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Alunos com necessidades especiais

Athina Anargyrou -empenhou-se na tarefa de achar uma -escola que de fato integrasse seu filho com necessidades especiais, Nilos Karavitis, aos demais alunos. À época com 12 anos, ele já havia passado por três instituições de ensino particulares que prometiam, mas não atendiam à expectativa da mãe.


Na última delas, a proposta de um cuidador em tempo integral para o garoto, cujo diagnóstico é de uma síndrome não definida, a levou a tirá-lo de lá: “Ele nunca precisou disso. Por que precisaria agora?”

A busca encerrou-se quando a administradora de empresas finalmente encontrou uma escola capaz de acrescentar algo na vida de Nilos, de “fazê-lo crescer, puxá-lo para cima”, como ela mesma diz, mas não sem antes colocar à prova a convicção de Athina de que a inclusão é possível em casos como o do filho: “Muitas vezes chorei muito, pensando se não seria melhor colocá-lo em uma escola especial para fazer mais amigos. Mas, cognitivamente falando, ele estaria estacionado, ou não aprenderia o que aprendeu”.

Localizada na zona norte de São Paulo, a escola Projeto Vida nasceu sob o signo da inclusão e da diversidade. Lá quase todas as salas de aula possuem ao menos um aluno com deficiência e os professores são preparados para trabalhar com classes inclusivas. Fundada em 1991, abriga hoje 95 alunos com necessidades especiais, que compartilham os espaços escolares com os demais estudantes.

A boa estrutura pedagógica compensa o esforço do deslocamento de Athina e do filho, que vivem na zona oeste da cidade. Hoje com 15 anos, Nilos está na última série do Ensino Fundamental.

Exemplos como o dele tornaram-se mais comuns na última década, quando o País registrou uma evolução significativa na inclusão de crianças com deficiências em escolas regulares. Em 1998, dos 337,3 mil alunos da Educação Especial, apenas 43,9 mil (ou 13%) estavam matriculados em escolas comuns. Em 2011, o número passou para 558 mil em um total de 752 mil alunos, somando os estudantes em escolas regulares e especiais. Ou seja, subiu para 74% do total.

O grande salto foi dado pelas escolas públicas, responsáveis por concentrar 80% das matrículas da Educação Especial no País. Mãe da aluna Fernanda, de 8 anos, Rosilene da Silva Santos é recebida com muitos abraços e sorrisos na Emeb José Getúlio Escobar Bueno, localizada em São Bernardo do Campo (SP). Com diagnóstico de paralisia cerebral, Fernanda está no 3º ano do Ensino Fundamental. “Ela gosta de vir para a escola, está mais interessada e alegre”, conta Rosilene.

“O processo (da inclusão) é irreversível”, opina Marília Dias Costa, especialista em Educação Inclusiva. “Quando as mães e os pais perceberam que tinham o direito de matricular os filhos na escola, começaram a ir atrás”, ela diz. No entanto, Marília defende que a transição do modelo de escolas especiais para o de escolas regulares seja feita de forma gradativa, de modo que as famílias e as instituições especiais possam se organizar e encontrar novas funções no atendimento às pessoas com deficiência.

“Não estamos mais discutindo se o aluno com deficiência tem ou não direito de ir para a escola comum. A questão é que ele tem o direito de aprender e precisamos saber qual é o local em que ele aprenderá melhor”, analisa Rosana Glat, diretora da Faculdade de Educação da Uerj. “Nas condições adequadas, a maioria dos alunos vai se beneficiar de uma classe comum, onde há mais recursos e estimulação. Mas ficar em uma sala de aula sem aprender não é inclusão”, ela diz.

Trabalhando com Educação Inclusiva desde 2006, a rede municipal de Amparo, interior de São Paulo, já virou a página a respeito do local em que os alunos com deficiência devem ficar. “Nosso maior desafio é fazer com que esses alunos tenham acesso ao conhecimento compartilhado na rede comum”, conta Eliane de Souza Ramos, fonoaudióloga educacional e assessora da rede municipal.

Além de aprenderem a conviver com a diferença, todos os alunos são beneficiados com a melhora na qualidade do ensino, ela diz: “Quando recebemos um aluno com deficiência, começamos a questionar a forma de ensinar, e não a capacidade de os alunos aprenderem. Isso faz com que as aulas e os recursos melhorem”. Uma equipe de assessores especializados, investimento na formação continuada de professores e desenvolvimento de ações envolvendo a comunidade e os pais ajudam a explicar o sucesso da rede.

A mudança positiva também é percebida nas salas de aula da rede municipal de Erechim, no Rio Grande do Sul. “A escola muda, torna-se mais acolhedora, passa a valorizar toda e qualquer conquista dos alunos e a enxergar o mundo de outra forma”, afirma Maria Salete Torres, coordenadora de Educação Inclusiva no município. A educadora também relata ganhos no ensino e no aprendizado dos estudantes em uma escola inclusiva. “O conteúdo é o mesmo para todos, porém, as estratégias metodológicas são variadas, porque o professor tem de atingir todos os alunos.”

