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Merenda

Olha, diretor, eu comi tudo!”, grita o aluno, batendo com orgulho na barriga. O diretor explica: a criança costumava rejeitar grande parte do que lhe era oferecido para comer, mas agora não deixa de fazer as refeições na Emei Tomás Gualhardo. A escola municipal, localizada na zona leste de São Paulo, realiza atividades pedagógicas específicas relacionadas com a hora das refeições. Uma delas é o projeto horta, em que as crianças acompanham todo o processo de desenvolvimento de verduras e legumes depois levados para ser preparados na cantina. O que sobra, como cascas de cebola e batata, vai para a composteira e é transformado em adubo.


O projeto começou em 2010 e contou com a ajuda de um engenheiro agrônomo e de outro diretor de escola, responsáveis pelas sementes e mudas e pela inspiração do projeto. Além da horta, com alface, rúcula, cenoura e beterraba, a escola fala sobre alimentação em sala de aula e estabeleceu um cantinho na área das refeições para exposição dos alimentos antes da preparação. “Expor os alimentos que serão cozidos foi ideia das professoras”, conta o diretor Edgard Ferreira Júnior. A direção também aumentou em 25 minutos a hora das refeições e percebeu uma mudança de atitude por parte dos alunos. Além de pedir mais frutas e legumes, eles passaram a desperdiçar menos comida.

Trazer os alimentos para dentro da sala de aula também foi a aposta da escola municipal Emei Profª. Irene Manke Marques para uma alimentação mais saudável. Kátia Regina de Almeida, diretora da escola, percebeu que era comum as crianças rejeitarem os alimentos que desconheciam ou que nunca haviam provado antes. A partir da constatação, a equipe do colégio desenvolveu um projeto de degustação: todos os dias, um pouco antes do horário do almoço, os alunos se dispõem em fila diante do professor para provar um alimento que estará presente no cardápio do dia.

“Observamos quais são os alimentos menos populares e então oferecemos a degustação em sala de aula. A ideia é que as crianças possam ir, aos poucos, se familiarizando com o gosto e outros aspectos daquele alimento”, explica. “Hoje o item a ser degustado é o abacaxi, que será a sobremesa do dia. Ninguém é obrigado a provar, mas a maioria vê os coleguinhas provando e fica curiosa para saber como é.”

Além de frutas, o trabalho é feito com legumes, verduras e até mesmo peixe. Aliás, a aceitação desse último item na escola é um orgulho à parte da equipe pedagógica. “Antes, a rejeição era enorme, mas por meio das degustações e do Projeto Alimentação Saudável conseguimos reverter esse quadro”, conta a coordenadora pedagógica Rosimeire dos Santos Cardoso. Para isso, a escola desenvolveu uma série de atividades pedagógicas que aproximaram o alimento do dia a dia das crianças. “Fizemos rodas de conversa e painéis sobre a importância do peixe para a nossa alimentação e até uma pescaria esportiva, em que os alunos tinham de pescar peixes de papel em caixas de areia. Eles gostaram tanto que isso se refletiu no aumento do consumo do peixe nas refeições”, conta Kátia.

Os bons resultados alcançados por essas duas escolas reforçam a crença de Walter Belilk, professor do Instituto de Economia da Unicamp e ex-coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação Escolar (Nepa) da universidade, de que a alimentação é um processo de aprender a gostar. “Se a criança não come verdura em casa porque não tem hábito, é de certa forma um dever da escola apresentar esse produto e ensiná-la a comer de modo mais saudável.”

Hoje, a comida chega ao prato de alunos das escolas públicas por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Mais antigo programa social do governo federal na educação, o Pnae funciona de forma descentralizada e articulada com estados e municípios, repassando recursos para que as prefeituras comprem e preparem os alimentos para 45 milhões de alunos da Educação Básica e na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2012, o orçamento do Pnae foi de 3,3 bilhões de reais.

Na rede municipal de São Paulo, os cardápios são elaborados e repassados para as escolas pelo Departamento de Merenda Escolar (DME). Os alimentos são escolhidos a partir de critérios qualitativos e quantitativos: o produto precisa atender às exigências nutricionais, técnicas e legais, como precisa estar disponível em larga escala e regularmente. “Há a preocupação de oferecer alimentos variados e nutritivos para criar hábitos alimentares saudáveis nas crianças, que muitas vezes acabam influenciando a alimentação dos pais”, explica Erika Fischer, diretora do DME.

É proibida, por exemplo, a aquisição de bebidas com baixo valor nutricional e a compra deve ser restrita para alimentos enlatados, embutidos, doces, alimentos compostos, preparações semiprontas (ou prontas) ou alimentos concentrados com quantidade elevada de sódio ou gordura saturada. Do total repassado pelo governo federal para os municípios por meio do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), 70% dos recursos devem ser destinados à compra de produtos alimentícios básicos, ou seja, semielaborados e in natura. Além disso, desde 2009, 30% dos alimentos destinados à merenda devem ser provenientes da agricultura familiar, priorizando os assentamentos de reforma agrária, as comunidades indígenas e quilombolas.

