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Créditos: Agência Brasil

Por Carol Scorce


No domingo 5, milhares de alunos fizeram a prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e foram surpreendidos com o tema da redação, que este ano contemplou a discussão sobre a inclusão dos surdos na educação. A questão gerou polêmica entre estudantes e professores, e reverberou na redes. O principal ponto de contestação é o fato da inclusão não ser debatida, dentro e fora das salas de aula, e que apenas os textos fornecidos na prova eram insuficientes para a argumentação dos concorrentes.

A prova já foi, mas a pergunta fica: quais são os desafios para inclusão dos surdos no sistema educacional brasileiro? Segundo a educadora Fernanda Cortez,  diretora da Escola de Educação Bilíngue para Surdos (Derdic), da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica), é primordial compreender que a Língua Brasileira dos Sinais, a Libras, não é uma mera tradução da língua portuguesa por meio de gestos, mas se configura como uma língua própria, com características particulares.

“O português é a segunda língua do surdo, e nem todos têm o mesmo nível de fluência. É como a segunda língua para nós. Temos níveis de domínio diferentes do alemão, do inglês, do francês. Os surdos têm de aprender português e bem, porque é dessa maneira que vão se inserir, arrumar empregos, viver em sociedade. Mas não é a língua natural deles”, explica.

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É nesse contexto que entendemos porque os surdos têm direito a intérpretes para auxiliar na compreensão da prova do Enem, por exemplo. “Muitos surdos têm seus direitos fundamentais feridos desde o início da experiência escolar. Diagnósticos atrasados e crianças que passam anos sem a atenção necessária, além de escolas e professores sem recursos e preparo para educar. Pensando que temos então duas línguas totalmente distintas a inclusão também se dá no nível cultural”, afirma a educadora, lembrando que este ano completa 15 anos da Libras reconhecida como segunda língua oficial no Brasil.

Outro ponto importante é a invisibilidade dos surdos. Até que a pessoa que não ouve passe a se comunicar em sinais, ninguém a nota. Elas se constituem como uma minoria, e para especialistas em acessibilidade, como uma minoria dentro de outra. “O uso de tecnologias é importante, mas a formação dos professores para uma pedagogia cuidadosa com os surdos é o fundamental. Os surdos podem fazer a leitura facial, mas eles têm de se comunicar plenamente em português e em libras. Só assim eles serão agentes da própria comunicação. Poderão trocar, que é a base do aprendizado.”

De perto e de dentro

Quem também nos ajuda a entender essa realidade ainda tão hermética para os não surdos, é a jovem professora Pâmela Mattos. Pâmela é única mestra surda do Pará, leciona na educação superior, e fez sucesso esta semana depois de publicar um vídeo criticando o comentário de uma professora que lhe deu aulas. Na ocasião  a ex-professora de Pâmela classificou o tema da redação do Enem com “um golpe.”

“No ensino infantil eu era muito mimada pelos professores. Todos me achavam fofa, bonitinha, faziam carinhos em mim. Alguns faziam atividades fora da sala de aula comigo, me incentivavam. No ensino fundamental isso mudou; os professores não falavam libras e não se importavam. Passavam boa parte da matéria apenas oralmente, e se movimentavam a aula toda; eu não conseguia nem fazer a leitura labial. Insistia muito para o meus pais me trocarem de escola, e eles não entendiam o meu desejo, porque aparentemente eu era muito querida na escola pelo corpo docente, mas eles não incluíam. Os meus colegas de sala não se importavam. Nem tocavam em mim.”

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As coisas só começaram a melhorar quando Pâmela entrou na escola pública, a partir da figura da orientadora educacional. “Nem todos os professores sabiam libras, mas eles eram orientados quanto ao meu processo, e isso já me incluía. Foi na escola pública que conheci meu primeiro colega surdo. Eram amigos solidários e bagunceiros. Me senti acolhida e respeitada.”

Pâmela ensina ainda que os surdos são serem capazes de exercer qualquer atividade que desejarem, e têm por direito o acesso a todos os mecanismos que potencializem suas habilidades. Educar surdos não é golpe, discutir o assunto não é golpe. Educar surdos é desafiador e possível.