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Alunos tocam flauta em projeto
Financiamento coletivo fomentou a Virada Educação, em São Paulo

Quando o mineiro Alex Bretas desembarcou em São Paulo, em outubro de 2013, trouxe consigo a semente do projeto de estimular “doutorados informais”, pesquisas desenvolvidas fora de qualquer instituição de ensino. A ideia germinou, ganhou nome e forma – Educação Fora da Caixa, um livro gratuito sobre histórias e experiências de jovens e adultos com a aprendizagem informal –, e tornou-se viável graças à arrecadação no modelo crowdfunding, em que os internautas fazem doações de quantias variadas para auxiliar a viabilização dos projetos.


A exemplo do Educação Fora da Caixa, inúmeros projetos saíram do papel por meio das plataformas de crowdfunding. Publicado em janeiro deste ano, o levantamento Retrato do Financiamento Coletivo do Brasil, realizado pela Catarse, maior plataforma brasileira de financiamento coletivo, revelou que os projetos ligados à educação são os que mais despertam interesse de doadores. A pesquisa feita com 3.336 pessoas, entre agosto e setembro de 2013, colocou a categoria à frente de outras 25 áreas de atuação, como Meio Ambiente, Negócios Sociais, Artes e Ciência e Tecnologia.

No entanto, a mesma investigação apontou a área como aquela com o menor número de iniciativas interessantes. “O resultado mostra que há uma demanda no setor que não está sendo atendida. A sociedade civil costuma utilizar o financiamento coletivo como uma ferramenta para ajudar áreas que são, historicamente, negligenciadas pelo poder público. As pessoas querem causar um impacto positivo, mas precisam ter certeza de que estão investindo em um bom projeto”, diz Felipe Caruso, coordenador de comunicação da plataforma.

Atualmente, o tema educação é a quinta categoria do site com o maior número de projetos cadastrados, cifra que vem crescendo gradativamente. Segundo Caruso, já passaram pela plataforma 31 projetos, dos quais 20 conseguiram atingir o montante planejado (65%). “É uma taxa de sucesso superior à média da plataforma, de 55%. Ao todo, os projetos educacionais levantaram 423 mil reais no site e obtiveram 3,2 mil apoiadores. É um engajamento bem expressivo”, diz.

Quando o projeto de Bretas entrou na Catarse, a campanha, que almejava arrecadar 8.908 reais no prazo máximo de 53 dias, conseguiu atingir a meta em apenas 17 dias e, posteriormente, ultrapassou o valor estipulado. “No total, conseguimos cerca de 13,5 mil reais. Com o dinheiro extra faremos coisas que, inicialmente, não estavam previstas, como a tradução do livro para o inglês”, conta.

Outro projeto bem-sucedido foi o Escola de Rua, idealizado pelo psicólogo Diego de Almeida Macedo, com o apoio das iniciativas Empreender-se e Estaleiro Liberdade. Com a proposta de levar educação livre para espaços não pensados para essa finalidade, como restaurantes populares e praças públicas, o projeto conquistou o interesse e o comprometimento dos internautas. “Meu objetivo é que todos os espaços sejam percebidos como lugares em que podemos aprender e que outras pessoas venham para a rua e ensinem. Assim, a cada 100 reais arrecadados faz-se um dia de escola de rua”, explica Macedo.

Até o momento, 64 pessoas apoiaram o projeto, levantando uma quantia de 2.215 reais. Para Macedo, uma das vantagens do modelo de arrecadação é conseguir atingir em cheio seu público-alvo. “O financiamento coletivo proporciona a liberdade e a rede de apoio de que preciso. Ou seja, pessoas que acreditem na educação livre”, afirma.

O jornalista e escritor André Gravatá valeu-se do crowdfunding para concretizar dois projetos, a publicação do livro gratuito Volta ao Mundo em 13 Escolas, ao lado de Camila Piza, Carla Mayumi e Eduardo Shimahara, e a Virada Educação, junto ao Movimento Entusiasmo. “A lição que ficou dessas duas campanhas é como é importante tecer conexões com as pessoas que estão ao nosso redor. Uma das coisas mais legais que vi foram pessoas que eu não conhecia pessoalmente compartilhando as iniciativas nas redes sociais, chamando os amigos para contribuir, como se o projeto fosse delas. E, de certa forma, era sim, pois, a partir do momento que você contribui, seja financeiramente, seja na divulgação, você se torna parte da ação”, diz.

Há um ano no ar, a plataforma de financiamento coletivo O Formigueiro tem foco exclusivo na viabilização de projetos de baixo custo ligados a escola públicas e instituições educacionais sem fins lucrativos. “No interior de um formigueiro, milhões de seres trabalham em equipe e conseguem, por meio de pequenas contribuições, promover o bem-estar da colônia. Nossa ideia é semelhante: conectar diversas pessoas para concretizar projetos educacionais que transformem a vida de muitas crianças, jovens e adultos”, conta Gabriel Richter de Almeida, um dos fundadores da plataforma.

Até o momento, a ferramenta colocou de pé sete iniciativas, com uma arrecadação total de 7,7 mil reais. “Hoje, nosso maior desafio é divulgar o site, de modo que cheguem mais projetos até nós. Temos recursos financeiros e muitos voluntários disponíveis para ajudar”, afirma Almeida.

Segundo os autores dos projetos executados por meio de financiamento coletivo, além das propostas para os quais foram criadas, a troca de informações e os conhecimentos gerados entre os envolvidos são um legado frutífero para novas iniciativas.

Cinco princípios 
do crowdfunding
1. Esclarecer os objetivos 
e as etapas do projeto
2. Mobilizar a rede de contatos 
com ênfase na iniciativa
3. Usar as possibilidades ofertadas pelas redes sociais para divulgação
4. Não esperar arrecadar o montante final para iniciar o projeto
5. Cumprir as promessas feitas e ter transparência de todo o processo