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Rennes Business School
Entre os estudantes, somam-se mais de 70 nacionalidades

A diversidade de rostos, línguas e expressões que coexistem pelos corredores da ESC Rennes School of Business, instituição francesa de Ensino Superior localizada em Rennes, capital da região da Bretanha, é o primeiro sinal de que estamos diante de um perfil diferente de escola. Em tempos em que a França vive um agravamento da xenofobia, o vislumbre de um espaço que não só tolera, mas também estimula, o multiculturalismo aparece como um oásis.


Criada em 1990 pela Câmara do Comércio da França, a instituição considerada uma das 10 melhores escolas de negócios do país orgulha-se do caráter internacional que assumiu desde sua fundação. Cerca de 50% de seus 4.048 estudantes são de fora da França, somando mais de 70 nacionalidades. Entre os professores, o quadro não é diferente: 85% deles são estrangeiros, congregando mais de 30 nacionalidades que vão de alemães, suecos e italianos a australianos e paquistaneses.

Integrante de um seleto grupo de escolas de negócios avaliadas com o triplo certificado EQUIS, AACSB e AMB (das 13.670 escolas que oferecem diplomas em negócios mundo afora, apenas 68 possuem a tripla creditação), a escola ministra todas suas aulas em inglês e oferece cursos nos níveis de graduação e pós-graduação. O mosaico de nacionalidades é fruto de uma política de mobilidade acadêmica adotada pela instituição por meio de uma série de parcerias.

No total, são 175 acordos internacionais com escolas de negócios de países como China, Marrocos, Rússia, Índia e outros territórios da Europa. No Brasil, há convênio com três instituições para programas de mestrado: Insper de São Paulo, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e FGV do Rio de Janeiro, com a qual também tem parceria para o programa de DBA (Doctorate of Business Administration) da ESC Rennes School of Business.

Olivier Aptel
O reitor da escola Olivier Aptel

Entre as mais recentes parcerias, está a firmada em fevereiro deste ano com a Universidade de Havana, em Cuba, o que a torna a primeira escola de negócios do mundo a possuir convênio com uma instituição de Ensino Superior do país caribenho. O acordo prevê o intercâmbio de estudantes e docentes entre as instituições, bem como a implementação de projetos conjuntos de pesquisa. “Para nós, é muito importante participar desde momento, quando o país começa a abrir sua economia. Eles estão muito interessados em fazer o intercâmbio de docentes, porque essa universidade não possui uma escola de negócios devido seu histórico marxista, então acredito que poderemos ser úteis nesse aspecto”, conta o reitor Olivier Aptel.

Os intercâmbios começam em setembro e serão trocados cinco estudantes por ano e enviados, no mínimo, três professores para a Universidade de Havana em 2017.

Por trás da ênfase na internacionalização, está a ideia de que os problemas sociais e econômicos da França e do resto do mundo não podem ser resolvidos por universidades egocêntricas. Em outras palavras, em uma comunidade cada vez mais globalizada, o contato constante com outras culturas, pensamentos e perspectivas aparece como o único caminho para solucionar desafios que assumem dimensões cosmopolitas.

Considerada a 2° maior potência econômica da União Europeia – atrás apenas da Alemanha -, a França vive atualmente o desafio de integrar uma cada vez mais expressiva leva de imigrantes vindos de lugares como o Oriente Médio e a África. “Podemos ser considerados uma espécie de laboratório. Temos diversas origens representadas pelos estudantes, funcionários e professores. E sabe o que percebemos? Que funciona”, comemora Aptel. “Isso significa que se os países europeus se organizarem no sentido de desenvolver esse tipo de abordagem intercultural teriam resultados muito efetivos. Mas infelizmente não é isso que vem sendo feito.”

Para o reitor, mais do que oferecer conhecimento técnico, é preciso estimular a integração cultural. “Quando você concentra os imigrantes em um só lugar e os exclui, você cria guetos. Essa é uma estratégia perigosa, o contrário do que queremos. Buscamos a mistura e o diálogo entre as culturas”, explica.

De acordo com Caroline Jouanin, diretora do departamento de Desenvolvimento Internacional, a integração favorece não só quem vem de fora. “Para os estudantes franceses da escola, também é muito vantajoso, pois estão expostos a diferentes culturas, saem daqui preparados para trabalhar com equipe multiculturais, heterogêneas”, conta. A estratégia parece funcionar: 82% dos alunos são contratados antes de finalizar o curso e 33% arrumam empregos fora da França.

