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Por Carol Scorce


Vandalismo mórbido?

Deu-se ontem um fato que caracteriza bem a mentalidade de certa gente. Um tolo inconfessável foi à exposição do pintor Lasar Segall e, aproveitando um momento de ausência do guarda da exposição, estragou uma das obras expostas, o “Autorretrato n. 2”, furando-lhe os olhos. Sem dúvida, isso não deprecia em nada uma cidade como a nossa, que se preza de civilizada. Fato mais ou menos idêntico se deu há uns dois anos em Buenos Aires, na exposição do pintor modernista Pettoruti. Indivíduos há cujo o desejo de ser alguma coisa leva a um despeito verdadeiramente doentio. São esses que se assanham assim diante das obras cujo valor são intimamente obrigados a reconhecer e, diante desses artistas, cujo o poder criador e a imagem do que eles desejariam ser. Não se pode explicar de outra maneira o ódio estúpido, que provocou o vandalismo de ontem. Afinal, dentre as muitas provas de apreço que Lasar Segall tem recebido, por certo o atentando de ontem não é a menor, só mesmo os artistas de importância podem despertar invejas dessa natureza.

 Diário Nacional 18/1/1928

O texto acima não causaria assombro se fosse publicado hoje como crônica de censura e ataque às artes recentemente promovidas por grupos e indivíduos conservadores e extremistas.  Ironicamente, hoje o texto é peça de museu, e tem valor como a crônica de que a história – especialmente quando enterrada ou mal compreendida – se repete, a primeira como tragédia e a segunda como farsa, como diz o filósofo socialista Karl Marx – não menos causador da celeuma conservadora.

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Em cartaz até 30 de abril de 2018, A “Arte Degenerada” de Lasar Segall: Perseguição à Arte Moderna em Tempos de Guerra, em cartaz no Museu Lasar Segall – onde o texto acima está exposto -, resgata outra mostra, que completa 80 anos em 2017. Em 19 de julho de 1937, o governo alemão de Adolf Hitler inaugurou em Munique a mostra Arte Degenerada (Entartete Kunst, em alemão), que levava ao público cerca de 650 obras de arte moderna confiscadas de museus públicos espalhados pelo país. Selecionadas por uma comissão coordenada pelo presidente da Câmara de Artes Plásticas, Adolf Ziegler, sob orientação direta de Hitler, as peças serviam como exemplo das manifestações artísticas condenadas pelo regime. Dentre os 112 artistas com trabalhos expostos estavam Marc Chagall, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Piet Mondrian, Max Ernst, Otto Dix e Lasar Segall.

Entre 1937 e 1938, Segall teve 49 obras confiscadas de museus públicos alemães. Dessas, 11 participaram da exposição Arte Degenerada: três pinturas a óleo e oito gravuras. A mostra do Museu Lasar Segall traz 24 gravuras e a única tela que sobreviveu aos nazistas, Eternos Caminhantes, de 1919. A curadoria é da professora do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP Helouise Costa e do pesquisador do Museu Lasar Segall Daniel Rincon.

Segundo Daniel a ideia do Terceiro Reich com a exposição de 1937 era fazer uma ação publicitária, de maneira a condenar e perseguir artistas ligados aos movimentos socialistas e democráticos da época, além dos judeus, e afirmar a lógica opressora daquilo que se podia pensar e sentir diante de uma obra de arte. A publicidade funcionou. A exposição foi a mais visitada do século XX na Europa, atraindo aproximadamente três milhões de pessoas em locais diferentes por onda a exposição circulou até 1941.

Já a ideia dos curadores do museu na Vila Mariana é resgatar a história da perseguição à arte moderna na Europa e no Brasil, enquando o movimento se apresentava como vanguarda, e mostrar que a relação e reação do público e dos sistemas políticos e sociais da época não foi ponto pacífico.

Em 1937 o regime nazista inaugura também, em frente a exposição de arte considerada degenerada, a Mostra de Arte Sancionada, em tese de artistas validados pelo regime nazista. “Não havia por parte dos organizadores a convicção sobre cada obra. Nos primeiros dias da Mostra de Arte Sancionada residiam trabalhos de autores que também estavam presentes entre os degenerados. Era uma ação de propaganda para aquilo que o nazismo pretendia ser”, explica o curador.

Daniel, que é pesquisador do museu Lasar Segall, conta  do relato de um brasileiro que esteve na exposição de arte degenerado na Alemanha e que tomou notas do evento. “Este brasileiro disse que tomava notas escondidos, e foi interrompido por um guarda avisando que aquela atitude não era bem-vinda. Ele parou, e observando com calma viu que outras pessoas faziam o mesmo, nos levando a crer que exposição não era visitada apenas por simpatizantes da propaganda nazista, embora a reação de cada um fosse controlada.”

No Brasil

No início do século XX e mesmo antes da exposição de 1937 em Munique, a perseguição aos modernistas já ecoava com força no Brasil. Obras, cartas, manuscritos, documentam, entre outras, a mostra A Arte Condenada Pelo Terceiro Reich, promovida em 1945 pela galeria carioca Miécio Askanasy, judeu polonês amigo de Segall, como movimento de resistência às perseguições. “De modo geral, o movimento modernista no Brasil é contado de maneira a abrandar os conflitos, como se desde sempre houvesse consenso sobre aquilo que os artistas estavam fazendo. Mas houve muito ataque, dos que não compreendiam e repudiavam e dos que perseguiam e condenavam porque se alinhavam aos nazistas e fascistas. Na contramão, outros movimentos”, acrescenta Daniel.

A exposição A “Arte Degenerada” de Lasar Segall: Perseguição à Arte Moderna em Tempos de Guerra tem visitação gratuita, de quarta a segunda-feira, das 11 às 19 horas. O Museu Lasar Segall fica na Rua Berta, 111, na Vila Mariana, em São Paulo.