Para uma das pioneiras da Educação Inclusiva no País, é preciso parar de falar em dificuldades. “Queremos soluções, sair do lugar e buscar novas formas de atuar de maneira que as crianças possam viver o seu direito de estar estudando todas juntas no mesmo ambiente educacional”, conta Maria Teresa Égler Mantoan, professora da Unicamp e umas das elaboradoras da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva.

Segundo Maria Teresa, a política federal criada em 2008 inovou ao transformar a natureza da Educação Especial. “Com essa política, ela deixou de ser substitutiva e passou a ser uma modalidade de ensino que complementa a formação do aluno desde o Ensino Básico até o Superior”, explica. Outra novidade é a criação do Atendimento Escolar Especializado (AEE), ministrado por profissionais especializados no contraturno escolar.

“O AEE vai ensinar os alunos a utilizarem recursos, ferramentas, linguagens e equipamentos que farão com que eles tenham autonomia e independência possíveis para ter acesso, permanência e participar com sucesso nas turmas comuns”, explica Maria Teresa.

Em São Bernardo do Campo, Fernanda participa duas vezes por semana, no contraturno, do AEE oferecido por sua escola. Ela também utiliza o transporte escolar adaptado, cedido gratuitamente pela Secretaria de Educação do município, para se deslocar até a escola, onde estuda com os demais colegas em uma sala regular.

Além de Fernanda, há outros seis alunos com necessidades especiais na escola. Iveth Watanabe, responsável pela AEE na escola, conta que o principal objetivo do atendimento especializado é proporcionar ao aluno com deficiência um bom desenvolvimento em sala de aula: “A ideia é que eles transitem o mais tranquilamente possível pela classe”.

Alunos com necessidades especiais

Cada aluno precisa de objetivos e adaptações diferentes, de acordo com a sua necessidade, explica Renata Ferreira Campos, coordenadora pedagógica da unidade de ensino. “Esse é o maior desafio, porque não existe uma receita pronta para a professora. A cada momento ela precisa fazer essa avaliação das necessidades de cada aluno para incluí-lo cada vez mais”, afirma.

Para Iara de Moraes Gomes, técnica de Educação Especial da Secretaria de Educação de Campina Grande, na Paraíba, a receita passa pela correta formação dos professores. “É por meio dela que levamos as informações necessárias e sensibilizamos o docente”, ela defende.

O processo de inclusão, porém, ainda expõe contradições. Em 2013, duas escolas particulares de São Paulo cobraram de pais de filhos com deficiência taxas superiores às dos demais alunos. A negação de vaga ou a cobrança de taxas extras em escolas para qualquer pessoa com deficiência, porém, é uma prática ilegal.

Por outro lado, ser uma instituição que acolhe bem a diferença pode se tornar uma mácula. “Muitas escolas podem ter o receio de serem tidas como fracas por serem inclusivas, o que é um mito”, afirma a diretora da Projeto Vida, Silvia Elayne. O medo é injustificado. “Uma escola que inclui faz com que os professores busquem outras ferramentas e metodologias de ensino, o que acaba favorecendo a aprendizagem de todos”, defende a educadora, lembrando que muitos alunos da Projeto Vida conseguem entrar e permanecer em escolas concorridas no Ensino Médio.

O sucesso do projeto pedagógico voltado para a diversidade cobra outro preço: com classes do Ensino Infantil à segunda etapa do Fundamental nem sempre a escola consegue atender à demanda das matrículas. “Vivemos esse drama. Como sabemos que as famílias já receberam muita porta na cara, sempre tentamos ajudar, mas muitas vezes não conseguimos -atender”, conta Silvia.

A saída da escola é outro capítulo difícil na vida das famílias. Ainda há poucas escolas de Ensino Médio em São Paulo aptas a receber alunos oriundos da Projeto Vida. “É importante que outras escolas também trabalhem com a Educação Inclusiva”, defende. Os números corroboram o depoimento: as matrículas despencam ao fim do ciclo do Ensino Fundamental em todo o Brasil. Em 2011, apenas 33 mil alunos com deficiência estavam nos bancos escolares do Ensino Médio.

Athina é uma das mães que já se preparam para a transição do filho para a próxima etapa de escolarização. Além da maior diversificação de conteúdos e do foco grande no vestibular, ela relata a dificuldade de encontrar uma escola de Ensino Médio capaz de acolhê-lo. “É um grande problema, porque as instituições de Ensino Médio ainda são muito resistentes a receber uma pessoa de inclusão. Ainda lidamos com um preconceito enorme”, ela reclama.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental