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Olimpíada de Matemática

Os brasileiros estão tomando gosto em ganhar medalhas. Em 2013, o País sagrou-se campeão da 24ª Olimpíada de Matemática do Cone Sul, no Paraguai, competição que contou com a participação de 28 estudantes de sete países. Foram duas medalhas de ouro e duas de prata. O interesse por competições de Matemática entre os alunos da rede pública também cresceu. A Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), que acontece anualmente desde 2005, reúne perto de 24 milhões de estudantes, o que corresponde a 90% dos alunos da rede pública aptos a participar das provas.


Entretanto, o pódio é uma realidade restrita a poucos. O que as avaliações nacionais, como a Prova Brasil e o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), revelam é que o desempenho em Matemática da maioria dos brasileiros é ainda muito ruim. Apenas 10,3% dos alunos terminam o Ensino Médio sabendo o que deveriam da disciplina, segundo relatório elaborado pela ONG Todos Pela Educação, a partir de resultados de 2011 do Saeb e da Prova Brasil. Além disso, o último Pisa, divulgado em 2009, colocou o Brasil na 57ª posição em Matemática entre os 65 países avaliados.

Para Walter Spinelli, doutor em Ensino de Ciências e Matemática pela Faculdade de Educação da USP, acreditar que a conquista de medalhas em competições significa uma melhora no ensino da disciplina é um equívoco. “Existem escolas e professores que treinam seus alunos para ser campeões de Olimpíadas porque acreditam que isso é sinônimo de qualidade. Se um brasileiro aparece na lista dos 10 mais ricos do planeta, isso significa que o País está mais rico, menos desigual? A mesma lógica pode ser aplicada aos campeões de Matemática”, afirma.

Já Gisela Wajskop, doutora em Educação pela USP e assessora pedagógica, lembra que é preciso levar em consideração o significado de todas essas provas para quem participa. “Diferentemente do que ocorre na Prova Brasil, nas Olimpíadas de Matemática existe um objetivo e currículo claro e definido para os alunos. Há apostilas, expectativas de aprendizagem, aulas, exercícios voltados para aquela finalidade. Eles são envolvidos em um processo significativo, no qual o protagonismo aprendiz se traduz em resultados.”

Se as Olimpíadas estão longe de ser um diagnóstico para o ensino e a aprendizagem de Matemática, elas podem ser, por outro lado, meios importantes para despertar interesses e aptidões. “A Olimpíada é uma atividade bem-sucedida no que se refere à identificação de talentos e também porque ajuda os estudantes a ver que, com esforço e dedicação, podem entender o que é considerado difícil na escola e, assim, abrir portas para um novo futuro, uma nova carreira”, aponta César Camacho, diretor-geral do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, instituição responsável pela organização da Obmep.

De acordo com Camacho, a Olimpíada não vai revolucionar o ensino de Matemática, problema mais profundo e de uma dimensão extraordinária. Mas a competição, se levada a sério, pode funcionar muito bem enquanto instrumento educacional e de estudo. Quem sabe uma nova geração de craques não está por vir.

*Publicado originalmente em Carta na Escola