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Um estudante de 14 anos, uma pistola de uso restrito da Polícia Militar, dois adolescentes mortos, quatro feridos à bala, entre eles uma garota paraplégica após o ataque. O lamentável episódio ocorrido no Colégio Goyases, em Goiânia, na sexta-feira 20, traz a amarga lembrança de outras duas tragédias em comunidades escolares. Em depoimento à Polícia Civil, o atirador afirmou vingar-se do bullying praticado por colegas e admitiu ter se inspirado no massacre de Realengo, em 2001, quando um ex-aluno armado com dois revólveres executou 12 jovens em uma escola carioca, e o morticínio em Columbine, nos Estados Unidos, com 12 alunos e um professor assassinados em 1999.


As reais motivações e circunstâncias do ataque em Goiânia seguem sob investigação, mas o crime acendeu um sinal de alerta para os educadores. Apesar de o Brasil ter um programa nacional de combate ao bullying, instituído pela Lei nº 13.185, sancionada pela presidenta Dilma Rousseff em 2015, boa parte das medidas previstas jamais saiu do papel, como a produção e divulgação de relatórios bimestrais das ocorrências nas redes de ensino estaduais e municipais para o planejamento de ações preventivas e de proteção às vítimas. Da mesma forma, os professores e as equipes pedagógicas seguem tateando no escuro, sem uma estratégia bem definida para lidar com os casos de intimidação e para mediar os conflitos entre os alunos.

No texto da lei, o bullying é entendido como uma intimidação sistemática, baseada em atos de violência física ou psicológica, praticados de forma intencional e repetitiva, sem motivo aparente. Os agressores visam infligir dor e angústia às vítimas, valendo-se de uma relação de desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas. “No mundo adulto, seria como o assédio moral praticado no ambiente de trabalho. Nas escolas, essa perseguição tem outras implicações”, afirma Cléo Fante, doutora em ciências da educação e autora do livro Fenômeno Bullying: Como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz (Editora Verus). Segundo a especialista, as vítimas costumam apresentar queda no rendimento escolar e na frequência às aulas, dificuldade no processo de socialização, além de sofrer abalos psicológicos e problemas de saúde. Nem sempre, elas reagem com violência. Na maioria dos casos, sofrem caladas.

Como em qualquer outro agrupamento humano, a escola não está imune aos conflitos interpessoais. É possível, porém, quando surge uma desavença, lidar com ela de forma inteligente. É por meio dos conflitos que as crianças e adolescentes têm a chance de se colocar no lugar do outro e aprender a falar o que pensam e sentem de forma respeitosa, observa Vanessa Fagionatto Vicentin, doutora em Psicologia Escolar pela USP e autora do livro Quando Chega a Adolescência (Mercado de Letras). “Na visão construtivista, as crianças não nascem sabendo dialogar e trocar pontos de vista de forma harmônica. É natural que agridam ou permitam ser agredidas até que cheguem à conclusão de que existem formas mais evoluídas de resolver desentendimentos”, ressalta a especialista, no artigo “O carimbo do bullying“, publicado no Carta Educação.

As vítimas de bullying apresentam queda na aprendizagem e na frequência às aulas

Nem sempre os conflitos evoluem para uma resolução pacífica, e as escolas precisam estar atentas. A recomendação dos especialistas é de que toda a comunidade escolar, incluídos os docentes e as famílias, desenvolvam um trabalho orientado para a convivência pacífica. “É preciso promover debates, abrir espaço para que os estudantes falem sobre si, de seus sentimentos e emoções”, diz Fante. “As crianças não entram nas escolas apartadas de sua realidade. Levam consigo o pai alcoólatra, os episódios de violência doméstica, a privação financeira em seus lares, os problemas de seu cotidiano.”

Não por acaso, algumas redes de ensino têm investido em projetos de mediação de conflitos. Com mais de 5 mil escolas e 4 milhões de estudantes, a rede paulista anunciou em 2016 a ampliação do Programa Professor Mediador. De acordo com a Secretaria de Educação de São Paulo, cada unidade tem ao menos um profissional capacitado para buscar soluções pacíficas para desavenças entre os alunos. No caso de 1,7 mil escolas situadas em bairros mais violentos ou com maior vulnerabilidade social, o governo pretende alocar ao menos dois “mediadores”.

Para Fante, a iniciativa é válida, desde que os profissionais tenham reais condições de atender a demanda e contem com suporte. Quando não é possível resolver os conflitos dentro das escolas, é preciso recorrer à rede de proteção às crianças e adolescentes, como os conselhos tutelares. Também é fundamental notificar os episódios de violência às secretarias de Educação. Embora a Lei Antibullying determine a divulgação dos relatórios bimestrais de ocorrências, a subnotificação impera.

Com efeito, o Brasil nem sequer conhece a real dimensão do problema. Em 2015, a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), criada por iniciativa do braço de educação das Nações Unidas (Unesco), consultou 6,7 mil estudantes de sete capitais brasileiras. Resultado: quatro em cada dez alunos do 6º ano do ensino fundamental ao 3º do ensino médio relataram ter sofrido violência física ou verbal dentro da escola no ano anterior. Em 65% dos casos, o agressor era um colega. Trata-se do mais relevante e atualizado levantamento sobre o tema.

Nem toda ofensa ou agressão configura, porém, a prática de bullying, entendido como uma intimidação sistemática e persistente. “O Brasil ainda engatinha na compreensão do fenômeno”, lamenta Fante. Segundo a especialista, os educadores brasileiros tendem a intervir somente depois que o problema se manifesta. Em nações como Finlândia, Noruega e Suécia, o foco é na prevenção. “As crianças também absorvem a lógica de guerra impregnada em certos locais, como o Rio de Janeiro, entregue a uma grave crise de segurança. Para enfrentar o bullying e atenuar os seus impactos, precisamos fomentar uma cultura de paz, orientada para uma convivência saudável.”