As diretrizes para a alimentação escolar, no entanto, são muitas vezes ignoradas. A merenda servida no estado de Santa Catarina, por exemplo, é alvo de denúncia feita pelo Conselho Estadual de Alimentação Escolar ao Ministério Público Federal. Desde 2009, o órgão de controle do Pnae vem reprovando os serviços de alimentação escolar oferecidos no estado após observar uma série de irregularidades, que vão desde problemas de infraestrutura até a presença de alimentos inapropriados para o consumo. “Os cardápios repassados pelo governo não são seguidos à risca, as cozinhas apresentam estrutura física inadequada e não seguem a legislação determinada pela Anvisa e o Pnae.

Além disso, não há o cumprimento da lei que determina que 30% da merenda deve ser proveniente da agricultura familiar”, aponta Fátima Fuhro, presidente do Conselho Estadual de Alimentação Escolar. “Observamos ainda equipamentos inadequados, funcionários mal treinados, além de alimentos estragados e industrializados que não são permitidos.”

Há também grandes diferenças regionais na qualidade da comida e nas condições oferecidas para os alunos se alimentarem. Estudo realizado pelo Instituto de Pesquisas Aplicadas (Ipea) em 2011 mostrou que, embora a qualidade das refeições tenha sido classificada positivamente por 59% dos 2.773 entrevistados, a percepção varia de acordo com a região observada. No Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a qualidade da merenda escolar servida aos alunos está acima da média nacional, com percepção de boa para 75%, 65% e 70%, respectivamente.

Já nas regiões Norte e Nordeste, a maioria classifica a merenda como regular (39% e 47%, respectivamente). A comida foi avaliada como ruim por 21% dos entrevistados da Região Norte. Alimentos com pouco sabor, horários inadequados, falta de refeitórios e utensílios inapropriados foram algumas das situações observadas por José Arimateia Barros Bezerra, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará, em escolas públicas do estado. Refeitório, por exemplo, é caso raro.

Segundo Bezerra, perto de 95% das escolas do estado nordestino não possuem um local adequado para os alunos fazerem as refeições. No caso dos estudantes menores, a comida é servida nas salas de aula. Já para os mais velhos a distribuição é feita no pátio, em pratos e canecas de plástico. A opinião dos alunos a respeito do tipo de alimento oferecido também não é levada em conta pelas escolas. “Ainda temos uma representação muito forte da merenda vinculada a um aluno carente, faminto. Isso é surpreendente diante da transição nutricional que está acontecendo no Brasil, da desnutrição para a obesidade”, analisa Bezerra.

Além das preocupações técnicas, uma das metas de Erika é transformar o momento da refeição em uma experiência pedagógica, integrando o alimento à educação do aluno. Entretanto, apesar dos esforços, o projeto por uma alimentação saudável dentro das escolas ainda esbarra em algumas questões, uma delas ligada aos hábitos alimentares das próprias famílias. “Não podemos proibir que o aluno leve salgadinhos ou doces de casa. As famílias estão sobrecarregadas e acabam não dando atenção aos alimentos que entram no lar.”

Apesar da redução da presença de cantinas nas escolas, alguns itens ainda podem ser encontrados na própria alimentação escolar. “Eu vi muita salsicha, enlatados, compostos de frango frito. Muitas vezes o feijão é de caixinha, não cozinhado na escola, e a bebida é refresco com corante, não um suco natural”, relata Estela Renner, diretora do documentário Muito Além do Peso, que mostra como mudanças no padrão de consumo alimentar das crianças brasileiras estão contribuindo para o aumento de sobrepeso entre elas. O vilão é a falta de informação. Estela lembra que uma diretora de São Paulo chegou a contar com orgulho que a comida da escola vinha enlatada. “Provavelmente, ela não tinha o conhecimento de que aquilo não era fresco, mas sim cheio de sódio.”

Segundo Walter Belik, a alimentação escolar ainda é tratada como assunto marginal, e encarada como um problema das cozinheiras. “Os professores não se envolvem com a questão da alimentação, não existe relação com o que foi servido e com o conteúdo trabalhado em sala de aula”, conta. O horário da merenda também é pouco valorizado e muitas vezes a comida é servida no horário de recreio. “Como a criança gosta de brincar, na hora da alimentação ela come rapidamente.” O especialista defende que a alimentação escolar seja um projeto integral dentro da escola, com os professores presentes para explicar o que significa a merenda, noções de higiene e até a origem da comida que está no prato.  Se  hábitos alimentares aprendidos nos primeiros anos de vida são os que ficam,  é hora de investir  nessa ideia.