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Livro aberto

A história de um livro não acaba na última página para os participantes do BookCrossing. O movimento prega o registro de publicações na ferramenta online e a doação, ou “libertação”, das obras em locais públicos. Na capa de cada livro livre vai um aviso sobre o programa e uma sugestão para que seu novo leitor faça o mesmo. Os capítulos seguintes da história do exemplar, seu paradeiro e impressões dos novos leitores podem ser acompanhados pela internet.


O site foi criado em 2001, nos Estados Unidos, por um programador curioso sobre o destino dos livros doados. No mesmo ano espalhou-se pelo mundo. No Brasil, apesar do alto número de “libertadores” de livros, poucos presenteados anônimos seguiam a orientação de entrar no BookCrossing e contar como encontraram o livro e o que acharam. Aos poucos, com a internet à mão nos celulares e a possibilidade de entrar por outras redes sociais, os registros começam a aparecer.

Hoje há  1,2 milhão usuários em 130 países e 10 milhões de obras cadastradas e libertadas. Apenas no Brasil, mil livros por mês são deixados em locais públicos e pontos fixos de BookCrossing. “Um em cada dez registros recebe retorno por escrito no site sobre como foi encontrado, mas o importante é fazer os livros circularem”, diz Helena Castello Branco, autora do site BookCrossing Brasil, que organiza eventos e pontos de encontro para o movimento.

Apesar de partilhar da prioridade em disseminar a leitura, o professor de inglês Anderson Araújo, usuário do sistema há um ano, admite que saber do paradeiro ou do efeito causado pela doação torna a ação mais recompensadora. “Recebi uma mensagem uma vez de uma moça avisando que encontrou o livro no ônibus onde eu deixei e que a leitura tinha feito o caminho dela para o trabalho mais feliz. Fiquei realizado”, conta.

Ao todo, ele já libertou 40 obras. A maioria delas ficou no banco de uma praça ou dentro de um transporte público em São Paulo, onde vive. Anderson também já deixou o presente em banheiros e até em salas de espera.

“Na primeira vez, deixei o livro em um ponto de ônibus, atravessei a rua com minha namorada e fiquei olhando de longe. Uma pessoa viu, leu o aviso e não pegou. A segunda passou a mão e continuou andando”, lembra. O destino não foi documentado no site e Araújo não sabe o desenrolar da história. “O importante é alguém ler”, diz.

Para a diretora de Engenharia e Serviços Luma Rosa, a adrenalina ao “libertar” um exemplar é liberada pela relação tradicional que as pessoas costumam cultivar com as obras. “Muitos amigos relatam sentir-se como se estivessem cometendo um ato transgressor. Talvez venha do fato de o livro ser um algo muito bem guardado, até demais, em muitas casas”, afirma.

Há cinco anos ela criou o BookCrossing Blogueiro, evento semestral que ajuda a divulgar a prática e dividir as experiências. “Minha mãe era educadora e sempre estive a par da situação educacional e da falta de acesso para todos. Muito cedo eu doava livros e, quando conheci o programa, resolvi escrever sobre isso no meu blog e incentivar que mais pessoas o façam”, conta. A próxima edição do evento acontecerá de 8 a 16 de novembro de 2014 e é aberta a qualquer interessado.

Luma conta que não mantém uma biblioteca por entender que “livros fechados são como páginas em branco”. Acabou de ler O Sentido de um Fim, de Julian Barnes, e, ainda apaixonada pela história, a deixou partir. “A cidade pode ser uma biblioteca.”

Mesmo para quem pensa diferente (e mantém um certo apego às obras), o BookCrossing pode ajudar a alongar o prazer da leitura. É o caso do engenheiro Aventino Alves, um dos adeptos mais antigos do movimento no Brasil.

Ele não abre mão das prateleiras de livros em casa e, quando decide que não guardará uma ou outra obra, prefere uma “libertação controlada”, modalidade em que entrega o exemplar diretamente a outro usuário interessado. “Já cheguei a comprar um livro que gostei muito só para doar, mas sem me desfazer do meu”, conta.

Frequentador assíduo no site, Alves encara o ambiente virtual como uma comunidade literária. Além do contato de outros leitores, há fóruns de discussão cujos temas podem ser obras específicas, encontros agendados ou sugestões de leitura. Com os anos, o BookCrossing passou a pautar até as viagens de férias de Alves. “Quando comecei, em 2003, eram poucas pessoas no Brasil cadastradas e conversava muito com portugueses. Aos poucos, fiz amigos em outras partes do mundo”, comenta.

O engenheiro acabou conhecendo obras de autores portugueses viajando para Portugal e enviando livros para o exterior. “A primeira vez fui conhecer o país, mas também já encontrei uma pessoa com quem conversava ali. Em todas levei livros para trocar, apesar do peso adicional na bagagem”, lembra. O caminho inverso também ocorre. No último Natal, recebeu pelo correio Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto, de Mario de Carvalho, de uma amiga portuguesa. “Já doei bastante, mas ganho em muitos aspectos”, comenta.

Para ampliar a participação, Helena criou também pontos de “livros livres” fixos em restaurantes, bibliotecas e museus. Em seu perfil no site, há 6 mil livros registrados. “Fui traduzindo o material, divulgando em grupos culturais e criando estratégias para disseminar a prática. Acabei recebendo também doações para repassar”, conta.

Atualmente, todas as capitais do Brasil têm ao menos um endereço fixo de doação. No País todo são 50 pontos, a maioria em São Paulo. A busca pelo local mais próximo pode ser feita pelo site. Também é possível ver quantos dos 11 mil usuários brasileiros estão em cada estado ou cidade.