa dinâmica de grupo e mostrar a que vieram numa entrevista com a direção. Depois dessas etapas, recebem uma carga de 40 horas semanais e o convite para viver no local. Para os professores residentes, os salários variam de 12 mil a 13 mil reais por mês.

“Estou aqui desde antes da abertura da escola e encontrei terreno fértil para fazer o que sempre sonhei em termos de docência”, diz Moraes, que foi professor por uma década do tradicional Colégio São Bento, no centro da capital fluminense, antes de chegar ao Sesc. “Com as turmas pequenas, de 15 alunos, tenho a possibilidade de avançar no debate e de ouvi-los melhor. Bem diferente do que fazia com uma turma de 35 ou 40 jovens. Mas isso também nos coloca em xeque. Não posso entrar em sala e derramar conteúdos no quadro. Tenho de saber exatamente em que ponto da aprendizagem meus alunos estão e usar a avaliação como forma de repensar meu trabalho”, explica o professor.

Em contrapartida ao número reduzido de alunos e a grande infraestrutura gratuita, a Escola Sesc exige que seus mestres tenham cuidado intensivo com os adolescentes. Cada educador trabalha também como tutor de 15 jovens. Além de estar com eles em sala de aula, é o professor quem socorre a perna quebrada, -minimiza a dor da saudade de casa e ajuda a curar a paixão desfeita no pátio.

“O tutor é uma dobradiça poderosa entre a escola e a família. É o responsável por esse diálogo constante”, resume a gerente pedagógica, Inês Paz, moradora do campus.  Segundo ela, é para o tutor que os pais ligam, perguntando, por exemplo, se o adolescente está tomando remédio ou para dar a notícia de um falecimento: “É uma função paternal”.

A proximidade do professor com o aluno, no entanto, tem seus problemas. Uma das reclamações ouvidas pela reportagem é a dificuldade dos tutores para avaliar seus tutorandos. É comum, por exemplo, o pedido de consideração desta ou daquela particularidade do jovem para avaliações mais condescendentes.

No campus do Sesc, não são permitidas bebidas alcoólicas e drogas – os professores residentes não podem beber nas varandas de suas casas. Quebrar essa regra pode significar a expulsão imediata do aluno, como aconteceu em 2012. Beijos e abraços em público também são tolhidos, reclamam alguns alunos. O único dia de descanso pleno é o domingo, uma vez que aos sábados acontecem os cursos profissionalizantes.

Apesar das regras, desde que foi inaugurado em 2008, o colégio só perdeu 39 alunos. Seis deles foram reprovados (a média é 7) e 33 deixaram a entidade por motivos de saúde, problema de adaptação, falta de disciplina ou por questões religiosas. “Temos total autonomia”, afirma a carioca Raquel Albuquerque, que preside o grêmio da escola desde abril. “Não tem hora para acordar. Se quiser, posso faltar em uma aula e ficar lendo… Mas às vezes dá a sensação de que estamos numa bolha, de que estamos meio longe da realidade lá fora.”

No mês de junho, quando o Brasil foi sacudido por uma onda de manifestações de rua, Raquel conta que os alunos quiseram participar. Mas, alegando não terem autorizações expressas dos pais, os diretores não deixaram que eles cruzassem os muros.

“Fizemos o que era possível. Projetamos uma gigantesca bandeira do Brasil na parede do anfiteatro de forma a mostrar para quem passasse na rua que os alunos também apoiavam o movimento”, lembra-se Sidnei Cruz, o diretor de Cultura da Escola Sesc.  “Depois, aproveitando o gancho, promovemos um seminário aqui na escola, com a participação de membros do Movimento Passe Livre.”

Outro elo com o mundo real são os laboratórios organizados pela equipe de Cruz. O grupo de estudos de mídia, por exemplo, conta com a participação ativa de moradores da Cidade de Deus. Eles vão ao complexo Sesc e lá debatem a realidade que poucos alunos conhecem. A prática atrai bastante a atenção dos estudantes.

Foi com a ajuda de todos esses ingredientes, e diante das limitações que uma escola-residência por impor, que em 2011 a jovem Lucivânia Barbosa conseguiu ficar em segundo lugar no vestibular de Ciências Biológicas da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, sua primeira opção de carreira.

“Quero ser uma professora de Biologia tão boa quanto o Fábio Botelho, meu primeiro tutor lá no Sesc”, explica.  Ao longo dos três anos em que morou no Rio, o professor a ajudou a planejar os horários e a aproveitar melhor o tempo de estudo.  “Ele, sobretudo, me abriu a sua casa. Eu tinha com ele uma relação paternal. Na tutoria, chamava até de pai. E o curioso é que o pai dele também morava na escola. Então era como se eu tivesse pai e avô ao mesmo tempo. Sem eles… eu nunca teria ido adiante”, diz Lucivânia.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental