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Glaci Nunes
A coordenadora pedagógica Glaci Nunes, de Porto Alegre: rotina agitada

A coordenadora pedagógica Glaci Nunes tem uma rotina de trabalho agitada na Escola Estadual de Ensino Médio (-EEEM) Rafaela Remião, em Porto Alegre. Ela é responsável pelo acompanhamento de 86 professores que lecionam para a primeira e a segunda etapas do Ensino Fundamental e para o Ensino Médio, atendendo quase 1,7 mil alunos. Entre suas atribuições, cuida das reuniões mensais de formação desses docentes e os orienta no planejamento das aulas semanais.


Também supervisiona projetos como o da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul, voltados para jovens de 15 a 18 anos com defasagem de aprendizagem, envia relatórios trimestrais para a Secretaria com os resultados das avaliações de cada turma e conduz o trabalho de reforço dos alunos sempre que necessário.

Vera Amaro, diretora do Departamento Pedagógico da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul, explica que com a mudança de governo estadual, em 2011, iniciou-se a recomposição do quadro de recursos humanos das unidades escolares. Em 2012, foram nomeados, por meio de concurso público, 5,5 mil professores, sendo que 20% deles já eram da rede estadual. Outros 5 mil docentes aprovados em concurso em 2013 devem tomar posse (ser nomeados) somente em maio ou junho de 2014.

Em seu trabalho, Glaci participa de reuniões com a equipe gestora, cuida de atividades no laboratório de informática e na biblioteca, recebe os alunos na entrada e atende os pais. “Costumo usar o período da noite, que é mais tranquilo, para resolver questões burocráticas e administrativas”, explica a coordenadora. Ela trabalha no período noturno, mas também em dois dias pela manhã e em outros dois à tarde.

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Diante de tantos compromissos, Glaci diz não se importar por não ter uma sala exclusiva. “Mal tenho tempo para me sentar, mas uso o espaço dos professores, que tem uma mesa grande e um armário. Acho melhor assim, pois fico mais próxima deles”, diz. Ela conta que a direção já solicitou ao governo funcionários para o seu setor, sem sucesso.

Assim como a educadora gaúcha, muitos coordenadores pedagógicos no Brasil trabalham sobrecarregados, assumindo papéis além dos seus. “Em casos como esse, em que a instituição é grande e há somente um profissional, ele acaba atendendo às solicitações do momento. Torna-se um -multitarefas e deixa de lado a parte mais importante: é a formação continuada docente”, afirma Laurinda Ramalho de Almeida, professora de pós-graduação em Psicologia da Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e vice-coordenadora do mestrado em educação Formação de Formadores, recém-criado na universidade.

Os encontros periódicos que o coordenador pedagógico promove com os professores são fundamentais para a melhora do processo de ensino e da aprendizagem. “Ele precisa entender que dificuldades o professor tem sobre a prática para, juntos, refletirem sobre ela, de modo a garantir que todos os estudantes aprendam, mesmo com suas diferenças”, destaca Zélia Porto, professora do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco (Ufpe).

A falta de clareza sobre o papel do coordenador pedagógico tem origem na ausência de uma legislação nacional a respeito do assunto. “Cada rede de ensino tem autonomia para elaborar as suas próprias regras, existindo aproximações e distanciamentos quanto às suas obrigações nos diversos estados e municípios”, afirma Jane Cordeiro de Oliveira, que analisou a identidade e o trabalho do coordenador pedagógico para a sua dissertação de mestrado na PUC do Rio de Janeiro, estudando tema correlato na sua tese de doutorado na mesma instituição, ainda em andamento.

“Em geral, as normas preveem atribuições demais, sendo pouco explícitas em relação aos horários de trabalho pedagógico coletivo (HTPC)”, explica Laurinda, que foi uma das coordenadoras da pesquisa O Coordenador Pedagógico e a Formação de Professores: Intenções, Tensões e Contradições, realizada em 2011 pela Fundação Victor Civita.

A investigação ouviu 400 coordenadores de todo o País e analisou as leis de cinco estados. “Há redes que apenas definem a função desse profissional – nesse caso, deslocando um professor experiente para o posto – e outras que preveem o cargo, o que implica realizar concurso para ser efetivado, dando mais legitimidade ao seu trabalho”, relata a professora.

