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Com seu chão de concreto recentemente pintado de verde e amarelo e casas encostadas e sobrepostas divididas em grupos pelos três escadões que a recortam, a Viela da Bica é um endereço comum para os moradores de Capão Redondo, na zona sul de São Paulo. A via sem saída onde vivem dezenas de famílias, no entanto, não tem CEP e não aparece nos mapas do Google. São casos assim que inspiraram a criação do aplicativo Wikimapa, que preenche lacunas da cartografia oficial em locais normalmente conhecidos apenas como pobres e violentos.


A tecnologia foi desenvolvida pela ONG Rede Jovem, do Rio de Janeiro, em 2009 e acaba de ganhar nova versão após o documentário Todo Mapa Tem seu Discurso, em que a organização social e os usuários falam das descobertas feitas nos primeiros anos da ferramenta. “Nos guias das cidades, as favelas eram sempre mostradas como áreas a evitar. No noticiário apareciam como rotas de fuga ou local violento e queríamos mostrar que tem muita coisa boa nesses lugares”, conta a diretora-executiva, Natalia Santos.

Ela lembra que a intenção inicial era usar como base uma cartografia on-line para criar um mapa colaborativo de equipamentos de lazer, cultura, esporte e outros pontos de interesse desconhecidos. A ideia foi frustrada por falta de material básico. “A gente se deparou com um fato cruel: a favela não estava no mapa, foi aí que surgiu a primeira missão que a nova tecnologia teria, a de mapear”, conta.

Na etapa piloto foram contratados cinco jovens, cada um morador de uma comunidade carioca: Complexo do Alemão, Cidade de Deus, Morro Pavão-Pavãozinho e Complexo da Maré. Todos os dias, eles saíam pela vizinhança com celulares com GPS na mão marcando os nomes dos endereços e o que eles ofereciam de comércio, serviços, atividades comunitárias e lazer. O mapa está disponível em aplicativo para celular e no site www.wikimapa.org.br e traz também um blog com informações complementares, entrevistas com moradores e fotos.Em 2010, o programa ganhou um dos principais prêmios internacionais de tecnologia para celulares, o Mobile Premier Award, que impulsionou o reconhecimento e apoio para expandir a plataforma. “Viramos fonte de informação de outras instituições sociais interessadas em investir nas comunidades e que não tinham uma galeria para consultar o que já existia e quais eram as carências reais.”

Entre 2011 e 2013, o projeto foi ampliado com mais jovens no Rio e uma equipe em São Paulo. Entre eles, Andreza Delgado, que até o ano passado morava na Viela da Bica, no Capão Redondo, com a mãe, o padrasto e três irmãos. “Para as escolas do bairro onde estudei, por exemplo, a gente já informava o endereço certo, mas, para correspondência, no meu currículo ou para qualquer coisa fora de lá, todo mundo tem de falar outro lugar”, diz.

Andreza conta que a primeira reação dos moradores e comerciantes era de medo. “Muitos temiam que tivessem de pagar mais impostos”, lembra. Aos poucos, conforme entendiam do que se tratava, o efeito era de contentamento por passar a constar em um mapa. “Distribuíamos um adesivo que passou a ser motivo de orgulho”, lembra. Em um ano, 20 logradouros foram acrescentados ao bairro, mas o que mais chamou sua atenção foram as opções de lazer. “O Capão Redondo tem muita atividade cultural, eu como moradora conhecia um pouco, mas ainda me surpreendi. Não sabia, por exemplo, que tinha uma Companhia de Balé.”

Aos poucos, personagens anônimos começaram a postar informações na plataforma colaborativa que hoje tem mais de 5 mil usuários de 150 cidades do mundo. A engenheira cartógrafa Arlete Meneguette, pesquisadora da Unesp, estuda aplicativos que permitem a adição e edição de elementos sobre mapas on-line, uma forma de incentivar o uso e o conhecimento dos espaços e estudos da sociedade. “Eles favorecem a participação do cidadão sobre as cidades. Alguns locais passaram depois a ser observados também nos mapas oficiais e isso muda a visão que esses bairros têm e que se tem deles.”

No documentário Todo Mapa Tem seu Discurso, da Rede Jovem, os “vazios cartográficos” são analisados. Moradores das favelas falam da sensação de pertencimento ao aparecer nos mapas e da questão política de não figurar nas grandes plataformas. “Existe uma população que é invisível porque não está em nenhum documento que deveria representar toda a cidade”, diz a presidente das Redes de Desenvolvimento da Maré em um dos vários depoimentos de lideranças sociais, especialistas em cartografia e tecnologia.

A Rocinha, reconhecida como bairro pela prefeitura do Rio de Janeiro desde 1993, chegou a ter sua menção no Google alterada de “favela” para “morro” às vésperas da Copa do Mundo. Agora consta com o nome próprio, sem indicativo do que se trata. No miolo, apenas a Estrada da Gávea com alguns cruzamentos sem identificação. No Wikimapa, são dezenas de ruas, praças e vielas e centenas de pontos como lan houses, organizações sociais e equipamentos públicos escolares.

Mantida a prioridade de colocar no mapa estabelecimentos e iniciativas positivas, a ferramenta começou uma segunda versão em 2014 com opção para marcar também problemas e espaço para outras comunidades sugerirem projetos. “Desde o começo, muitas pessoas perguntavam por que não havia espaço para isso, mas queríamos evitar que a vocação fosse alterada e os pontos fossem predominantemente problemas. Agora achamos que podemos atender”, conta Natalia.

A plataforma também ganhou possibilidade de compartilhamento via redes sociais e customização por usuários conforme os endereços e interesses. “Se alguém vê um local de acúmulo de lixo abandonado pode acrescentar. Ao mesmo tempo, uma cooperativa que deu uma solução para algo semelhante em outra região pode postar sua experiência”, afirma Natalia. Segundo ela, é uma aspiração da ONG que o material seja incorporado pelos mapas oficiais. “Não queremos só fazer um mapa das favelas, mas incluir as favelas nos mapas.” •