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Laurentino Gomes
Laurentino Gomes: "acho que muito da crise que estamos vivendo hoje tem a ver com identidade nacional"

Imagine que, num dia qualquer, os brasileiros acordassem com a notícia de o presidente ou a presidenta havia fugido para a Austrália, sob a proteção de aviões da Força Aérea dos Estados Unidos.


Com essa situação hipotética um tanto absurda, o jornalista Laurentino Gomes, seis vezes ganhador do Prêmio Jabuti de Literatura, começa o seu 1808 e faz o leitor colocar-se no lugar do povo português na manhã de 29 de novembro de 1807, quando descobriram que a rainha, o príncipe regente e toda a corte estavam fugindo para o Brasil sob a proteção da Marinha britânica.

Publicado em 2008 e narrado em linguagem acessível, o livro que aborda a chegada da família de dom João ao Rio de Janeiro tornou-se um verdadeiro fenômeno editorial e, este ano, ganha nova dimensão ao pautar um programa cultural.

O projeto ‘Era uma Vez… Brasil’, idealizado pela Origem Produções, envolverá 10 mil alunos dos oitavo e nono anos da rede pública municipal das cidades de São Paulo, Novo Horizonte (SP), Salvador (BA), Rio de Janeiro e Belo Jardim (PE) para discutir e realizar diversas ações relacionadas a esse turbulento período da história brasileira.

O programa, lançado na terça-feira 15, se estenderá por nove meses e trará atividades de capacitação do corpo docente, oficinas de pesquisa, leitura, produção de histórias em quadrinhos e vídeos. Além disso, os melhores colocados durante o processo terão a oportunidade de realizar um intercâmbio cultural em Lisboa, Portugal.

Por 10 dias, 100 estudantes percorrerão os lugares frequentados pela corte portuguesa com a curadoria do próprio Laurentino Gomes. Para o escritor, será um momento valioso para os estudantes entenderem a atual conjuntura política e social do País. “Para entender a sociedade brasileira que temos hoje é preciso observar o momento da fundação nacional, o nosso DNA, o nosso código genético. São características que, apesar de todas as transformações pelas quais o Brasil passou, permanecem”, observa.

Segundo Laurentino, a escolha da obra como tema do intercâmbio é oportuna, já que 1808 pode ser considerado o momento da invenção do Brasil como nação independente. Durante 300 anos, diz, o Brasil foi uma grande fazenda extrativista de Portugal, um lugar dominado pelo latifúndio, pelo analfabetismo e pela escravidão.

“Estima-se que 99% da população brasileira fosse analfabeta quando a corte portuguesa chegou. E o Brasil foi o maior território escravagista da América, 40% de todos os escravos da África vieram para o Brasil”, conta. Logo, a chegada da família real portuguesa pode ser vista como um ponto de virada que desencadeou diversas mudanças estruturais.

Lisboa, Portugal
O programa levará 100 estudantes para Lisboa como parte de um intercâmbio cultural

Mais do que aprender sobre o passado, a iniciativa também tem como proposta a reflexão da situação atual do País. Segundo Laurentino, não se estuda História apenas com um “caráter de entretenimento”, para se conhecer personagens curiosos do passado. A História tem uma função social importante, pois constitui-se como uma ferramenta de identidade. “É olhando para o passado que nós entendemos quem nós somos hoje”, explica.

Nesse sentido, é importante conhecer os fatos históricos para não só traçar nossa identidade de outrora, mas também aquilo que gostaríamos de ser enquanto nação. “Acho que muito da crise que estamos vivendo hoje tem, sim, a ver com política, economia, corrupção, mas também tem a ver com identidade nacional“.

Para o escritor, o estudo da História ajuda a responder perguntas essenciais na busca por essa identidade. “Por exemplo, somos um povo violento ou pacífico? Existe uma mitologia de que o brasileiro é cordato, mas entre as 50 cidades mais violentas do mundo, 19 estão no Brasil. Somos um povo honesto ou corrupto? Este mito de que o povo brasileiro é trabalhador, honesto. Mas a corrupção está só no Estado ou permeada na sociedade brasileira, no famoso jeitinho? Não é um reflexo de como nos comportamos na nossa vida privada?”, questiona o jornalista.

Depois de 1808, Laurentino publicou as continuações 1822, sobre a independência do Brasil, e 1889, sobre a proclamação da República. Suas obras, ao todo, venderam mais de 2 milhões de exemplares no Brasil, em Portugal e nos Estados Unidos. Um marco significativo se tratando de um livro de História.

Sobre esse feito e o desafio de despertar o interesse dos jovens pelas aulas de História que tratam de períodos mais longínquos do Brasil, Laurentino opina: “Acho que a gente codificou demais a linguagem. Até porque tem o sistema de avaliação que exige que você decore para passar na prova, no Enem. Então o conhecimento, a aventura da humanidade, que deveria ser uma coisa fascinante para o estudante vira uma obrigação e um peso”.

E como avivar esse interesse? “Como jornalista, uso como truque para atrair e reter a atenção do leitor elementos bem humorados, curiosos, pitorescos da história, mas não posso ficar só nisso. Tenho de dar um mergulho maior. Acho que uma forma é usar esses elementos para provocar a curiosidade dos estudantes”, conta. “A História do Brasil não se resume, por exemplo, a falar que Dom João não tomava banho e que a Carlota Joaquina era uma mulher terrível, claro, mas ajuda a atrair a atenção da garotada, como se fosse uma isca”.

As inscrições para participar do projeto em São Paulo estarão abertas até o dia 15 de abril, para estudantes das escolas parceiras indicadas pelas secretarias de Educação de cada cidade. O regulamento está disponível no site oficial.