A formação em serviço é garantida pela Lei do Piso (nº 11.738), que além da questão salarial estabelece somente dois terços da jornada de trabalho docente na sala de aula. Fica implícito que o resto do tempo, 33% da carga horária, tem de ser utilizado para estudo, planejamento e avaliação. Porém, segundo levantamento da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) feito em março deste ano junto às 27 unidades da federação, somente cinco estados cumprem integralmente a lei, enquanto outros 14 atendem apenas à questão da jornada.

Se seguir a legislação é difícil, mais ainda é fazer com que esses encontros pedagógicos sejam de fato produtivos e voltados para o objetivo principal da escola, que é garantir o aprendizado dos alunos. Isso porque, muitas vezes, o coordenador não recebe o devido preparo.

Laurinda Ramalho
Foco do profissional não pode sair da formação docente, diz a professora Laurinda Ramalho

Os cursos de graduação – em geral, o de Pedagogia – e a experiência docente que a maioria possui não oferecem instrução específica para a atividade. Muitas secretarias de educação têm investido no assunto, em parcerias com universidades e organizações não governamentais, mas, para funcionar a contento, as aulas devem ser constantes e tratar das competências e estratégias próprias da função.

Eventualmente o coordenador se vê obrigado, por exemplo, a participar das mesmas reuniões dirigidas aos professores. O Ministério da Educação (MEC) criou em 2009 uma pós-graduação lato sensu de educação a distância em coordenação pedagógica, que já formou 1.489 profissionais, entre aqueles locados nas escolas e os das diretorias regionais de ensino.

O projeto do curso disponibilizado no site do MEC afirma que “um flagrante desvio de função, associado à preocupação constante com o desempenho escolar e à rotina de trabalho burocratizado, produz -incertezas entre os coordenadores pedagógicos (…) promovendo uma indefinição na identidade desse profissional, fato que gera conflitos e disputas no interior da escola”.

“Quando começam, muitos não sabem como articular o trabalho da equipe ao projeto político-pedagógico da escola”, comenta a professora Zélia, da Ufpe. Equivocadamente, alguns creem que é preciso ter conhecimento específico nas áreas estudadas – Língua Portuguesa, Física ou Geografia, por exemplo. “Ele tem é de -saber como o professor pode transformar esses conteúdos em ensino para que o aluno avance”, reforça Laurinda.

A coordenadora pedagógica Ires Rosa Fiorese, da Escola Municipal do Caic Candido Portinari, em Curitiba, elogia a iniciativa da Secretaria de Educação, que passou a oferecer, neste ano, cursos de formação para profissionais de seu setor, divididos por área. “As aulas ocorrem duas vezes por mês e têm me ajudado a orientar os docentes no trabalho dos diversos conteúdos em sala.”

Ela é responsável, no turno da manhã, por orientar 70 professores do 6o ao 9o ano, e, à tarde, outros 70 que lecionam da pré-escola ao 5o ano. Outras quatro pedagogas – como é chamado o coordenador no município – cuidam somente do atendimento aos pais e aos alunos.

A diversidade de modelos encontrados torna o cenário ainda mais confuso para esse educador. Em algumas instituições, eles são poucos para muitas turmas, inclusive de segmentos variados. Outras sequer contam com ele.

É o caso do Colégio Estadual Assis Chateaubriand, em Salvador. “O último coordenador se aposentou há quatro anos e desde então a Secretaria de Educação não designou um novo funcionário”, explica a diretora Noemi da Silva Calmon, que admite a importância dessa função para cuidar da parte pedagógica. Em compensação, o colégio tem três vice-diretores, um para cada turno, e os professores de cada área se reúnem semanalmente sendo orientados por um colega, o professor articulador.

A diretora de ensino de Educação Básica da Secretaria de Educação do Estado da Bahia, Ana Lúcia Gomes da Silva, diz que o fato da rede ser muito grande contribui para a ausência de profissionais. Segundo a diretora, porém, as diretorias regionais incluem um coordenador e um professor por área, que fazem o acompanhamento e o monitoramento de ações pedagógicas, bem como a articulação de projetos de seis a oito escolas da região.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental