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Lava-louça
Estudo na Suécia revelou que crianças com lava-louça em casa sofriam mais com a alergia

Por causa dos hábitos de higiene acumulados com as mudanças culturais e os avanços na medicina preventiva, a humanidade vive mais e melhor.


O fato sugere que colocar as crianças em uma redoma asséptica é boa ideia, mas pesquisas recentes mostram que a falta de contato mínimo com micróbios enfraquece o sistema imunológico e torna as pessoas mais alérgicas – mostrando que, em excesso, tudo, até mesmo higiene, é prejudicial.

A pesquisa mais recente sobre o assunto foi feita no começo de 2015 na Suécia com 1.029 crianças com idades entre 7 e 8 anos. Cientistas checaram quais delas sofriam com as alergias mais comuns – asma, eczema, rinite e conjuntivite – e cruzaram os dados com os equipamentos usados em suas casas. No grupo de estudantes que havia crescido em lares com máquina de lavar louça, havia 57% mais de alérgicos.

A alergia é uma reação exagerada do corpo. Em um sistema em que as defesas já foram testadas e sagraram-se vitoriosas, ela não costuma ocorrer. Quando o corpo não reconhece o agente estranho, porém, torna-se comum que o sistema de defesa reaja de forma ineficiente ou com uma carga mais forte do que seria o necessário, causando outros problemas.

O pediatra alergologista responsável pelo estudo, Bill Hesselmar, da Universidade de Gothenburg, afirmou que a hipótese do grupo é que a lavagem manual, por não incluir a esterilização por calor, seja menos eficiente na higienização e, por isso, melhor para o sistema imunológico.

É a chamada “hipótese da higiene”, que atesta que o contato com bactérias nos primeiros anos de vida aumenta as defesas imunológicas das crianças e reduz o risco de alergias.

As primeiras evidências de que o ser humano tem menos alergia quando entra em contato com algumas bactérias nos primeiros anos de vida começaram a surgir nos anos 1980.

Na época, foi constatado que os filhos caçulas tinham menos problemas alérgicos do que os mais velhos, por conta do sistema imunológico dos irmãos.

Em 2014, Matthew Perzanowski, pós-doutor em Saúde Pública pela Universidade da Califórnia, afirmou que a alergia “é uma epidemia pós-Revolução Industrial”.

Em uma das pesquisas mais famosas sobre o assunto, observou-se uma elevada quantidade de bactérias nos lençóis de crianças de 6 a 13 anos que viviam em fazendas na Alemanha, Suíça e Áustria. A pesquisa, realizada em 2002, concluiu que tais crianças apresentavam menos reações alérgicas. “A presença de micróbios fortalece o sistema imunológico”, concluiu.

Apesar das evidências, o assunto é tratado com parcimônia por médicos imunologistas. O motivo é evitar o risco dos educadores e responsáveis relaxarem demais na limpeza e acabarem abrindo a porta para doenças mais graves.

“A medicina não é uma ciência exata”, comenta Marcelo Bossois, coordenador do projeto Brasil Sem Alergia e pesquisador assistente do Departamento de Genética da Université Laval, no Canadá.

“Apesar do fato de que a exposição aos micro-organismos vai deixar a criança mais forte, é preciso tomar cuidado para que ela não pereça de alguma doença causada por este mesmo agente”, afirma.

Ele lembra que a evolução da expectativa de vida das pessoas deu-se pela forma como o homem aprendeu a cuidar do ambiente para evitar doenças. “Se colocarmos um macaco e um homem em um mesmo ambiente natural, com certeza o animal terá muito mais chances de sobrevivência a infecções. Ele tem um sistema imunológico muito melhor. Nosso ponto forte é o conhecimento para evitar estas infecções”, comenta.

Isso não significa que a alergia resultante de locais excessivamente limpos deva ser naturalizada. Pelo contrário, é uma questão que precisará ser cada vez mais observada, pois filhos de pais que desenvolveram alergia têm75% de chance de também ter a reação exagerada do sistema imunológico.

Assim, a tendência é que a epidemia se espalhe conforme as gerações se acumulam. “Aos poucos, o ponto de equilíbrio na balança vai ter de ser adaptado”, afirma o médico.

Para isso, é preciso permitir contato com o mundo natural, mas com cuidado e consciência. Deve-se oferecer às crianças oportunidade de pisar na grama, na areia e na terra, evitando que sejam áreas contaminadas e cuidando para que haja um bom banho depois.

“Ordenhar uma vaca, por exemplo, é uma ação que colocará a criança em contato com muitas toxinas positivas, mas, se os pais não sabem a situação do animal devem evitar isso pelo risco de contrair brucelose, que seria algo pior”, exemplifica Bossois.

Conhecer um pouco mais sobre as toxinas também pode ajudar a equilibrar a balança. Enquanto agentes naturais “treinam” os anticorpos para combater vírus e bactérias, produtos sintéticos como amaciantes de roupa e tinta resultam nas reações exageradas.

“Aí sim está algo que todos podem evitar: uso excessivo de produtos de limpeza no piso onde a criança vai brincar e mesmo nas roupas”, prescreve o imunologista, sugerindo produtos neutros, como sabão de coco e álcool.

Outra forma considerada mais segura de ensinar o sistema de defesa a lidar com vírus é a vacina. “O princípio é o mesmo de exposição mínima à bactéria para fortalecer o organismo, mas com um agente atenuado, que certamente não causará a doença mais grave”, explica.

Para o autor do estudo feito na Suécia, o maior porcentual de alérgicos em famílias com lava-louça mostra que os fatores alérgicos não se originam apenas da busca pela saúde ou limpeza.  “O ganho desta pesquisa foi associar alergia com hábitos modernos não necessariamente de prevenção de doenças”, concluiu Hesselmar.

É a pergunta que fica para os adultos: toda a assepsia que temos em torno das crianças realmente é em defesa da saúde delas? Se a resposta for negativa, melhor não atrapalhar o desenvolvimento da defesa natural que elas teriam.