O estudante colombiano David Triana, de 30 anos, estava trabalhando no setor financeiro de seu país quando decidiu seguir um novo rumo profissional. Formado em Administração de Empresas na Universidad de los Andes, Triana estava muito interessado em questões como mudança climática e  sustentabilidade, área na qual decidiu especializar-se.

“Havia uma especialização em Sustentabilidade na universidade em que me graduei, mas estava muito focada nos países em desenvolvimento e eu queria uma perspectiva sobre sustentabilidade de um país desenvolvido, porque nesses locais o tema das energias alternativas e combustíveis renováveis está mais avançado”, conta.

Viu, então, que suas opções estavam entre um mestrado nos Estados Unidos ou na Europa. Pesquisando, percebeu que lhe sairia mais barato e seria muito mais diverso culturalmente se optasse pela segunda opção. Iniciou seu mestrado em Gestão Sustentável na ESC Rennes School of Business em setembro. “A economia sustentável e demais aspectos desse cenário estão mais em pauta aqui, basta olhar para a COP 21, que a França sediou no ano passado”, aponta.

O professor de Marketing paquistanês Dildar Hussain, que já vive há 10 anos na Europa, diz que ensinar para uma classe composta por diferentes nacionalidades é tão desafiante quanto engrandecedor. “Quando você ensina para uma sala homogênea em termos culturais, você acaba focando naquele contexto específico apenas. Na minha opinião, ensinar para alunos de diferentes origens é mais interessante porque eles trazem experiência de lugares diversos, pontos de vista divergentes e isso alimenta o debate”.

Estudantes internacionais
O estudante colombiano David Triana e o panamenho Andreas Mensoza foram atrás de especializações que não encontravam em seus países de origem

Cyrlene Claasen, professora de Ética nos Negócios e originária da Namíbia, também vê a situação como vantajosa. “Na minha disciplina tenho a oportunidade de pedir para os alunos me contarem o que está acontecendo em seus países. Então temos cases trazidos por alunos europeus, americanos, asiáticos, podemos nos debruçar sobre diferentes leis, e eles ganham muito com essa troca. E eu também, claro”.

Para a professora escocesa Rhona Johnsen, o fato de os professores terem passado por processos de formação docente distintos e, consequentemente, apresentarem metodologias de ensino também diversas é um ponto que merece destaque. “Não existe um treinamento no sentido de padronizar o “jeito de ensinar” dos docentes, o que é ótimo. Então os alunos têm contato com professores mais práticos, outros mais teóricos e assim por diante”.

Brasileira, Clara Koetz, é parte do corpo docente da faculdade desde 2013 onde leciona Marketing Digital e Comunicação. Sobre os poucos alunos brasileiros da instituição, observa: “Não sei se os estudantes no Brasil sabem que podem vir para a França estudar em inglês. E acho também que há uma resistência em relação ao modelo europeu, que é de correr atrás, fazer muito as coisas por conta própria”, coloca. Para a professora, uma das maiores diferença entre ensinar para classes de brasileiros e uma internacional está na postura dos estudantes. “Aqui há uma percepção maior da autoridade do professor, menos conversas paralelas também”.

clara
A professora brasileira Clara Koetz é parte do corpo docente da faculdade desde 2013

A ausência de políticas que promovam a mobilidade acadêmica de professores, alunos e pesquisadores é hoje apontada como uma das principais deficiências das universidades brasileiras, que acabam perdendo visibilidade e competitividade quando comparadas a instituições de Ensino Superior do resto do mundo.

O engenheiro industrial Andreas Mensoza, 25 anos, do Panamá, que iniciou em setembro um mestrado em Mercado Internacional conta que cogitou dar continuidade a seus estudos acadêmicos no Brasil, mas acabou mudando de ideia. “Desisti porque fazer todos os exames que eram requeridos pelas universidades brasileiras ia me tomar muito tempo, enquanto vir para cá demandaram só três meses de aplicação. No meu caso, eu falo português, mas imagino que um aluno que desconheça a língua nem pondere essa opção”.

O reitor da escola também analisa como lacunar o cenário de mobilidade acadêmica ofertado pelo Brasil hoje. “Meu conselho para as universidades brasileiras que visam se internacionalizar é recrutar professores de outras partes do mundo e aumentar o número de aulas ou cursos ministrados em inglês”, aconselha Aptel.

*A jornalista viajou a convite da ESC School of Business