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um sonho intenso

Uma câmera trêmula registra em tons sépia o vaivém de sacas de café, de trabalhadores vestidos de branco e de grandes navios atracados no Porto de Santos, no litoral paulista. O ano é 1929, registrado na história da economia mundial como o ano do crash da Bolsa de Nova York. É também um ano-chave para o Brasil. Pouco depois, em 1930, um membro da elite gaúcha chamado Getúlio derrubou a República Velha (1889-1930) e inaugurou a Era Vargas.


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A década de 1930 é essencial para se entenderem as bases sociais, políticas e econômicas que construíram o Brasil de hoje. É também o ponto de partida do filme Um Sonho Intenso, documentário dirigido por José Mariani que se propõe a analisar o processo de desenvolvimento econômico do País a partir da fala de pensadores como Carlos Lessa, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Maria da Conceição Tavares, professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o diplomata Celso Amorim, ministro da Defesa, e Luiz Gonzaga Belluzzo, professor da Unicamp e consultor editorial de CartaCapital.

O filme nasceu a partir de outros dois documentários do cineasta, Cientistas Brasileiros e O longo Amanhecer. O primeiro trata da história de dois físicos nucleares brasileiros, César Lattes e José Leite Lopes. “Eles, ao lado de outros de sua geração, tinham um projeto do Brasil como nação”, conta Mariani. “Eu quis fazer um segundo filme sobre essa geração que pensa o Brasil do ponto de vista social.” O pensamento desenvolvimentista dos cientistas levou o diretor às ideias do economista Celso Furtado (1920-2004), objeto de análise de outro documentário de Mariani, O Longo Amanhecer, filmado em 2007.

O filme conta a trajetória de vida do economista, autor do clássico Formação Econômica do Brasil, ao mesmo tempo  que repassa os principais momentos da história política e econômica do Brasil. Apesar de tratar de temas econômicos e históricos, o filme tinha como personagem principal o próprio Celso Furtado.

Assim, em Um Sonho Intenso, a proposta era fazer uma espécie de “história comentada” das trajetórias do processo de desenvolvimento econômico do País de 1930 até meados dos anos 2000, a partir da fala de 11 economistas, cientistas políticos e sociais – e não de lideranças políticas envolvidas diretamente.

“Eu não queria filmar os protagonistas do processo”, diz Mariani, professor do curso de Cinema da PUC-Rio. “Cada ator, caso estivessem todos vivos, daria um registro testemunhal, falaria dos seus feitos, e não um registro reflexivo.” Em vez disso, o diretor optou por longas sessões de entrevistas com pensadores reconhecidos no campo da esquerda econômica.

“São todos discípulos, em certo sentido, do Celso Furtado. Ao mesmo tempo, esse conjunto de cientistas sociais, políticos e economistas não pensa em bloco, pois eles têm divergências, nuances, ainda que sejam divergências dentro do campo da esquerda ou centro-esquerda”, analisa ele. “O que eu tentei construir foi uma espécie de história comentada. Ou seja, contada do ponto de vista de um conjunto de pessoas que têm densidade, que pensam essas questões há muitos anos.”

Na recepção do hotel ao lado da Universidade Mackenzie, onde o filme seria exibido em seguida para uma plateia de estudantes de Direito, Mariani conta que o desafio do documentário foi abarcar, sem ser superficial, um grande mosaico do percurso cheio de revezes, crises, avanços e retrocessos que marcam a história socioeconômica do Brasil. “Eu busquei um filme denso, panorâmico sem ser superficial.”

Apesar do tema considerado árido, o documentário intercala depoimentos com cenas de época – como Vargas desfilando no Pacaembu ou Lula discursando para trabalhadores em greve no ABC Paulista da década de 1980 – e com filmagens panorâmicas. Uma delas consegue capturar uma contradição econômica brasileira explicitada em outros momentos do documentário, a convivência entre desenvolvimento e subdesenvolvimento: a favela de Paraisópolis, uma das maiores de São Paulo, ladeada de prédios luxuosos.

Filmado ao longo de 2012, o documentário passou a ser exibido desde abril no circuito universitário em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. A expectativa é de que a estreia, no circuito comercial, acontecerá nos próximos meses. Depois, haverá lançamento em DVD. “O professor ou interessado pode acompanhar as novidades no site do filme”, avisa Mariani.

Um Sonho Intenso: 
o que dizem os entrevistados

“Nós temos dificuldades de falar de Vargas porque ele foi ditador. Entretanto, ele é o grande construtor do Estado brasileiro. Não há nenhuma instituição, salvo o Banco Central, que não tenha o toque varguista. O grau de atuação do Estado orientando as forças econômicas e até criando-as tem pouco paralelo no mundo chamado subdesenvolvido.”
Francisco de Oliveira, sociólogo

“Darcy Ribeiro escreveu que o Brasil iria ser uma democracia original dos trópicos e eu realmente acreditei. Até hoje, estamos esperando o ‘original’, 
mas está vindo, viu?”
“O programa desenvolvimentista brasileiro foi uma modernização conservadora. 
Ponto, parágrafo.”
Maria da Conceição Tavares, economista 
e professora 
emérita da UFRJ

“Acho que a História é sempre um mergulho no passado para entender o presente. Já é difícil entender o presente e é particularmente difícil prognosticar o futuro. Tanto que essa é a armadilha que, de certa maneira, captura o chamado pensamento econômico. Ele é razoável para explicar o presente, lançando mão da economia política é possível explicar como se formou o presente, mas é extremamente difícil pensar o futuro.”
Carlos Lessa, 
economista e 
ex-presidente do BNDES 

“O Brasil é um país muito 
desigual, nunca conseguiu 
ter um grande movimento 
social de caráter nacional que conseguisse unificar uma plataforma nacional e levar 
a um novo compromisso de classes. Mas, sem dúvidas, 
o que nos faltou tenha 
sido a radicalidade de uma ruptura que tenha levado 
a necessidade de um compromisso histórico para uma 
nova sociedade.”
Lena Lavinas, economista 
e professora
 da UFRJ